Seu filho parece canhoto para algumas atividades e destro para outras?

Ele pode ter lateralidade cruzada, fenômeno que exige atenção, embora não seja uma doença

por Revista do CB 27/03/2015 11:00

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Zuleika de Souza/CB/D.A Press
João Pedro chuta bem com a canhota, mas tem o lado direito dominante, o que não lhe causa nenhuma dificuldade (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
A mão direita é a usada para escrever. O relógio fica no pulso esquerdo. Embora populares, essa orientações, geralmente dadas a crianças, só funcionam para destros. Muitas delas precisam pensar um pouco antes de identificar cada lado. Parece algo simples, mas confundir as direções pode ser um indicativo de lateralidade cruzada, uma característica relacionada a áreas como a percepção de espaço, a aprendizagem e a atenção. “Não é uma doença, mas é um fator de risco para algumas patologias”, ressalta o neuropediatra Christian Muller.

Para entender a questão, é preciso saber que cada organismo tem um lado dominante: um olho que enxerga melhor, um ouvido que escuta com mais clareza, uma perna ou mão com mais habilidade e força. Essas diferenças funcionam como um ponto de referência e são definidas por volta dos 6 ou 7 anos de idade. Quando estão todas do mesmo lado, constituem uma lateralidade homogênea. Mas nem sempre o corpo se organiza dessa maneira. Uma pessoa destra pode ter o ouvido esquerdo dominante, entre outras combinações possíveis. Nesse caso, ocorre a lateralidade cruzada, que, dependendo da combinação de fatores, implica em alguns desafios.

“O cérebro funciona de forma integrada. Assim, dificuldades na lateralidade podem afetar outras funções, como a habilidade motora, a fala e a escrita”, pontua o neuropediatra. Várias questões do cotidiano estão relacionadas às direções, incluindo as noções de dentro e fora, em cima e embaixo. “Se eu não consigo me situar no espaço, então é difícil armar uma conta, saber onde colocar unidades ou dezenas, e também entender o sentido da leitura e da escrita”, destaca Daluzia Cesário, psicopedagoga e orientadora educacional. Dessa forma, a criança pode ter problemas para copiar conteúdos no quadro, na organização, no reconhecimento das formas das letras e das proporções do próprio corpo e do ambiente em volta, o que facilita tropeções e quedas.

O foco e a concentração também podem ser prejudicados. “Em vez de a criança prestar atenção no conteúdo, ela fica numa etapa anterior, de entender de qual lado uma letra é escrita. Algo que seria praticamente automático acaba sendo um desgaste, prejudicando a atenção”, afirma Christian Muller. Alguns distúrbios que podem vir associados à lateralidade cruzada são a dislexia, a disortografia, a discalculia e o deficit de atenção. “Os adultos se queixam de se perderem com facilidade. A pessoa jura que está no caminho certo, mas acaba no caminho oposto. Quer ir para as quadras 200 e acaba nas 300”, exemplifica Carla Azevedo, psicopedagoga e fonoaudióloga.

Mas não existe uma regra para os sintomas, que podem estar presentes ou não. O pequeno João Pedro Matias, 5 anos e meio, não apresentou dificuldades com a lateralidade cruzada. Ele tem a perna esquerda dominante, mas é destro. “Antes, eu achava que ele ia ser canhoto, porque chutava com o pé esquerdo. A surpresa foi que ele preferiu a mão direita. Eu não sabia que poderia ser assim”, conta a mãe, Stela Matias, 38 anos. Ela é psicóloga e gerente de uma academia para crianças. “Isso me chamou a atenção. Fiquei na dúvida se iria atrapalhar ele, mas tratamos de forma natural.”

Stela explica que a orientação das professoras da academia era a de deixar a criança experimentar e incentivar os dois lados, mas sem a intenção de substituir a preferência, apenas para estimular todos os membros. Agora que João Pedro está na fase de pré-alfabetização, Stela observa que ele espelha algumas letras. “Mas é algo normal para a idade. Ele é muito tranquilo e caprichoso com as tarefas”, elogia a mãe. Ela também destaca que cada criança tem o próprio tempo. Entre os três filhos de Stela, João demorou um pouco mais que Maitê, 9, para definir a mão dominante, enquanto a caçula, 2, já aparenta preferir a mão direita.

“A pessoa que tem lateralidade cruzada não necessariamente vai ter dificuldades, depende de vários aspectos”, pontua a psicopedagoga Carla Azevedo. Para os que apresentarem sintomas, o tratamento precoce é ideal, pois ajuda a definir as funções no momento em que elas estão sendo desenvolvidas e aprendidas, como a escrita e a orientação espacial. O diagnóstico e o tratamento não são complicados. “É algo simples, mas que, sem cuidado, pode trazer um prejuízo enorme”, alerta Carla. Para identificar a lateralidade cruzada, bastam alguns exercícios, como andar em linha reta, olhar através de um buraco e pegar ou arremessar objetos. “Alguns pais até estranham trazer o filho para a oftamologista e eu pedir para ele chutar uma bola”, brinca Isabela Garcia, oftamologista pediatra.

O tratamento pode ser até divertido, incluindo diversas atividades motoras e cognitivas. Jogos simples, como o de sete erros e o de memória, ajudam a aprimorar a atenção e a percepção das diferentes direções. Os exercícios melhoram a consciência corporal e podem fortalecer o lado mais fraco. Em alguns casos, é útil usar um tampão em um dos olhos por algumas horas ou durante os exercícios. Por exemplo, se a pessoa tem a maior parte da lateralidade no lado direito, mas tem o olho esquerdo dominante, o olho esquerdo é tampado para que o olho direito receba mais estímulos. A mesma lógica vale para atividades auditivas que foquem em apenas um dos lados. “Não é possível mudar a dominância, mas conseguimos adaptar, trabalhar para que ela não gere mais problemas”, afirma Daluzia Cesário.

Com acompanhamento de uma psicopedagoga, Isadora Nardelli, 8 anos, tem conseguido superar as dificuldades da lateralidade cruzada. “Esses dias, ela gabaritou uma prova de matemática. Eu até brinquei que ia emoldurar em um quadro”, orgulha-se a mãe, a jornalista Beth Nardelli, 61. Isadora também apresentou distúrbio de processamento auditivo central (Dpac). Nesse caso, a pessoa tem a audição perfeita, mas a compreensão das informações é prejudicada. O Dpac dificulta a seleção das informações relevantes e a interpretação do que é ouvido. Beth conta que o diagnóstico foi fácil e o desafio foi encontrar a escola mais adequada.

Ela percebeu que a filha estava com dificuldades no primeiro ano do ensino fundamental, em áreas como a interpretação e a leitura de frases, na identificação das letras e dos sinais matemáticos. “Eu passei um semestre avisando que ela estava com dificuldade, mas me responderam que eu era muito ansiosa. De tanto insistir, eu comecei a ser a chata da escola”, conta Beth. Depois, a própria instituição orientou a mãe a procurar um profissional. Ela preferiu mudar a filha para uma escola menor, que desse atenção mais individualizada. Nas provas, Isadora faz as avaliações em uma sala separada, para diminuir as fontes de distração, e tem ajuda de uma pessoa para ler as questões. Dessa forma, o desempenho da menina melhorou bastante.

Beth acredita que ter paciência é fundamental para lidar com as dificuldades. “Muitas vezes, você não compreende como a criança não entende o conteúdo. Quantas pessoas não devem ter o problema e são tidas como preguiçosas?”, questiona. Sem apoio ou tratamento, a lateralidade cruzada, principalmente associada a outros distúrbios, pode chegar a prejuízos emocionais. “A criança não consegue executar determinadas atividades e tende a enraizar que é inferior”, lamenta a psicopedagoga Daluzia.

A ortoptista Mathilde Sardinha destaca que os alunos com dificuldade podem ser marginalizados e abandonar os estudos. Ela ressalta que a dominância ocular é um aspecto fundamental da imagem de si mesmo e do ambiente. “Nós construímos o nosso mundo por meio da percepção visual. Ela afeta o nosso processo de escolha, a nossa compreensão”, avalia. Além da lateralidade cruzada, ela aponta outras alterações na lateralidade, que podem provocar efeitos semelhantes. Como exemplo, ela cita a lateralidade imatura ou ausência de lateralidade e a lateralidade alternante, em que a pessoa alterna o olho e a mão dominante de acordo com a situação, ou seja, ela não tem uma referência fixa.

"Se eu não consigo me situar no espaço, então é difícil armar uma conta, saber onde colocar unidades ou dezenas, e também entender o sentido da leitura e da escrita” - Daluzia Cesário, psicopedagoga e orientadora educacional

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