Com a perda de Renata, o recado que fica: doar é salvar vidas

Após 44 dias de internação no Hospital das Clínicas, Renata Lara, de 13 anos, que aguardava com esperança um coração para transplante, não resistiu e morreu na noite de ontem

por Jefferson da Fonseca 05/06/2014 07:51

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Jair Amaral / EM / DA Press
A doença estava no último nível e apenas um transplante poderia salvar Renata (foto: Jair Amaral / EM / DA Press)
Manhã de esperança. Tarde de vigília. Noite de despedida. Pouco antes das 21h, Renata Lara de Oliveira, de 13 anos, se esvaiu num sopro, como partem os anjos. Foram 44 dias à espera de um coração no centro de tratamento intensivo (CTI) pediátrico do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte. Durante boa parte do dia, com a notícia de possível doação vinda de Manhuaçu, na Zona da Mata mineira, amigos e familiares faziam planos para um tempo de “renascimento” ao lado da menina Renata. Não deu.

Por todo o tempo de agonia, não havia frustração ou desesperança que apagasse a fé de Giovana Maria Pereira Slika, em vigília, na porta do HC. Juliana Alves, de 31, mãe de outras duas mocinhas, Maria Cecília, de 7, e Ana Luiza, de 6 – ambas aos cuidados de uma irmã – não sabe dizer de onde veio tanta força para enfrentar a dura jornada dos últimos tempos. Diz com a voz embargada que se fortaleceu na fé e no carinho da boa gente próxima: amigos, familiares e intensivistas do HC, solidários ao momento de angústia profunda e de fé sem limites.

Juliana chorou. Chorou muito ao saber, pela manhã, que a tortura da espera pelo novo coração para a filha continuaria. O mais triste estava traçado para logo mais. Horas depois, a jovem mãe desabaria na dor mais doída ao perder de vez a filha. Renata era o braço direito da casa na lida com as pequenas irmãs. Juliana se recolheu em pedaços sem dar conta do inexplicável. Renata queria muito viver. Chegou a gravar vídeo, pedindo pela vida.

“Sabemos que para Deus nada é impossível. Renata vai ficar bem e a gente vai ter um Natal bem bonito, todo mundo junto, lá em Leandro Ferreira”, sorriu, demonstrando acreditar até o fim. Giovana, cheia de vida, seguia firme no propósito de dar forças à mãe conterrânea, em frangalhos com o drama vivido pela filha desde 2011, quando recebeu o diagnóstico de miocardiopatia dilatada – falência cardíaca que, de lá para cá, atingiu o último nível. Só um transplante poderia salvar a menina.

Dionísia Pereira Bueno Costa, de 54, amiga, veio para vigília. Ela e Giovana se juntaram a outros amigos e familiares de plantão em frente ao número 110 da Avenida Alfredo Balena, na região hospitalar. Giovana não abria mão do escapulário de Padre Libério – religioso considerado santo pelos leandrenses.

DOADOR
A notícia logo pela manhã de um possível doador trouxe nova luz aos olhos de Renata, que reagiu com um fortalecido “Graças a Deus!”. A voz miúda, derrubada pelas sessões de hemodiálise desde o fim de semana, teve volume e novo fôlego para comemorar a boa nova do instante. Médicos e funcionários do HC também acompanharam com entusiasmo a novidade – impossível ali, no CTI pediátrico, não vivenciar na alma a sorte das crianças.

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Giovana acompanhou o drama da amiga desde o início e rezou por ela (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)
São muitos os funcionários do complexo médico da UFMG envolvidos à flor da pele com dramas como o da menina Renata – a essa altura, um símbolo de sobrevivência. A baixa em 14% no estoque do Hemominas, em atendimento com escala mínima desde 27 de maio, em função da greve dos servidores da área da saúde do governo de Minas, aumentou ainda mais a tensão no HC.

Informações de que o trâmite burocrático por falta de funcionários e a baixa no estoque de sangue poderiam comprometer cirurgias de urgência e casos de extrema gravidade chegaram até à imprensa e às redes sociais, provocando corrente por doações emergenciais. O Hemominas negou a situação fora de controle e garantiu que, por meio do telefone 155, com agendamento de até 10 dias, as coletas estão ocorrendo normalmente.

No entanto, dentro da UFMG, o Estado de Minas apurou intervenção informal até de autoridades da Justiça pela condição precária de assistência nos últimos dias. Comovido pelo drama da falta de sangue de todos os tipos, grupo de policiais também esteve mobilizado para a doação de última hora. Enquanto isso, o bloco cirúrgico se preparava para o transplante que devolveria o futuro à menina Renata. Depois da alegria e do sufoco, a frustração. A triste notícia de “coração inadequado”. À noite, ele não aguentou e parou.

Doar é salvar vidas
A doação de órgãos e sua destinação para transplantes é coordenada em Minas Gerais pelo Complexo MG Transplantes, responsável pela captação e distribuição de órgãos em todo o estado, por meio da Central Nacional de Captação de Doação de Órgãos (CNCDO). O Complexo MG Transplantes é composto por centros de notificação, captação e distribuição de órgãos na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Zona da Mata, Sul, Oeste, Nordeste e Leste. Linha de orientação à população: 0800-0283-7183. Endereço: Avenida Professor Alfredo Balena, 400, 1º andar, Santa Efigênia, BH –MG. Telefones: (31) 3219-9200 e 3219-9211.

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