Parques e praças viram ponto de encontro que valorizam contato com os outros

Mais do que um espaço para brincar e tomar sol, locais públicos são também uma forma de estimular a convivência

por Carolina Cotta 04/01/2015 08:00

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Arquivo Pessoal/Divulgação
Os primeiros aniversários de Alice foram comemorados no parque onde brinca desde quando nasceu (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
O grande fluxo de carros, a violência urbana, e pais e mães trabalhando fora tiraram das crianças um convívio possível no passado. Os pais de hoje ainda são de uma geração em que era possível brincar na rua e ter os vizinhos como os primeiros amigos. As pracinhas e parques de cada bairro suprem um pouco dessa carência, pois se tornam um ponto de encontro dos pais que valorizam o contato com a natureza e com o próximo. Ali, as crianças podem brincar com pessoas de suas idades, curtir os brinquedos, tomar sol. E assim as pracinhas vão criando laços entre a vizinhança.

A professora de inglês Andrea Fregnani Rosa, de 44 anos, é de uma cidade muito pequena no interior de São Paulo. Lá, um dos poucos espaços públicos era a Praça do Centro, aquela típica praça com igreja no centro, fonte e coreto. “Quando criança, era levada para essa praça, onde tinha banda tocando nos domingos à noite. Brincava com outras crianças e tomava sorvete. Sempre que visitava cidades maiores procurava conhecer parques e praças e quando me casei e mudei para BH, eu e meu marido frequentávamos parques e praças nos fins de semana.”

Desde que Alice, hoje com 4, nasceu, Andrea passou a frequentar o Parque Marcos Mazzoni, no Cidade Nova, de segunda a sexta-feira pela manhã e muitas vezes à tarde também. E nos fins de semana ainda procuravam conhecer espaços novos. “Gosto de aproveitar o sol e a vida ao ar livre dá oportunidade de a nossa filha criar o hábito de frequentar os espaços públicos. Fazemos caminhadas, observamos a vegetação e pequenos animais, ela brinca se tem brinquedos disponíveis, interage com outras crianças, fazemos piqueniques”, conta.

Inclusive, foi assim que ela comemorou os três primeiros aniversários, o que está virando uma moda boa na cidade. Andrea lembra que queria fazer um festa simples para os amiguinhos que haviam convivido com ela no primeiro ano de vida. “Então, veio a ideia de comemorar no parque mesmo, que foi o lugar em que ela conheceu as crianças e seria um lugar em que todos se sentiriam em casa. Fizemos a comemoração pela manhã e contamos com a presença de 33 crianças, juntamente com mães, avós, babás”, conta Andrea, que repetiu o formato nos aniversários de 2 e 3 anos.

A cidade é uma extensão da nossa casa e ter espaços públicos bem cuidados é um direito e um ganho para a população. “Podemos aproveitar a natureza, o contato com outros cidadãos, nos beneficiar de eventos culturais. As crianças assim criadas terão uma consciência melhor de cidadania e cuidarão melhor desses espaços”, acredita Andrea, para quem a população não aproveita parques e praças por falta de hábito. “Conversando com pessoas nascidas em BH, ouço que não conhecem muitos dos lugares que frequento com minha família. Mas tenho notado um aumento no público a cada ano que passa.”

PAIS MAIS PRÓXIMOS

Não só as crianças convivem mais nas pracinhas. Os pais, que compartilham não só a realidade do bairro, mas também o fato de terem filhos pequenos, acabam se unindo em torno das brincadeiras e, muitas vezes, disso nasce uma amizade. A professora de educação física Vanessa Sousa, de 37, mãe de João Pedro, de 2, começou a frequentar as praças e parques de BH depois que o filho nasceu. Nascida e criada no interior, sabia o que era ficar sentada nas calçadas até altas horas da noite conversando com os amigos e quando veio para a capital estranhou tudo. “Cada pessoa entrava em seu apartamento e mal conhecia o vizinho da frente. Sentia falta da proximidade das pessoas”, lembra.
Arquivo Pessoal/Divulgação
Os passeios de Vanessa com o filho João Pedro na praça do bairro fizeram surgir um grupo de amigos (foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)
Por achar que criar um filho somente em apartamento é algo desumano, sempre quis que ele experimentasse muitas das coisas que ela vivenciou: “A brincadeira leve e despretensiosa, os brinquedos simples, mas carregados de significado; aquelas amizades que são formadas na infância e que crescem com a gente”. Durante a licença-maternidade conheceu a Praça Manoel de Barros, que chama de “nossa pracinha”, onde sempre arrumava um jeitinho de dar uma passeio pelas manhãs. “Cheguei timidamente, mas não demorou muito e comecei a fazer amizades e a trocar experiências sobre as maravilhas e mazelas da maternidade com outras mães que frequentam o lugar.”

Essa relação fez surgir um grupo de amigas, o Mães do Castelo, que marcava encontros para estreitarem os laços. Inicialmente, era um grupo das mães com seus filhos. “Nos reuníamos só na pracinha, mas depois começamos a marcar encontros nos parques próximos. Nesses lugares, nos encontramos para bater papo e levar nossos filhos para brincar, fazer piqueniques, aula de musicalização, gincana, chá de fraldas, comemoração de aniversários. Com os encontros constantes, fomos nos unindo cada vez mais e hoje posso dizer que o grupo vem conseguindo agregar muito mais que mães, ele tem unido famílias.”

A ideia é resgatar as antigas amizades de bairro, priorizando sempre a simplicidade e mostrando aos filhos que é possível ser feliz por meio da valorização das coisas mais importantes da vida. “Acredito que todas as pessoas que frequentam parques e praças sempre terão a oportunidade de fazer novas amizades, desconectarem-se desse mundo tão agitado e estressante e voltar o olhar para a natureza e a beleza que as cercam. Com a ocupação desses espaços públicos começamos a ter uma maior preocupação na preservação dos mesmos, pois queremos e temos o direito de ter sempre esses lugares limpos e com boa infraestrutura para nos atender”, defende.


LUIZ FERNANDO VIEIRA TRÓPIA

Sociólogo, educador, gestor cultural e membro efetivo da Comissão Mineira de Folclore

Qual a importância desse movimento de resgate ao brincar em parques e praças?

A urbanização, o aumento desenfreado de veículos e a falta de segurança afastaram as crianças das ruas, principalmente nas grandes cidades. Mas como há uma resistência de educadores, folcloristas, animadores culturais e ONGs, e por iniciativa desses, deu-se início à realização de eventos em praças, espaços abertos e algumas escolas sensíveis ao problema. É de suma importância que os cidadãos urbanos – crianças, adolescentes, adultos e idosos – voltem para as ruas, de forma organizada, para, paradoxalmente, preservar sua espontaneidade, criatividade e informalidade. Muitas vezes, e até idealmente, com as gerações mais velhas resgatando e ensinando as brincadeiras, e brinquedos de rua pouco vistos atualmente, aos mais jovens.

Quais valores esse brincar no espaço público pode criar?

São os ambientes que restaram para o lazer das pessoas. As ruas também podem voltar a ser o espaço da brincadeira, desde que interditadas em determinados dias e horários. Isso resgata a sociabilidade, a integração, a solidariedade, a criatividade, o espírito coletivo, o desenvolvimento físico, intelectual e social presentes nas dinâmicas das brincadeiras e brinquedos tradicionais, além do universo simbólico e o “faz de conta”, imprescindíveis na sociedade moderna.

Quais as vantagens do brincar ao ar livre, perto da natureza, principalmente em um tempo em que as brincadeiras estão atreladas ao consumismo e à tecnologia?

Brincar ao ar livre é resgatar a origem das brincadeiras, é aprender a admirar e respeitar a natureza, inclusive com o aproveitamento dos próprios recursos naturais, como o ar e o vento, ao soltar papagaios, pipas e outros brinquedos aéreos; como a água de enxurradas, criando barquinhos; como a terra, na elaboração de objetos de cerâmica e mesmo brincando sobre o chão batido, jogando pião, bolinha de gude, bente-altas, finca, malha. Todo esse tipo de brincadeira tradicional se contrapõe ao consumismo, aos brinquedos industrializados empurrados pela grande mídia.

ENCONTRE SUA PRAÇA OU PARQUE

Parque Mosteiro Tom Jobim (Luxemburgo)
» Estrutura: fraldário/trocador, banheiro, segurança
» Horário: de terça a domingo, das 8h às 18h

Parque Aggeo Pio Sobrinho (Buritis)
» Estrutura: banheiro, área livre, brinquedos, quadras, segurança, estacionamento
» Horário: de terça a domingo, das 8h às 18h

Parque Ecológico Marcos Mazzoni (Cidade Nova)
» Estrutura: banheiro infantil, área livre, brinquedos, área verde, biblioteca, segurança, vagas próximas
» Horário: de terça a domingo, das 7h30 às 18h

Parque das Mangabeiras (Mangabeiras)
» Estrutura: fraldário/trocador, banheiro infantil, lanchonete, área livre, brinquedos, área verde, estacionamento
» Horário: de terça a domingo, das 8h às 18h

Praça JK (Sion)
» Estrutura: quiosques, brinquedos, vagas próximas
» Horário:
livre

Parque das Águas (Complexo Ecológico Serra do Rola Moça)
» Estrutura: fraldário/trocador, banheiro, área livre, brinquedos, quadra, segurança, vagas próximas
» Horário: diariamente, das 7h às 18h

Parque Ecológico da Pampulha (Lagoa da Pampulha)
» Estrutura: fraldário/trocador, lanchonete, área livre, brinquedos
» Horário: de sexta a domingo, das 8h30 às 17h

Praça Floriano Peixoto (Santa Efigênia)

» Estrutura: área verde, área livre, brinquedos, segurança, vagas próximas
» Horário: livre

Praça da Liberdade (Funcionários)
» Estrutura: lanchonetes próximas, área livre, área verde, segurança
» Horário: livre

Fonte: Na pracinha

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