Na era da informação, crianças sabem da verdade sobre o Papai Noel mais cedo

Mesmo com a descoberta, os pequenos não abrem mão de apostar e mergulhar na fantasia do bom velhinho

por Zulmira Furbino 21/12/2014 09:00

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Gael Levy, de 6 anos, já escolheu o presente que deseja ganhar este ano e está todo animado com a chegada da festa de fim de ano (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Gael Levy Gonçalves Prado Ferreira tem 6 anos. Nas noites de Natal em sua casa, na hora exata em que o Papai Noel vai passar, as luzes misteriosamente se apagam e todos saem correndo para tentar surpreender o bom velhinho antes de seu trenó alçar voo e partir para a próxima casa onde vive pelo menos uma criança. Invariavelmente, nesse momento, a família se depara com os presentes deixados na porta e tudo vira festa. Mas do velhinho rechonchudo vestido de vermelho, nem sombra. O fato de nunca dar as caras, entre outras idiossincrasias do Papai Noel, no entanto, não passam despercebidas por Gael. Entre outras coisas, ele já perguntou à mãe por que as crianças pobres não ganham tantos presentes como as ricas. Ainda assim, continua sustentando e defendendo com bons argumentos a existência da mitológica figura natalina.

“Gosto de Papai Noel. Ele é muito legal porque entrega presentes. Este ano, pedi para ele o brinquedo mais legal do mundo. É um tipo de coisas que grudam (um Lego que tem imã). Acho que ele vai trazer para mim”, explica Gael, todo animado com a chegada da festa de fim de ano. Questionado sobre como um senhor tão gorducho pode conseguir carregar sozinho um saco de presentes tão pesado, entregando-os de porta em porta, ou de janela em janela, no mundo inteiro, Gael não titubeou: “Aquele saco de presentes que ele carrega nunca fica pesado. É tão mágico que quando caem dentro dele os presentes afundam e ficam levíssimos”, imagina o garoto. Ana Luísa Gonçalves Prado, mãe de Gael, reconhece que é difícil explicar a questão da diferença dos presentes entre pobres e ricos não só para as crianças, mas para si mesma. No fim, é o próprio Gael quem dá a solução para o dilema: “Os pobres vão ficar ricos e nós vamos ficar milionários e todos vão ficar felizes”, raciocina.

Apesar de ter respostas prontas para tudo o que diz respeito ao Papai Noel, Gael faz parte de uma geração de crianças que, como seus pais – e quase toda a população do planeta – estão mergulhadas na desconfiança. Para a psicoterapeuta de família Cláudia Prates, é justamente essa insegurança de todos em relação ao mundo que vem minando a credulidade infantil, a ponto de acabar como dilema da existência do Papai Noel. “Hoje, as crianças pedem afirmação e compromisso. Quando digo aos meus netos que a vovó vai levá-los para dormir na casa dela, eles perguntam se já conversei com a mãe e o pai deles”, explica. Na análise dela, a figura de Papai Noel faz o que pai e mãe se negam a fazer. “A fronteira com ele é mais frouxa. E as crianças contam com a ‘ignorância’ dos pais em relação ao que elas pensam sobre a existência do bom velhinho. Assim, ganham o direito de pedir o absurdo”, resume.

Gabriel, o segundo dos três netos de Cláudia, já fez a cartinha com o seu pedido para o Papai Noel. De presente de Natal ele espera ganhar um miniIpad. Quando sua avó o questinou de que maneira o velhinho da Lapônia iria arranjar um presente desses para dar a ele, a resposta foi certeira: “Ah, minha mãe vai me dar. Sei lá, eu só sei que vou ganhar”, sustentou. A neta mais velha, Luiza, de 12, já não acredita na figura mitológica do Natal, mas pelo sim, pelo não, também fez a sua cartinha. “Luiza está cansada de saber que Papai Noel não existe, mas a cartinha está lá. Papai Noel funciona enquanto é um bálsamo, enquanto convém”, resume a terapeuta e avó, orgulhosa dos netinhos.

MEMÓRIA: Como surgiu a lenda

A figura do generoso velhinho de roupa vermelha, barba branca, barriga avantajada e, seguramente, peso acima do que seria recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), mais conhecido como Papai Noel, é fruto de uma miscelânia de lendas pagãs e cristãs. Tudo teria começado quando o Velho Mundo, ainda dominado pelos bárbaros, era palco de celebrações que tentavam espantar o frio do Hemisfério Norte no fim de dezembro. Aí teria aparecido um velhinho, representante do velho inverno, que batia na porta da casa das pessoas pedindo abrigo, comida e bebida. Dizia a lenda que as famílias que acolhiam esse senhor, oferecendo a ele o que necessitava, desfrutariam de um inverno mais ameno. Décadas depois, a figura do “Velho Inverno” foi associada à de São Nicolau, que viveu no século 3, na Turquia. De acordo com a tradição cristã, Nicolau, transformado em santo muito depois, ajudou uma jovem a não ser vendida pelo pai jogando um saco cheio de moedas de ouro pela chaminé de sua casa. Nesse momento, começou a ser desenhada a fusão entre São Nicolau e o velhinho pedinte do rigoroso inverno no Norte. A partir de então, no dia 6 de dezembro as crianças passaram a receber presentes do bom velhinho, que trajava uma veste de bispo. Mais tarde, na maioria dos países do mundo, a data foi empurrada para 25 de dezembro, o dia do nascimento de Cristo. Novos elementos foram incorporados à imagem do bom velhinho no fim do século 19 pelo desenhista americano Thomas Nast. Foi aí que Noel ganhou a aparência de um duende de jardim. Mas Nast foi aprimorando o seu projeto ao longo dos anos até dar a Papai Noel uma aparência próxima da que tem hoje, embora a cor da veste ainda variasse bastante. Foi só no início da década de 30 que o bom velhinho foi vestido pelo traje vermelho. E pela Coca-cola. Com a popularização das campanhas publicitárias da marca de bebidas, a moda pegou e o Papai Noel ganhou a aparência que tem hoje.

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