O drama de uma mãe angolana: quatro filhos, a busca pelo sustento e a esperança de reencontrar o marido

Rosina, 40 anos, chegou ao Brasil há três meses e vive na Casa do Migrante, em São Paulo, com os quatro filhos pequenos. Após pregar a igualdade social em uma igreja, ela foi sequestrada com a caçula e ameaçada de morte

por Valéria Mendes 03/06/2014 09:00

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A história da angolana Rosina, 40 anos, encerra hoje a série de reportagens ‘Crianças refugiadas: o desafio do recomeço’. A mãe de Francisco Efraim (6), Ester (4), Daniel Amado (2), e Delfina (1) tem uma missão árdua pela frente. Sem o marido e sem a certeza de que um dia irá reencontrá-lo, ela precisa – além de superar o trauma de um sequestro e ameaça de morte – conciliar a educação, o suporte emocional e o sustento material de uma família de cinco pessoas. Tudo isso na condição de uma mulher estrangeira e negra, em um país desconhecido em que ainda predomina uma cultura machista e onde não são raros os casos de racismo.

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“Você me dá uma maçã?”. Ester fez o pedido sorrindo, com todo o charme de uma criança disposta a conseguir o que quer. Acompanhada de outras duas garotas, elas se posicionaram ao redor do banco onde a reportagem do Saúde Plena estava sentada à espera de sua mãe, que estava no refeitório da Casa do Migrante, em São Paulo, acompanhando o almoço dos caçulas da família. Apesar de já ter almoçado e comido pela manhã a fruta que desejava novamente, a garotinha jogou a cabeça para o lado, recostando a bochecha no ombro, e sorriu como quem queria dizer, mas faltou uma dose de coragem: ‘sim, eu comi, mas quero comer de novo’. Depois de ganhar um pedaço, a menina com penteado afro voltou a se distrair com as companheiras de abrigo. Mais tarde, a mãe explicou que a adaptação da família à comida brasileira não está sendo fácil. Ela confessou achar estranho arroz e feijão todo dia e contou que Delfina, 1 ano, passou a primeira semana inteira de Brasil sem comer nada, apenas se alimentando de leite materno. E são justamente as frutas, segundo a mãe de Ester, o tipo de alimento que mais tem agradado seus filhos.

Bruno Mitih/IKMR
Criança refugiada em São Paulo recria obra de Banksy, 'Balloon Girl' em apoio à campanha #WithSyria (foto: Bruno Mitih/IKMR)
A família de Rosina está há três meses no Brasil morando no abrigo da Rua Glicério, no Bairro Liberdade, que integra a Missão da Igreja Católica Nossa Senhora da Paz. A Casa do Migrante dispõe de 110 leitos distribuídos em quartos coletivos com alas separadas de homens e mulheres. Os estrangeiros acolhidos precisam seguir os horários das refeições e ajudar na limpeza e organização do local. Cada pessoa ou família recebe a chave de um escaninho onde podem ser guardados os objetos pessoais, que não devem ser levados para os dormitórios. Durante o dia, só podem ficar no abrigo as mães e suas crianças. Todos os outros adultos são incentivados – com essa regra – a procurar emprego ou se matricular em um curso, tocar a vida. A ideia central da Casa é ser um local de transição e nenhuma família ou adulto pode ficar indefinidamente por lá.

E é este o desafio mais urgente da família de Ester. Com quatro filhos pequenos e sem creche, Rosina não tem como sair para procurar emprego. Sem trabalho, não entra dinheiro para sustentar os filhos e muito menos uma moradia. Cada caso é avaliado individualmente pela equipe da Casa do Migrante, mas é sabido, por exemplo, de histórias de mulheres nas mesmas condições de Rosina que tiveram que deixar locais que acolhem refugiados para viver em abrigo da prefeitura, algo que não é desejado por nenhuma família com criança.

Assistente social e coordenadora do Programa de Atendimento de Refugiadas da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, Aline Tuller diz que a situação para as mulheres refugiadas que chegam ao Brasil sem os companheiros, mas com filhos menores de 6 anos, é a mais delicada. “É quase impossível conseguir vaga em creche. O que fazemos é tentar encaminhar essas famílias para outros programas sociais do governo, como por exemplo, o Bolsa Família”, diz. Ela lembra que o refugiado tem acesso às políticas públicas com as mesmas garantias dos brasileiros. “O ideal é que a família construa o caminho para a autossuficiência. Financeiramente falando, a adaptação dos pais favorece a adaptação dos filhos”, acredita.

Rosina é uma mulher inteligente e bem articulada. Ela aceita conversar, mas se recusa a ser fotografada: “é perigoso dar rosto para essa história”. Ela conta que estava na igreja quando foi convidada a pregar às outras mulheres que estavam no templo religioso que frequentava. “Eu preguei a igualdade. Queria acordar as outras mamães sobre a riqueza do nosso país que não é usufruída pela maioria das pessoas. Sim, a Angola é um país rico, mas na África não temos a democracia”, inicia o relato para explicar a razão de ter sido obrigada a deixar seu país.

O filho mais velho, Efraim, já está matriculado em uma escola pública da capital paulista. Sem creche, os irmãos Ester e Daniel Amado passam o dia em brincadeiras com outras crianças pelo espaço coletivo da Casa do Migrante. A caçula Delfina já anda, mas fica ainda muito tempo nos braços da mãe. Foi assim durante quase toda a entrevista. Ester se revezava nas brincadeiras e o esforço para entender o interesse que a mãe despertava na interlocutora. Ao ouvir o nome do pai, colocou-se entre mim e a mãe e não saiu mais. Rosina já havia dito que a filha do meio era a que estava com mais dificuldade em aceitar a mudança de vida.

Lilian Lima/IKMR
Crianças angolanas refugiadas em São Paulo (foto: Lilian Lima/IKMR)
 “Eu acabei de rezar, encerrei a pregação e ia voltar para minha casa. Era noite. De repente, na rua principal da igreja, um Jeep Pajero com os vidros escuros chegou e fui sequestrada. A Delfina estava comigo. Eram três senhores e o motorista. Eles me perguntaram sobre a pregação e disseram que eu não sairia viva do local para onde fomos levadas. Eu fiquei três meses presa em um sítio. Depois disso, nunca mais voltei em casa. Eu não sei explicar a razão, mas fui tirada de lá por um padre e um dos homens que me levaram. Fui transportada até uma igreja católica, encontrei meus filhos lá e no dia 5 de fevereiro nós viajamos”, lembra Rosina.

No tempo em que ficou sequestrada, os outros três filhos ficaram com uma prima. Rosina foi reticente e demonstrou apreensão ao explicar por que o marido não veio. “Estava tudo certo para que viéssemos todos”, disse. Há mais ou menos um mês, ela disse que telefonou para o irmão do pai de seus filhos na tentativa de conseguir alguma notícia. “Ele não está em Luanda, mas está na província”, foi o que conseguiu de resposta. Rosina tinha uma banca na cidade que vendia de tudo: “coisas de comer e de beleza”, conta. O companheiro trabalhava como mecânico e ela não sabe sequer se algum dia vai reencontrá-lo. A mãe de Ester afirma que o marido sabe que ela está em São Paulo.

Para recomeçar a vida no Brasil, país em que ela “sonhava vir passeando”, precisa conseguir vagas em creches públicas para seus três filhos e um emprego. “Fizemos o cadastro. A fila de espera nas creches varia entre 60 e 50 pessoas”, relata. Na semana em que conversou com o Saúde Plena, a mãe de Efraim, Ester, Amado e Delfina faria um teste como faxineira e voluntários da Casa do Migrante cuidariam de seus três filhos durante a ausência dela.

Rosina é categórica sobre o retorno a Angola: “Esse governo que está lá vai sair e voltarei à minha terra”. A esperança que carrega no peito não é usada como consolo para lidar com o descontentamento de Ester. “Quero voltar a morar com o meu pai”, diz a menina. A mãe responde: “Se a gente voltar, vão me matar e vocês vão me perder. Um dia papai vai vir para cá”.

Lilian Lima/IKMR
Em defesa ao direito do brincar, Ong brasileira 'IKMR - Eu conheço meus direitos' leva crianças refugiadas a um parque em São Paulo. Na foto, angolana que atualmente mora na Casa do Migrante (foto: Lilian Lima/IKMR)
Para a assistente social Aline Tuller é preciso dar atenção ao sentimento que a criança manifesta. “A dor que um adulto sente, a criança também sente. Não é por que ela não entende a situação por completo que o sofrimento é amenizado. As crianças precisam ser preservadas do máximo de sofrimento possível. É preciso respeitar o direito de ser criança. Não é por que a família está passando por uma situação difícil que vai se cobrar de uma criança o que não se cobraria em outra situação, de deveres que não são delas enquanto criança”, pondera.

A família não trouxe fotos, brinquedos ou qualquer objeto pessoal. “Fiz uma malinha com quatro roupas de cada um, mas a gente tem recebido doações”, conta Rosina. Toda a família passou por atendimento médico quando chegou ao Brasil e o cartão de vacinas de cada criança foi atualizado. Tuller diz que muitos refugiados chegam ao país com malária e que a anemia falciforme é muito comum na população negra. “As crianças recebem toda a vacinação porque a escola exige e as mães muitas vezes não sabem ou não conseguem dizer com quais doenças ou vírus os filhos tiveram contato”, explica.

Francisco Efraim, o filho mais velho que já está na escola, tem demonstrado, segundo a mãe, sinais de adaptação. “Uma menina da sala deu para ele uma foto do Ben 10. Quando ele retornou da escola, me perguntou: - Você acha que ela me gosta?”, relata Rosina, que respondeu “sim” ao primogênito.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)

Criança brincando é criança saudável?
Presidente da Federação Latino-Americana de Psiquiatria da Infância e da Adolescência (Flapia), Ana Christina Mageste afirma que, do ponto de vista psiquiátrico, ter que fugir de um país para garantir a vida pode desencadear o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). “Muitas vezes, as crianças se calam e fingem que não está acontecendo nada, mas podem apresentar distúrbio de sono e dificuldade de relacionamento”, explica.

A psiquiatra alerta que uma criança que brinca e gasta energia não necessariamente está sinalizando que está tudo bem. “É particular da infância a capacidade de se desligar do mundo interno e se comunicar com o mundo externo através do lúdico. A criança brinca porque não tem outra coisa para fazer e muitas vezes o adulto acredita que, se ela está brincando, é porque está feliz. Mas a brincadeira para a criança é quase uma coisa automática. O brinquedo é também uma maneira de a criança se isolar”, explica. Por outro lado, segundo a especialista, é nesse momento de suposta descontração que a criança manifesta sintomas e insatisfações e o olhar atento de um adulto pode ajudar a descobrir o que ela sente.

Enquanto alguns meninos e meninas apresentam sintomas mais explícitos de trauma e dificuldades ao novo contexto, outros impressionam pela força emocional e capacidade de inserção à nova realidade, como parece ser o caso de Yazdan, o garoto iraniano de 8 anos que você conheceu na segunda reportagem da série ‘Crianças refugiadas: o desafio do recomeço’. Os especialistas ressaltam, entretanto, que sinais em princípio positivos podem estar relacionados a um amadurecimento precoce, inclusive para dar suporte aos pais, às vezes ainda mais fragilizados. A consequência disso é a necessidade de manter ativa uma rede de suporte no médio e longo prazo, realidade hoje distante no cenário brasileiro.

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