Cientistas dos EUA constatam que genéricos se consolidam porque são mais baratos e passam sensação de segurança

No Brasil, esses medicamentos representam 27% do mercado

por Bruna Sensêve 12/11/2014 15:00

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Fábio Cortez/DN/D.A Press
Pelo nome da substância, o paciente sabe exatamente o que está tomando e o médico o que está prescrevendo (foto: Fábio Cortez/DN/D.A Press)
A embalagem tem uma larga faixa amarela e um “G” impresso em fonte maior para garantir ao consumidor que o medicamento comprado é genérico. De acordo a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), é vendido 1,1 bilhão de unidades desses remédios anualmente no país. E, após 15 anos do começo da política no Brasil, a tendência do mercado — que já representa 27,4% das vendas de alopáticos — é de crescimento. Novas pesquisas na área conduzidas por cientistas de países em que o uso de genéricos é ainda mais avançado chegam a conclusões surpreendentes e ajudam nesse sentido. Em alguns casos, o tratamento com eles é até mais efetivo que o feito com produtos de marca, indica estudos.

A comparação foi realizada com um grupo de medicamentos atuantes na redução do colesterol sanguíneo e, consequentemente, responsáveis pela redução de eventos cardiovasculares. As estatinas são um dos remédios mais prescritos nos Estados Unidos. Mas, assim como os vasodilatadores receitados cronicamente para a hipertensão, nem sempre são administradas pelos pacientes com o rigor exigido nas receitas médicas, impedindo que elas tenham o benefício integral do tratamento. A ideia dos pesquisadores da Escola de Medicina de Harvard era justamente investigar se o uso de genéricos poderia desempenhar algum papel diferenciado para a adesão das pessoas à terapia.

Anderson Araújo/CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Anderson Araújo/CB/D.A Press)
Foram recolhidos dados de prontuários médicos e registros farmacêuticos de 90 mil pacientes com 65 anos de idade ou mais, entre 2006 e 2008, sendo que a uma parcela deles foi receitada a estatina de marca e à outra, o genérico. Os cientistas acompanharam a adesão ao tratamento e os registros de hospitalização por síndrome coronariana aguda, acidente vascular cerebral e mortalidade. Na análise desses dados, descobriram que os pacientes que tomaram as estatinas genéricas eram mais prováveis a aderir ao tratamento prescrito do que aqueles com o terapêutico de marca. Possivelmente por esse motivo, tinham também uma taxa 8% menor de eventos cardiovasculares e óbito. Os resultados foram publicados na revista científica Annals of Internal Medicine.

“Os pacientes só terão o benefício clínico completo dos medicamentos prescritos se os tomarem. Nosso estudo descobriu que eles são mais propensos a tomar estatinas genéricas do que as versões de marca, que têm um custo associado mais elevado”, define o principal autor do estudo, Joshua Gagne, professor assistente de medicina na Divisão de Farmacoepidemiologia e Farmacoeconomia, da Universidade de Harvard. Gagne acredita que o motivo principal para esse resultado é o programa de redução direta de custos no bolso do paciente. No estudo, a média de pagamento por uma estatina genérica foi de US$ 10 e as estatinas de marca tiveram o valor médio de US$ 48. “Nossa descoberta de que a adesão é maior com estatinas genéricas é consistente com outros estudos que mostraram uma relação direta entre os pagamentos mais altos e a menor aderência.”

Ingestão segura
A motivação, porém, pode não estar somente associada ao menor custo. Para o pesquisador e farmacêutico do Centro Brasileiro de Informações sobre Medicamentos do Conselho Federal de Farmácia (CEBRIM-CFF) Rogério Hoefler, o genérico também tem a vantagem de o paciente saber exatamente qual a substância está tomando e não só uma fórmula de marca. Ele conta que um número expressivo de estudos demonstra que, muitas vezes, os prescritores receitam a medicação sem saber exatamente tudo que está incluso naquela fórmula. “Às vezes, tem um remédio que não é só uma substância, mas uma combinação delas e a uma delas o paciente pode ter uma hipersensibilidade que passa despercebida pelo médico.”

Pelo nome da substância, o paciente sabe exatamente o que está tomando e o médico o que está prescrevendo. “Não há dúvidas. Dipirona é dipirona aqui, na China e em qualquer lugar do mundo.” Outra questão em que o genérico sai na frente é a redução na possibilidade de confusão de remédios e de erros de ingestão. “Quando não há o apelo da marca, também é enfraquecido o fator publicidade. Ou seja, pode diminuir a automedicação pelo paciente que ouviu uma propaganda de determinado remédio”, diz Hoefler.

A vantagem no preço final do medicamento genérico, no entanto, continua a ser a principal vantagem. Os Programas de Medicamentos Genéricos com Descontos têm crescido ao longo do tempo em todo o mundo, e a utilização majoritariamente por minorias raciais e étnicas evaporou. As conclusões são do pesquisador Hee Hong, do Departamento de Farmácia Clínica da Universidade de Memphis, nos Estados Unidos. Ainda que esses programas possam reduzir os custos de medicação e ajudar os pacientes a obter a terapia medicamentosa, o uso inicial de genéricos foi baixo. Nos Estados Unidos, em 2007, apenas 3,6% dos pacientes que tiveram qualquer prescrição de drogas receberam a opção de genérico, especialmente entre as minorias. Em 2010, esse índice cresceu para 23,1%.

Testes
Hong acredita que esse aumento pode ser um resultado da expansão de oferta pelas redes farmacêuticas ou mesmo pelo fato de o consumidor estar mais alerta sobre o programa de descontos. “Como esperado desde o início, os genéricos foram mais apreciados entre os idosos, doentes crônicos e a população sem seguro de saúde. No entanto, percebemos que esses remédios circulam livremente entre diferentes níveis econômicos, educacionais e grupos raciais e étnicos.” O pesquisador afirma que, apesar do senso comum de que os genéricos teriam menor qualidade, eles não são vistos assim pelos consumidores.

No Brasil, os preços de lançamento são pelo menos 35% mais baratos em relação ao preços dos medicamentos de referência, e, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), isso não significa que são menos seguros. Na opinião do professor do curso de Farmácia e de Medicina da Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac) Carlos Vidotti, no Brasil, a garantia de melhor qualidade do medicamento está entre os genéricos. Isso porque eles passam por mais testes de qualidade que as outras classes de remédio.

Há três tipos de medicamentos: os de referência, os genéricos e os similares. Os primeiros são os produtos inovadores que servirão de parâmetro de eficácia, segurança e qualidade para os registros de medicamentos genéricos e similares. “Todos os genéricos devem ser comparados aos medicamentos de referência. Para isso, eles passam por mais testes, diferentemente dos similares, que não precisam, necessariamente, ter o a mesma qualidade do remédio de referência.”

O genérico é submetido a dois testes a mais, o de bioequivalência e o de biodisponibilidade. O último verifica se o medicamento fica disponível no organismo da mesma forma que o de referência, e o primeiro se tem a mesma curva de concentração. “A qualidade de todos eles sempre é garantida, mas o efeito terapêutico do genérico tende a ser melhor”, diz Vidotti.

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