Menopausa e vida sexual prazerosa não são antagonistas

Acontece em BH o 7º Congresso Mineiro de Ginecologia e Obstetrícia entre 14 e 17 de maio no Minascentro. Entre os temas está a sexualidade na menopausa. O Saúde Plena conversou com a palestrante que mostra que é possível viver essa fase com muita naturalidade

por Valéria Mendes 13/05/2014 09:00

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SXC.hu/Banco de Imagens
OMS considera o sexo um dos quatro pilares de qualidade de vida (foto: SXC.hu/Banco de Imagens)
A conotação negativa que ronda a menopausa é fundamentada principalmente por uma suposta queda no desejo sexual das mulheres nessa fase. No entanto, com a expectativa de vida crescente da população feminina brasileira, essa associação vem perdendo força, mesmo que a passos lentos. Apesar de não se poder negar a diminuição da produção de hormônios como estrogênio e progesterona e contestar dados como o revelado no XI Congresso Mundial de Menopausa de que mais de 50% das mulheres de meia-idade sofrem com alguma a disfunção sexual nesse período, cada vez mais a forma como algumas delas encaram as alterações do corpo têm mostrado que é possível driblar aspectos negativos para uma sexualidade saudável. E é sempre bom lembrar que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera o sexo como um dos quatro pilares da qualidade de vida.

Funcionária pública federal, Lucy Bertolini, 63 anos, afirma que nunca se preocupou com o assunto, que sabia que o fim da menstruação chegaria e que se sentia preparada para as mudanças que viriam. Ela tem dois filhos e está no segundo casamento. “Sempre fui muito positiva, otimista. Nunca coloquei a menopausa em primeiro plano na minha vida. Para falar a verdade, a única coisa que me incomodou de verdade foram as ondas de calor. Algumas pessoas reclamam tanto que atraem sintomas para si”, acredita.

Lucy diz que tem desejo por sexo o tempo todo e brinca: “Basta ver um homem bonito”. No entanto, ela admite que essa vontade tem relação direta com a parceria sexual. “As preliminares são ainda mais importantes nessa fase e acho que meu entusiasmo é porque vivo uma comunhão de almas como meu marido”, conta. Juntos há 24 anos, ela se diz apaixonada pelo companheiro.

Aline Morais
"As mulheres de 50 anos de hoje estão à procura de elevar a autoestima em todos os aspectos, inclusive no sexo" - Lu Brandão, personal sex trainer (foto: Aline Morais)
A funcionária pública lembra da total ausência de educação sexual. “Era tudo muito reprimido, eu só sabia que tinha que me preservar”, recorda-se. Ela perdeu a virgindade aos 29 anos com o primeiro marido que é o pai de seus dois filhos. Lucy Bertolini também credita o entusiasmo de sua vida à alimentação saudável e à prática de caminhada e musculação. “Como de cinco a seis frutas por dia”, fala.

Sobre a secura vaginal, uma das principais queixas das mulheres com o fim da menstruação, a funcionária pública simplifica: ”Às vezes acontece de a vagina estar mais seca, mas a gente lubrifica com saliva, com gel, com preliminares. Se acontece de machucar é só passar uma pomadinha”.

Personal sex trainer, Lu Brandão atua no mercado erótico há 8 anos. Ela é bailarina formada pelo SATED-MG e ministra cursos de danças sensuais e pompoarismo, palestras sobre sensualidade e sexualidade, e também vende produtos eróticos. Para ela, as mulheres de 50 anos de hoje estão à procura de elevar a autoestima em todos os aspectos, inclusive no sexo. “Elas procuram brinquedos eróticos, géis lubrificantes e o strip-tease para se soltarem mais. E não é só as que têm parceiros mais jovens, mas também as casadas há muito tempo”, exemplifica.

Lu Brandão ressalta o alto interesse por gel lubrificante. “A grande maioria das mulheres que me procuram - seja para comprar produto ou fazer alguma aula - querem uma vida sexual mais ativa mesmo na menopausa”, diz. A personal sex trainer ressalta a importância de um acompanhamento médico especializado e, em alguns casos, um psicólogo para auxiliar na adaptação da nova realidade. Ela também indica a ginástica íntima vaginal (pompoarismo) para trabalhar a região do períneo. “Notamos uma melhora comprovada da lubrificação vaginal com uma musculatura pélvica fortalecida. Mas isso não só nas mulheres na menopausa, até nas mais novas”, afirma.


Sintomas variam muito

Ginecologista, obstetra e vice-presidente da região Sul da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) Tânia Mara Giarolla de Matos ressalta que a menopausa é apenas mais uma fase da vida feminina e o que ela significa de fato é a ausência da menstruação e o fim da fase reprodutiva. “Há relatos de mulheres que apresentam até melhoria no desempenho sexual quando entram na menopausa”, afirma.

Para ela, é muito importante entender as mudanças que acontecem com o corpo e a mente para encarar esse período com mais leveza. A ginecologista diz que entre os principais medos da mulher estão a insegurança em não atender sexualmente o parceiro, perder a libido e não ser mais desejada. “Apesar de ser uma fase que carece de cuidados, não há motivo para sofrimento”, diz.

Sobre a redução da lubrificação vaginal, apontada frequentemente como inimiga do desejo sexual, ela pondera: “Apesar das raízes físicas, a manifestação está relacionada com as mudanças psicológicas. O medo de envelhecer e encarar as mudanças corporais da pós-menopausa são pontos desfavoráveis no jogo sexual. Entretanto, um bom relacionamento entre os parceiros colabora para a evolução dessa fase”, observa.

Tânia Mara explica que os sintomas da menopausa variam muito: “Algumas têm uma transição descompensada, com muita dor de cabeça, desinteresse sexual, desânimo, insônia e ondas de calor. Outras não sentem quase nada”. Para ela, a particularidade de cada caso requer avaliação individualizada de um especialista.

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"Há relatos de mulheres que apresentam até melhoria no desempenho sexual quando entram na menopausa", afirma a ginecologista Tânia Mara Giarolla de Matos (foto: SXC.hu/Banco de Imagens)
Segundo ela, o estilo de vida e a força emocional para enfrentar esse momento interferem diretamente nos sintomas. “Quem enxerga como uma fase negativa - envelhecimento, o fim da beleza, a incapacidade de gerar filhos, tornar-se descartável – vai sofrer mais. Quem vivencia de forma natural e tem uma nova proposta para esse período da vida vai enfrentar sintomas menores”, exemplifica. A condição da saúde, segundo a médica, também tem influência. Tânia Mara diz que Mulheres diabéticas ou hipertensas terão mais sintomas em função da patologia concomitante à menopausa.

O tratamento para minimizar os sintomas também diferem muito. “Para ajustar a vida, há aquelas que terão que fazer terapia hormonal e outras que conseguirão equilibrar o organismo apenas com a ajuda da alimentação”, diz. Uma sugestão certeira é a prática de uma atividade física para liberar mais endorfina. “Participar de algum grupo focado na temática também auxilia”, sugere a ginecologista.

Para Tânia Mara, como a maternidade é culturalmente muito valorizada, a ideia de que “nunca mais poderei ser mãe” mexe muito com o psicológico da mulher. Para ajudar a entender quais são os sintomas físicos e o que é psicológico da menopausa, Tânia Mara faz antes uma observação: “Não somos só corpo e não somos só alma”. No entanto, a ginecologista diz que a menor produção de estrogênio – por que esse hormônio não para de ser produzido pelo organismo da mulher como muita gente pensa – causa as ondas de calor, a vagina ressecada, pele seca e sensação de desânimo. Os psicológicos são depressão, ansiedade e angústia.

Driblando os sintomas
Uma dica da especialista para minimizar a falta de lubrificação vaginal é uso de um creme de estrogênio que não é absorvido pelo organismo, mas mantém a elasticidade. Ela também indica plantas para ajudar a amenizar os sintomas. “A sálvia diminui a sudorese que vem com a menopausa. O consumo de vitamina E e B5 também amenizam as ondas de calor”, explica.

Não é raro também o ganho de peso nessa fase. Por isso, é importante uma alimentação natural e balanceada. “Evite gordura e muito açúcar”, recomenda Tânia Mara. “Os citoestrogênios estão presentes na soja, na linhaça, na romã, na prímula. Esses alimentos naturais melhoram os sintomas da menopausa”, sugere.

Para melhorar o interesse sexual, a ginecologista indica a damiana, considerada uma planta afrodisíaca, e tríbulos terrestres para ajudar no orgasmo. “A mulher na menopausa tem orgasmos menos intensos e essa planta ajuda”, afirma a especialista. No entanto, para ela, não há nada mais afrodisíaco que um bom parceiro. “A mulher precisa redescobrir novas maneiras de fazer sexo, de se posicionar diante desse novo fato. Está demorando para ‘esquentar’? Aumenta as preliminares. Nada que uma conversa franca com um ginecologista ou parceiro não resolva”, acredita.

A ginecologista Tânia Mara reforça que o sexo faz parte da qualidade de vida e não nega as alterações que vêm com a menopausa. “O clitóris atrofia e fica mais sensível ao toque. É claro que isso influencia no orgasmo feminino, mas outras formas diferente de amar vão surgir e podem ser tão satisfatórias quanto antes, mas nem sempre tão freqüentes ou rápidas. O importante é não tentar esconder as alterações e tentar fingir algo que a mulher não seja. Com diálogo, amor, companheirismo e sinceridade tudo tem solução”, conclui.

Solange Junqueira Garcia Sartori, 53 anos, é secretária e mãe de uma mulher, de 27, e um homem, de 20, e exemplifica bem o quanto o apoio das pessoas próximas é importante. Ela diz que entrou na menopausa aos 49 anos e que, no início, ficou muito ansiosa e um pouco depressiva. Por essa razão, fez uso de hormônio com acompanhamento médico durante três anos. “Sou muito tranquila, nunca tive TPM, nunca tomei remédio para nada nessa vida. Sem dúvida a menopausa traz mudanças, mas o marido envelhece também. A gente fica mais exigente e quer mais qualidade na relação sexual”, diz.

A secretária conta que sempre gostou de ficar menstruada. “Eu esperava pela menopausa com a certeza de que não teria nada, assim como foi com a minha mãe. Como no início eu fiz a reposição hormonal não sentia a secura vaginal. Hoje, usamos lubrificante. A vida sexual não pode acabar por causa disso”, acredita. Solange destaca a importância do companheirismo e diz que recebeu muito carinho do marido e dos filhos. “Todos estão sempre muito atentos e toda vez que tem alguma campanha de saúde para a minha faixa etária me avisam”, relata. Há mais de um ano ela está sem medicação e se diz satisfeita.

LUCAS JACKSON - 25/10/2012
Cantora, compositora e pianista, novo trabalho de Tori Amos aborda o evenvelhicmento: "A menopausa é um assunto pejorativo" (foto: LUCAS JACKSON - 25/10/2012 )
Não deixa a menopausa te derrotar
A cantora, compositora e pianista norte-americana Tori Amos, 50 anos, conhecida por não fugir de assuntos controversos, está com um trabalho novo intitulado ‘Unrepentant Geraldines’. Conhecida pelos improvisos e comentários excêntricos no palco, Tori supreendeu o público ao falar sobre a menopausa. Antes de apresentar 'Ribbons Undone', cantou sobre o tema. A interferência repercutiu na imprensa e, em entrevista ao The Huffington Post, declarou que tinha a missão de tornar a menopausa uma palavra “não tão suja”. Acostumada a abordar temas como sexualidade, religião e feminismo em suas músicas, no novo trabalho ela se debruça sobre o envelhecimento. “A menopausa é um assunto tabu”, afirmou ao portal de notícias.

Segundo ela, o desafio foi encontrar uma forma de abordar essa fase da vida da mulher sem ser do ponto de vista da vitimização. “Não é um caminho fácil. A menopausa é um caminho difícil e um professor difícil. Encontrar a auto-aceitação e a sensualidade dentro dela é desafiador. Todas as músicas deste novo álbum foram escritas para lidar com essas coisas”, declarou.

Tori Amos começou a tocar piano aos 2 anos de idade. De ex-criança prodígio a artista consagrada, ela diz que a menopausa é uma luta. “É um pejorativo. Eu não estou aqui para tentar fazer como que a menopausa seja sexy, essa não é a minha mensagem. Minha mensagem é para a mulher se sentir habilitada a vivenciar todos os sentimentos dessa fase. Não é sexy, mas você pode ser sexy. E não deixe ela te derrotar”, provoca.

Assista ao vídeo:


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