Teste que detecta o ebola em até 60 minutos deve custar entre R$ 0,87 e R$ 1,62

O início das vendas do exame criado na Universidade de Harvard está previsto para o próximo ano

por Roberta Machado 24/10/2014 10:10

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SETH KROLL/HARVARD%u2019S WYSS INSTITUTE/DIVULGAÇÃO
A mudança de cores no papel indica a presença do vírus: tecnologia poderá ser usada para outras doenças (foto: SETH KROLL/HARVARD%u2019S WYSS INSTITUTE/DIVULGAÇÃO)
Pesquisadores da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, desenvolveram um teste de papel capaz de diagnosticar o vírus ebola em menos de uma hora. O exame, descrito nesta quinta-feira (23/10) na revista Cell, pode ser usado fora do laboratório após treinamento básico. A plataforma de baixo custo foi testada com sucesso em duas diferentes cepas do vírus, incluindo a responsável pelo atual surto na África Ocidental responsável pela morte de mais de 4.800 pessoas — o Mali confirmou, ontem, o primeiro caso da doença. Ela deve entrar no mercado no ano que vem, a um custo de poucos centavos por unidade.

A tecnologia do teste é baseada em genes artificiais. Os cientistas construíram cópias dos componentes moleculares de uma célula que são controlados por redes genéticas. Esses genes foram especialmente desenvolvidos em laboratório para funcionar com as estruturas celulares. As proteínas do vírus interagem com uma espécie de chave genética do teste e, se houver uma combinação, ela é ativada. O resultado aparece entre 30 e 60 minutos e pode ser visto por meio da mudança de cores em círculos presentes em um pedaço de papel.

O projeto começou há um ano e meio como uma tentativa de popularizar o uso da biologia sintética em pesquisas e em aplicações médicas. A técnica já era empregada em testes de laboratório há algum tempo, mas esta é a primeira vez que tem a sua eficiência comprovada fora de um ambiente controlado. Até então, essas redes de genes sintéticos empregavam células inteiras, o que torna obrigatória a adoção de medidas de biossegurança para a aplicação do método. Usando apenas partes de células, como propõem os cientistas de Harvard, esse tipo de cuidado deixa de ser necessário.

“Descobrimos que podíamos congelar as estruturas de transcrição da célula e colocá-las no papel. Isso possibilita a criação de um material que tem as propriedades fundamentais de transcrição e tradução de uma célula, mas que é estéril”, explica Keith Pardee, pesquisador do Instituto Wyss de Engenharia Biológica da Universidade de Harvard e um dos autores do trabalho.

Simplicidade
Os principais métodos disponíveis para diagnosticar o vírus ebola detectam anticorpos e proteínas nas amostras de pacientes por meio de reações induzidas em laboratório, que são lidas e interpretadas por equipamentos especiais. “Os testes (atuais) são bons e confiáveis, especialmente o PCR, embora alguns dos exames PCR possam levar algumas horas, especialmente quando precisam ser transportados para um laboratório”, avalia Alan Schmaljohn, professor de microbiologia e imunologia da Escola de Medicina da Universidade de Maryland e não participante do estudo.

O método proposto pela equipe de Harvard pode gerar o diagnóstico sem a necessidade de qualquer tipo de equipamento especial. A técnica tem potencial aplicação no primeiro atendimento do paciente com suspeita de ebola, que poderia ser enviado mais rapidamente para o isolamento, se necessário. “O diagnóstico rápido e confiável é crítico, especialmente no estágio da triagem, para decidir onde colocar um paciente”, ressalta o especialista.

O sistema foi testado inicialmente para detectar moléculas de RNA produzidas por genes de bactérias resistentes a antibióticos. Mas, quando o estudo estava próximo do fim, os pesquisadores viram na epidemia do ebola uma oportunidade de avaliar a eficiência e a versatilidade do método. “Em menos de um dia, nós construímos e testamos 24 sensores que podem distinguir entre as cepas do vírus ebola do Sudão e do Zaire. Isso serviu como validação do conceito para a criação rápida de um diagnóstico de baixo custo”, conta Pardee.

Os cientistas agora trabalham em uma versão mais sensível do teste e adaptada para uma forma mais fácil de ser usada por pessoas com pouco treinamento médico — o grupo estuda a fabricação em forma de varetas e de cartões plásticos laminados. Há a possibilidade de adaptar a criação para outros tipos de condições médicas. Pardee estima que o exame comece a ser comercializado em um ano, que tenha um preço inicial entre R$ 0,87 e R$ 1,62, mas que possa chegar a ser fabricado a um custo de R$ 0,10.

UE anuncia verba para pesquisa
A Comissão Europeia anunciou ontem que vai usar 24,4 milhões de euros do orçamento da União Europeia em pesquisas prementes sobre o vírus ebola. O dinheiro vai financiar cinco projetos, que incluem ensaios clínicos de uma possível vacina e testes de novos tratamentos. Os fundos, que fazem parte do programa europeu de pesquisa e inovação Horizon 2020, serão disponibilizados por meio de uma tramitação acelerada para permitir o início imediato dos trabalhos.

TONY KARUMBA/AFP - 23/11/12
Primeiro caso foi detectado na República Democrática do Congoem 1976 (foto: TONY KARUMBA/AFP - 23/11/12)
Criado banco de dados do vírus
Na tentativa de encontrar formas mais eficientes de combater o ebola, pesquisadores trabalham na criação de um grande banco de dados com todas as informações já registradas sobre a doença. O levantamento, que ainda não inclui a atual epidemia, analisa os 22 surtos ocorridos desde que a enfermidade foi registrada em 1976, no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo. O relatório detalha todos os casos de contaminação em cada uma das 117 regiões em que o vírus já foi registrado, além de descrever as transmissões entre animal e humanos que deram início aos contágios e o comportamento dos pacientes que “exportaram” o patógeno para outras regiões. As informações foram publicadas hoje na revista Scientific Data.

Para criar a referência mais completa já produzida sobre o ebola, os pesquisadores tiveram de interpretar informações muitas vezes pouco precisas e fazer levantamentos geográficos que determinassem com alguma precisão onde ocorreram as transmissões do vírus. A comparação entre os casos revelou que a reação da população e do sistema de saúde são fatores determinantes para a dimensão de cada surto.

“Uma determinada cepa do vírus pode ter uma virulência alta ou baixa, mas parece que há outros fatores que são mais importantes para determinar a magnitude do surto”, atesta Oliver Brady, pesquisador do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford e um dos autores do estudo. Ao analisar as formas de propagação, o grupo notou que as epidemias costumam se expandir quando pessoas doentes precisam viajar em busca de ajuda médica. “A primeira grande notificação de um surto geralmente acontece quando alguém de uma vila procura tratamento em um grande hospital urbano. Se esse paciente puder ser rapidamente diagnosticado e o histórico dele construído, há uma grande chance de controlar o surto”, descreve Brady.

O grupo pretende incluir a atual epidemia — a mais grave da história — no banco de dados. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até o último dia 19, ela matou 4.877 pessoas de um total de 9.936 infectadas. A comparação do problema atual com os anteriores, ressaltam os pesquisadores, pode fornecer respostas sobre como a doença se propagou tão rapidamente nos últimos meses.

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