Um pneuzinho e um violão

por Zulmira Furbino 25/05/2015 08:51

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Com o friozinho e a ventania que baixaram na cidade por esses dias, uma amiga me telefona e diz, tiritando, que acha que está na Europa e que vai nevar. É um exagero, mas ela não está de todo brincando. Seu termostato interior, que já nasceu desregulado para abaixo da média, bateu o pino.

Não adianta muito dizer que o céu está apenas encoberto, o vento, suave, a 13 quilômetros por hora, e que a temperatura ronda os 20°C – com sensação térmica de 20°C –, máxima prevista de 26°C e mínima de 15°C. Ou seja, é ridículo compará-la com o inverno do hemisfério norte.

Pela manhã, ela abriu as portas do alto do armário, sacando os casacos que guardou para usar em futuras viagens a locais realmente gélidos, tirando-os de dentro dos sacos plásticos em que estavam acondicionados, e escolheu justo o mais pesado, forrado com uma grossa camada de lã, para sair de casa.

Pegou também um cachecol cor de vinho que ela mesma teceu, e que ama imensamente, apesar da aparência gasta e dos fiapos que escapam aqui e ali. A peça combinava com o look, fazendo jogo com a blusa de renda rosa clara de florezinhas boninas, amparadas por folhas verdes.

Em defesa da falta de noção termostática dessa minha amiga, tenho a dizer o seguinte: ela mora num bairro da parte de cima da cidade e seu apartamento, embora esteja no terceiro andar, vive sempre a menos três graus da temperatura efetiva da rua.

De posse do casaco, minha amiga desceu até a garagem, entrou no carro, engatou a ré, apertou o botãozinho do controle remoto e baixou o vidro da porta do motorista enquanto o portão se abria. Lá fora, deparando-se com o céu cinzento, sentiu-se imensamente satisfeita. Havia feito a escolha certa.

Conhecemo-nos de longa data. Dividi com ela boa parte da infância e, na adolescência, muitas madrugadas de frio intenso ao redor de um pneuzinho queimando na Praça da Matriz, em Guanhães, em companhia de nossa turma querida, onde sempre havia alguém que arranhava um violão.

A trilha sonora, dedilhada por aspirantes a músicos que hoje são professores, médicos, funcionários públicos, donos de cartório, jornalistas ou hippies, passeava por Andanças (Beth Carvalho), Manuel, o audaz (Toninho Horta e Lô Borges), Odara e Leãozinho (Cateano Veloso), Rock das aranhas (Raul Seixas) e outras maravilhas.

Ali sim, fazia um frio que vinha com força da direção das serras do Espinhaço e da Mantiqueira. Era inverno correndo forte e  neblina abraçando tudo, tecendo madrugadas de lã, música, fogo, risadas, dor de cotovelo e alegrias.

Agora, tanto tempo depois, e devidamente encapotada, minha amiga sai dirigindo pelas ruas de seu bairro, pronta para encarar temperaturas geladas, mais desejadas que factíveis. Parece que anda louca para segurar o frio como quem tenta reter o passado, pois não sabe quando ele vai partir e se o inverno respeitará a ordem da natureza, chegando pra valer em 21 de junho.

Nessa altura, porém, já deu pra notar que o frio em BH é imponderável como Vivaldi. Ao compor As quatro estações, o compositor começou pela primavera, e, desobedecendo a lógica, que determina que a próxima estação deveria ser o verão, optou por presentear o mundo com o outono.

Temperatura baixa por aqui é mais ou menos isso.

Ao trombar com o friozinho nosso meio genérico destes dias, minha amiga imediatamente concluiu que nunca dá pra saber até quando ele vai durar. E é exatamente isso que faz a maioria das pessoas hesitar em baixar toda aquela tralha do guarda-roupa, ao contrário do que ela própria já fez.

Enquanto atravessa a cidade cinzenta e nem tão gélida, minha amiga reluta em admitir que talvez o casaco tenha sido um exagero. Quando desce do carro – depois de estacionar num local que parece ter sido especialmente reservado pela Nossa Senhora das Vagas –, ela se vê banhada por um terno e caliente raio de sol.

Pelo jeito, pode ser que o azul que começa a ser riscado no céu tenha vindo para ficar. Ela só espera que não seja pra valer.

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