Conheça histórias de quem já ganhou um coração novo; fila é grande em MG

O estudante Arthur Senna e o analista de recursos humanos Gilvan Lima estão de coração novo. Outras 27 pessoas aguardam no Hospital das Clínicas da UFMG por essa mesma alegria

por Márcia Maria Cruz 07/07/2014 16:00

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Jair Amaral/EM/D.A Press
Depois de complicações na cirurgia, Arthur recebeu coração novo e pretende se engajar em campanhas de doação de órgãos (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Como qualquer adolescente, Arthur Menezes Senna Jeronymo, de 16 anos, fica boas horas do dia a conversar com amigos no Facebook. Amante de esporte, não vê a hora de estar em quadra para jogar basquete. Mesmo com a voz ainda um pouco baixa, ele comemora uma conquista incomum para jovens de sua idade. Em tempos de Copa do Mundo, ele fez certamente um gol de placa: ganhou um coração novo. “É outra coisa. Sinto-me muito melhor.” No aparelho de eletrocardiograma, ao lado do leito onde o jovem está internado no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais, as batidas compassadas demonstram que o coração que recebeu, na madrugada do dia 23, adapta-se bem à nova casa. “Quando soube que havia um doador meu sentimento era de alegria, felicidade, esperança e um pouco de ansiedade”, diz Arthur.

Em 2006, aos 7 anos, ele foi diagnosticado com uma doença rara no coração, cuja evolução poderia requerer um transplante a única opção para que continuasse vivo. “Mas a necessidade veio mais cedo do que estávamos esperando”, diz o pai do jovem, o economista Jener Barbosa de Senna, de 49. A mãe do menino faleceu em 2005, em decorrência de uma disfunção cardíaca semelhante. Ela preferiu não trocar o coração. “Uma das primeiras coisas que Arthur falou depois que a cirurgia terminou é que ele havia feito o transplante pela mãe.” A lembrança da mulher e a superação da doença do filho trazem um misto de sentimentos a Jener que não consegue conter as lágrimas. “Quando o cardiologista chegou aqui no leito com um sorriso no rosto, sabia que havia chegado o coração novo do meu filho. Fiquei em um estado de alegria e euforia inexplicável que sai abraçando todos na unidade coronariana”, lembra.

Complexidade
Mas o caminho para o renascimento de Arthur teve outros percalços. Como o coração velho estava debilitado, não aguentou a anestesia e parou de bater pouco antes de a cirurgia iniciar. “Foi um transplante muito complexo. Ele teve uma parada cardíaca de 15 minutos e entrou no bloco cirúrgico tecnicamente morto”, afirma o cardiologista Sílvio Amadeu de Andrade, que é membro da equipe de transplante do HC. Para que a cirurgia pudesse proceder, a oxigenação do sangue de Arthur passou a ser feita por uma máquina de circulação extracorpórea. Ele estava literalmente sem coração e se o transplante não desse certo não haveria outra alternativa para mantê-lo vivo.

A cirurgia para colocação do novo órgão durou cinco horas, mas, ao final, mais um susto para a equipe de transplante comandada pelo cardiologista Pedro Henrique e para a família de Arthur. O novo coração não se adaptou à pressão da artéria pulmonar alta antes comandada pelo velho músculo. Mais uma vez foi necessário recorrer à circulação extra-corpórea e foi necessário o uso de medicamentos para controlar a pressão.

Renascimento

Depois de todo esforço, enfim, o novo órgão começou a bater no peito de Arthur. Uma semana depois do transplante, ele se recupera bem na unidade coronariana do HC. Em Minas Gerais, os transplantes de coração costumam ser feitos com adolescentes acima de 13 anos. É bastante incomum a troca de órgãos em crianças. No Brasil, a média de idade é de 45 anos e seis meses. Nos Estados Unidos, por terem uma população mais envelhecida, a média é de 54 anos.

O caso de Arthur era gravíssimo e se não tivesse feito o transplante não estaria vivo. Depois que deu entrada no Hospital das Clínicas em estado crítico, o jovem esperou duas semanas pelo novo coração. O comum, no entanto, [e a espera de dois anos ou mais para que os pacientes coronarianos tenham a vida renovada. É o caso do analista de recursos humanos Gilvan Lima Barros, de 47. Diagnosticado com uma miocardiopatia dilatada em maio de 2012, só conseguiu fazer o transplante no último 29 de maio. Em abril, quando veio para fazer a consulta periódica, foi internado com urgência, pois o velho coração dava sinais de que não trabalharia por muito mais tempo. “Era uma consulta normal, não esperava que desse tanta alteração”, lembra.

A partir daí a família e os amigos no distrito de São José da Lapa começaram uma corrente de oração e de boas vibrações para que aparecesse um doador. “Foram dois longos anos de luta. Quando soube, pensamos que era difícil, mas que iríamos colocar nas mãos de Deus”, lembra a mulher de Gilvan, a professora Shirley Cristina Assis de Lima Barros, de 45. Quando soube que havia um doador compatível, Gilvan encarou o momento com serenidade e não chorou. Pediu o celular de Sílvio emprestado para avisar à mulher que estava em casa e veio imediatamente com os filhos e pais de Gilvan acompanhar o transplante.

Gratidão
Mas, hoje já com as batidas no peito normalizadas, Gilvan não contém as lágrimas ao lembrar que o ato de alguém que ele não conheceu foi fundamental para que continuasse vivo. “É um ato de humanidade muito grande, de muita sensibilidade. De fato, é uma ação que resgata a vida”, diz emocionado. A gratidão é tamanha que todos os dias Gilvan e Shirley rezam pela família que autorizou a doação dos órgãos em um momento tão difícil. Ainda na unidade coronariana do Hospital das Clínicas, Gilvan não vê a hora de estar com os filhos Daniela, de 21, Gabriel, de 19, Maria Fernanda, de 12, e poder carregar o neto David Lucas, de 1 ano e 3 meses. “Tinha muito cansaço no coração velho. Era difícil até para tomar banho. Agora, já estou muito bem”, diz. O coração novo de Gilvan aguentou bem o primeiro teste. Ele assistiu à disputa de pênaltis entre Brasil e Chile sem nenhum problema. Como o Brasil, Gilvan também é um vencedor. Não há rejeição, um dos dois principais problemas enfrentados pelos transplantados. O outro problema muito comum pós-cirurgia é a infecção pelo citomegalovírus.

Jair Amaral/EM/D.A Press
Gilvan aguentou toda emoção da disputa de pênaltis entre Brasil e Chile. Agora não vê a hora de encontrar o neto (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Tão gratos pelos corações que receberam, Arthur e Gilvan pretendem participar de campanhas para incentivar a doação de órgãos. Atualmente, os transplantes são realizados em dois centros em Minas Gerais: o HC, que faz a maior parte dos transplantes, e o Hospital Felício Rocho. No HC, 27 pacientes esperam o ato de generosidade de famílias que permitam a doação do coração de parentes que venham a ter morte encefálica.

Excelência e gratuidade
No ano passado, foram realizados 27 transplantes no Hospital das Clínicas. Conforme lembra Sílvio Amadeu, é um número recorde que se equipara aos 20 principais centros transplantadores em todo o mundo cuja média são 40 transplantes por ano. O cardiologista reforça que o cenário mineiro não é diferente do restante do Brasil, mas que ainda é realizado apenas um terço dos transplantes necessários. Os entraves para que todas as pessoas que necessitem de um novo coração possam recebê-lo têm relação com o não/encaminhamento dos pacientes em função de problemas não serem diagnosticados, a limitação de estrutura e o número insuficiente de doadores.

O baixo número de doações ocorre, muitas vezes, por desinformação e medo. Para derrubar os mitos em torno do ato, o cardiologista lembra que a legislação do Brasil para a doação de órgãos é uma das mais rigorosas do mundo. Para que haja a retirada do coração, o paciente deve ter tido morte encefálica, que resulta de traumatismo craniano ou derrame cerebral (AVC).

A morte cerebral só é atestada quando o paciente está em coma profundo sem nenhuma possibilidade de reversão e não apresenta qualquer reflexo do sistema nervoso central. Para tanto, são realizados dois testes de apneia, com intervalo de seis horas entre eles e sem que haja qualquer tipo de sedação. O paciente em morte encefálica passa ainda por outros métodos de diagnóstico, como o eletroencefalograma, arteriografia cerebral ou doppler cerebral.

Depois de constatada a morte cerebral, a retirada dos órgãos é realizada no centro cirúrgico do hospital. De acordo com o Conselho Regional de Medicina, a vida é caracterizada pela atividade cerebral; portanto, quando não há atividade cerebral não há como haver melhora e, legalmente, o paciente é considerado morto. “O transplante dever ser feito no menor tempo possível. Depois de 24 horas, os órgãos entram em processo de deterioração.”

Os planos de saúde não cobrem os transplantes de coração. Eles só podem ser realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) ou por pagamento particular. No HC, 100% dos transplantes são cobertos pelo SUS. Mesmo que o paciente queira pagar pelo transplante – que é algo caríssimo –, ele entra na fila única para receber o órgão. “É um serviço de excelência do SUS. O paciente transplantado terá um acompanhamento pela vida toda. Sendo assim terá um vínculo definitivo com a instituição onde fez o transplante”, diz Sílvio. No entanto, não há impedimentos para que, depois do transplante, o paciente possa usar o serviço complementar de saúde.

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