Crianças norte-americanas estão cinco quilos mais gordas que há 30 anos

Série de pesquisas mostra que é pequeno o progresso das políticas públicas para conter o excesso de peso.

24/02/2015 11:00

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Taxas de obesidade infantil aumentaram drasticamente em todo o mundo
Os passos rumo ao fim da obesidade no mundo estão curtos, até demais. Alguns poucos resultados positivos começam a surgir de políticas públicas implementadas em países a favor da alimentação equilibrada, mas não se sobrepõem à oferta de produtos altamente industrializados e açucarados. Os dados sobre o tema foram divulgados ontem, em uma apresentação no 9º Encontro Anual da Pesquisa em Alimentação Saudável, em Baltimore, nos Estados Unidos; e também compõem uma série de artigos publicados na edição desta semana da revista científica The Lancet. Segundo cientistas, o progresso global para combater a obesidade tem sido “inaceitavelmente lento”, com apenas um em cada quatro países implementando programas nesses sentido.

Em menos de uma geração, as taxas de obesidade infantil aumentaram drasticamente em todo o mundo. Embora o problema tenha começado a se estabilizar em algumas cidades, nenhum país, até 2010, chegou a experimentar um declínio dele em toda a sua população. Crianças norte-americanas, por exemplo, pesam em média 5kg mais que 30 anos atrás, sendo que uma em cada três tem sobrepeso ou obesidade.

Por outro lado, em países de baixa e média rendas, o nanismo ainda afeta mais de um quinto das crianças com menos de 5 anos, ao mesmo tempo em que a obesidade cresce rapidamente. A situação cria uma sobrecarga nutricional duplicada, que pode afetar não só a mesma população, como o mesmo indivíduo: crianças mal-nutridas que não chegaram à altura esperada e pesam mais do que o ideal. Os cientistas destacam a importância de garantir um suprimento de alimentos que estimule o crescimento saudável sem causar a comercialização agressiva de produtos menos nutritivos e baratos.

“A subnutrição e a supernutrição realmente têm muitos gatilhos e soluções comuns. Por isso, é necessária uma política de nutrição integrada, que aborde essas duas questões em conjunto”, destaca Tim Lobstein, coautor da série e integrante da Federação Mundial de Obesidade. Para ele, as crianças com excesso de peso representam um investimento em vendas futuras para a indústria. “A exposição repetida a alimentos altamente processados e a bebidas açucaradas durante a infância constrói preferências de gosto, fidelidade à marca e lucros elevados”, explica. Os pesquisadores contabilizam para este ano o valor de impressionantes US $ 19 bilhões para o mercado global de alimentos infantis industrializados — acima dos US$ 13,7 bilhões em 2007.
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Obesidade representa um problema de saúde global (foto: SXC.hu)

Mudanças urgentes

Esse investimento une-se a um cenário em que poucos países tomaram as medidas regulamentares para proteger as crianças dos efeitos negativos da obesidade. “A maioria confiou apenas nos movimentos voluntários da indústria de alimentos, sem qualquer evidência de eficácia. Nossa compreensão da obesidade deve ser completamente reformulada se quisermos deter e reverter essa epidemia”, avalia Christina Roberto, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Christina Roberto acredita que é preciso reconhecer que o indivíduo tem alguma responsabilidade pela sua saúde assim como há ambientes alimentares que exploram as vulnerabilidades biológica (como a preferência inata por alimentos adoçados), psicológicas (com o uso de técnicas de marketing), sociais e econômicas (como conveniência e custo) das pessoas, tornando mais fácil a escolha por refeições menos saudáveis. “É hora de perceber que esse ciclo vicioso de oferta e demanda pode ser quebrado com políticas alimentares inteligentes por parte dos governos, com os esforços conjuntos da indústria e da sociedade civil para a criação de sistemas alimentares mais saudáveis”, defende.

Os trabalhos apresentados nesta semana não delegam a responsabilidade de redução da prevalência da obesidade somente aos governos. Pelo contrário; fazem uma série de recomendações contundentes aos profissionais de saúde pública e à sociedade, incluindo a proposta de que a ação civil é fundamental nesse sentido. Os autores exemplificam que a proibição do fumo em locais públicos fechados no Reino Unido ocorreu após pressão do público, assim como a concessão dos cuidados de saúde aos soropositivos na África do Sul.

Os autores consideram, porém, que os profissionais de saúde são mal preparados para tratar a obesidade. “É preciso fazer mais para melhorar a formação de cuidados de saúde, em especial para combater preconceitos sobre pacientes obesos e melhorar as estratégias de cuidados de crianças com esse problema”, garante Boyd Swinburn, autor principal da série.

Professor da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia, Swinburn acredita que a chave para o cumprimento da meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de não aumentar as taxas de obesidade a partir de 2025 será o reforço dos sistemas de prestação de contas para apoiar ações governamentais. “Assim, vamos restringir o papel da indústria de alimentos na formação de políticas públicas e encorajar a sociedade civil a criar uma demanda para ambientes alimentares saudáveis.”

"A maioria (dos países) confiou apenas nos movimentos voluntários da indústria de alimentos, sem qualquer evidência de eficácia. Nossa compreensão da obesidade deve ser completamente reformulada se quisermos deter e reverter essa epidemia” - Christina Roberto, professora da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard


Novo tratamento
A obesidade representa um problema de saúde global com opções limitadas de prevenção ou tratamento disponíveis, além da aclamada dupla exercícios e dieta. Um conhecido anti-inflamatório pode entrar na lista de combate ao problema, segundo estudo publicado na edição desta semana da revista científica The EMBO Journal. A substância funciona como reguladora no processo de gasto de energia e peso corporal.

O gasto de energia em células humanas é controlado por organelas chamadas mitocôndrias — os principais locais de queima de nutrientes, como ácidos graxos. Pesquisas anteriores haviam mostrado que esses processos são regulados por receptores ativados pelo proliferador de peroxissoma (PPARs). Ativadores farmacológicos dos PPARs foram testados como tratamento clínico promissor para a obesidade, mas causaram efeitos colaterais indesejáveis.

O novo trabalho, conduzido por Toshihiro Nakajima, da Universidade Médica de Tóquio, no Japão, foca no gene sinoviolina, que tem relação causal com a condição inflamatória da artrite reumatoide. Em trabalhos anteriores, a equipe desenvolveu o composto químico LS-102, que inibiu a enzima codificada pelo sinoviolina e suprimiu a artrite reumatoide em camundongos.

Dadas as estreitas associações entre inflamação e doenças metabólicas, incluindo a obesidade e o diabetes, os autores testaram, nessa nova pesquisa, o papel do sinoviolina em cobaias para essas desordens. A perda de sinoviolina levou à diminuição do tecido branco de gordura e à redução do peso corporal — efeito atribuído à regulação mitocondrial.

“A obesidade é um conhecido fator de risco para outras doenças crônicas”, lembra Nakajima. “Nossas descobertas indicam que o sinoviolina pode ser uma chave para a compreensão das características comuns de obesidade e doença inflamatória crônica, como a artrite reumatoide.”


Escolha por processados
De acordo com um segundo conjunto de artigos publicados também nesta semana, na Lancet Global Health, na maioria das regiões do mundo, o consumo de alimentos como frutas e legumes tem melhorado durante as duas últimas décadas, mas foi ultrapassado pelo aumento da ingestão de opções não saudáveis, incluindo carne processada e bebidas açucaradas. Esse foi o primeiro estudo a avaliar a qualidade da dieta em 187 países, cobrindo quase 4,5 bilhões de adultos. As melhorias entre 1990 e 2010 têm sido maiores em nações de alta renda, com reduções modestas no consumo de alimentos não saudáveis e aumento da ingestão dos saudáveis. No entanto, as pessoas que vivem em muitas das regiões mais ricas — Estados Unidos e Canadá, Europa Ocidental, Austrália e Nova Zelândia — ainda seguem as dietas mais pobres em qualidade nutritiva no mundo.

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