Implante coclear trata a surdez, mas afeta a aprendizagem

O efeito adverso foi constatado em pesquisa dos EUA. Brasileiros questionam o experimento e ressaltam que o dispositivo, na verdade, provoca efeito contrário

por Flávia Franco 22/09/2014 11:00

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Colocado no crânio, o implante coclear permite que pessoas com surdez profunda consigam escutar por meio de estímulos elétricos enviados aos nervos auditivos. Com o benefício chancelado por cientistas, porém, vem o risco de perdas cognitivas. É o que mostra um estudo recente da Universidade de Indiana (EUA). Pesquisadores afirmam que, comparadas às crianças com audição normal, aquelas que têm o dispositivo apresentam até cinco vezes mais chances de sofrer com falhas de memória, atenção, planejamento e aprendizagem conceitual.
Anderson Araújo/CB/D.A Press
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Publicado no Journal of the American Medical Association Otolaryngology, o estudo, o primeiro a realizar esse tipo de comparação, avaliou 73 crianças e adolescentes que colocaram o implante antes dos 7 anos e 78 sem problemas auditivos. Todos os participantes apresentavam QI (coeficiente de inteligência) mediano ou acima da média. O objetivo era determinar os possíveis riscos de deficits no funcionamento e na execução de comportamentos do dia a dia.

Isso porque atrasos cognitivos são, de acordo William G. Kronenberger, líder da pesquisa, normalmente relatados pelos pais ou por pessoas que trabalham diretamente com meninos e meninas que têm o implante coclear. “Na nossa pesquisa, entre um terço e metade das crianças com o dispositivo apresentaram perdas cognitivas, como de memória, atenção e planejamento.”

Os participantes do experimento foram divididos em dois grupos: em idade pré-escolar, de 3 a 5 anos, e em idade escolar, de 7 a 17 anos. Partindo de uma escala determinada pelos pesquisadores, os pais avaliaram o desempenho na execução de funções rotineiras dos filhos. Os resultados indicaram que as crianças pré-escolares que tinham colocado o implante com em média 18 meses de vida apresentaram menos perda cognitiva do que aquelas em idade escolar e que foram submetidas à cirurgia para receber o dispositivo cerca de 10 meses depois.

“Nas áreas críticas de atenção controlada, memória, planejamento e solução de problemas, cerca de 30% a 45% dos participantes com implante coclear marcaram acima do valor de corte. Já, no caso daqueles com audição normal, cerca de 15% ou menos apresentaram os mesmos problemas”, detalha Kronenberger.

Resultado polêmico
Especialistas brasileiros, porém, discordam da avaliação de que o aparelho auditivo pode provocar problemas cognitivos. “Deve-se lembrar que o implante coclear traz inúmeros benefícios para pessoas com surdez profunda. Quando é colocado na infância, você oferece à criança uma possibilidade de melhorar a linguagem e a comunicação”, afirma Bruno Loredo, otorrinolaringologista do Hospital Santa Luzia, em Brasília.

O fato de os participantes do estudo em idade pré-escolar apresentarem menos deficit cognitivo é, para Loredo, um dos exemplos dos benefícios do dispositivo. “Como essas crianças colocaram o implante mais jovens, passaram por um tempo de surdez mais curto e, por isso, não tiveram tantas perdas. Ou seja, quanto mais jovem a criança começa a ouvir, melhor o desenvolvimento e o desempenho das funções cognitivas”, reforça.

Segundo Loredo, os dispositivos são colocados nos pacientes cada vez mais cedo. No Brasil, há caso de pacientes com 3 anos que já usam o aparelho. “E esse período que passaram sem ouvir certamente atrapalhou de alguma forma o desenvolvimento delas. Se as crianças desse estudo apresentam problemas cognitivos, eles devem estar relacionados com falhas que ocorreram no período que passaram sem escutar”, acredita.

Para André Sampaio, otorrinolaringologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB), o grande problema do estudo está, primeiramente, no método utilizado. “O pesquisador não devia ter feito as comparações com crianças com audição normal, mas com surdas que não usam o dispositivo. Só assim seria possível eliminar a variável criada pelo aparelho”, defende.

Sampaio também reforça que as alterações cognitivas e comportamentais detectadas não têm a ver com o aparelho, mas com a deficiência auditiva. “Existem casos de pacientes que têm dificuldade no comportamento mais refinado, como concentração e inquietude, mas também há crianças surdas que não apresentam outro problema além da surdez”, afirma. Isso ocorre, de acordo com o médico, porque a surdez é um espectro causado por uma série de fatores que, quando agregados, podem criar um quadro de problemas comportamentais.

A maior preocupação do especialista com os dados apresentados é criar uma impressão errada de que os implantes cocleares podem, de alguma forma, afetar o desenvolvimento de crianças surdas. “Isso não existe. Os problemas se manifestam antes.” Segundo ele, os relatos dos pais indicam um efeito oposto. “Todos comentam que, depois da cirurgia, o filho fica mais centrado. Assim, aprende a escutar e desenvolve a linguagem e a fala. O implante coclear é o responsável pelos benefícios, não pelos problemas.”

Dados da pesquisa liderada por Kronenberger corroboram a observação dos brasileiros. “Os nossos resultados também mostram que metade ou mais do grupo de estudo com implante coclear não apresenta nenhum atraso significativo nas funções cognitivas”, garante o pesquisador. “Esses aparelhos podem produzir ganhos notáveis em linguagem falada e outras habilidades cognitivas, mas é necessário realizar um trabalho de aprendizagem e de atualização com as crianças que passaram por um período de surdez antes de implantar o aparelho”, ressalta.

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