Escolas e pais devem estimular a criança a buscar soluções criativas para problemas do dia a dia

A postura melhora o desenvolvimento cognitivo e pode trazer benefícios tecnológicos ao país

por Correio Braziliense 12/05/2014 15:50

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Carlos Vieira/CB/D.A Press
Aline e os colegas do Sigma usam peças de Lego em projetos de robótica: um bondinho e um boliche foram criados pelos estudantes (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Eureka! A expressão usada ao redor do mundo no momento de uma invenção pode ser repetida com mais regularidade pelos pequenos. Basta incentivo. Cientistas da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, analisaram estudantes da primeira parte do ensino fundamental, o equivalente às turmas do 1º ao 5º ano no Brasil, e descobriram que, já nessa idade, é possível impulsionar o gosto por inovações durante as aulas formais e inspirar os mais jovens a investirem nas próprias criações.

As ideias, conforme averiguaram os pesquisadores, costumam vir de situações específicas: problemas que causam irritação, esforço ou explicitem falta de capacitação, como medo do escuro, dificuldade na lição de casa, para levantar cedo ou não se mover com rapidez em um jogo. Nos experimentos, gravadores de voz e de vídeo foram fornecidos aos professores e alunos a fim de que fosse registrado o cotidiano deles. As soluções apontadas nem sempre eram viáveis, como um monitor capaz de “traduzir” para os pais o significado dos choros de bebês.

“O objetivo central foi de semear o engajamento, elevando as expectativas de que algo poderia ser inventado e que nem tudo já foi alcançado, ainda há o que pode ser descoberto ou projetado”, disse a equipe. Na publicação, os cientistas também ressaltaram que os países que influenciam os jovens à inovação ficam à frente na corrida internacional por melhores tecnologia.

Sem a ajuda dos pais, a aluna do 1º ano do ensino fundamental Mariana Braga, 7 anos, fez recentemente a maquete de uma casa que capta água da chuva e separa as impurezas, possibilitando o uso em atividades domésticas: “Eu vi na casa dos meus parentes uma vez e tentei fazer igual”, diz. A menina foi provocada durante uma aula sobre racionamento e reaproveitamento de água no Colégio Sagrado Coração de Maria.

A professora Ingred Liberine não especificou o material que teria que ser utilizado pelos alunos, apenas pediu para que fossem seguidas as filosofias de reutilização ou reaproveitamento: “É bom que percebam que algumas coisas que normalmente são jogadas no lixo, como potes de produtos não tóxicos, podem ser usados com outras finalidades”, diz.

A ideia é fomentar o pensamento crítico a partir da reflexão sobre a realidade social, propondo desafios para a criação de estratégias práticas, mesmo que impraticáveis: “Reutilizar a água da chuva, por exemplo, é uma preocupação atual, um problema da sociedade que vivemos”, complementa Ingred. Segundo a professora, com os alunos mais velhos, as provocações aumentam e há espaço para instrumentos e soluções mais tecnológicas: “Os do 4º e 5º anos fizeram carrinhos movidos à pressão de água”, conta.

Ingred relata que os assuntos propostos em sala de aula geram, às vezes, mais repercussão do que o esperado. Recentemente, ela se surpreendeu quando falou sobre combustíveis com os estudantes. “Um aluno da mesma sala da Mariana pediu a palavra, levantou-se e deu uma aula sobre como combustíveis fósseis prejudicam o meio ambiente e devem ser evitados. Foi excelente!”

 Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press
Mariana montou uma casa inspirada na utilização da água da chuva: 'Vi na casa dos meus parentes uma vez' (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Curiosidade nata

O caso reforça a conclusão de uma pesquisa que segue a mesma linha dos estudiosos da Universidade de Nottingham. A psicóloga Deborah Kelemen, da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, defende que, desde cedo, as pessoas têm uma natureza de “caçadores de explicação”. Adotando técnicas de ensino eficientes, crianças partir dos 5 anos possuem a capacidade de compreensão de assuntos complexos, como a Teoria da Evolução, de Charles Darwin.

Os pesquisadores fizeram livretos ilustrados de 10 páginas que explicavam a teoria de Darwin e os leram para 28 crianças com idade de 5 a 8 anos e de etnias diversas. Apesar de, no fim, elas não terem entendido as ideias mais complexas da teoria, a maioria ligou a explicação ao conceito de diferenciação por sobrevivência, entendimento relatado por 10% antes do teste. “O resultado mostrou que as crianças compreendem muito mais do que lhes damos crédito. São inteligentes, podem lidar com um surpreendente grau de complexidade quando se enquadra o conteúdo na necessidade humana de receber uma boa e coesa explicação”, afirmou a chefe da pesquisa.

Preocupado com o incentivo a invenções, o Centro Educacional Sigma incluiu aulas de robótica na grade curricular dos alunos do ensino fundamental há oito anos. O programa treina professores para incentivar os alunos à tecnologia criativa usando peças de Lego. Em todas as turmas, o aprendizado começa em sala, com a contextualização do projeto a ser trabalhado. Depois, os alunos vão ao laboratório e, divididos em grupos de quatro pessoas, tornam as ideias realidade. Cada integrante tem uma função: organização, construção, elaboração do relatório do projeto e apresentação do resultado.

Em uma turma do 5º ano, o professor Rodrigo Moura propôs como assunto o momento do bote das cobras. A intenção era compreender e visualizar a física do movimento. A maneira como os alunos reagiram ao desafio ainda na parte teórica chamou a atenção. “Quando contei o que faríamos, um aluno começou perguntando qual era a cobra mais rápida do mundo. Nem eu sabia. Nós combinamos de pesquisar e dividir a respostas na outra aula”, relata.

Em outras aulas do professor, os estudantes se aproximaram de conceito da tecnologia montando pequenas estruturas que se movem com softwares simplificados. Aline Regis, 10 anos, estudante do 5º ano, gostou do bondinho. “Era bonito, vinha e voltava sozinho na linha. Nós montamos quando aprendemos sobre o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro”, orgulha-se. Gustavo Pimentel, 10, colega de sala de Aline, discorda: “Meu preferido foi o boliche”.

Fabiana Moura, gerente da Zoom Education, empresa que capacitou os professores do Sigma para o projeto, explica que a intenção do programa é trabalhar a criatividade por meio do desenvolvimento da linguagem oral, da solução de problemas reais e de atividades voltadas para a tecnologia. “A criança começa a lidar com programação cedo e a usa em uma problemática, o que ajuda a descobrir talentos naturais já no período escolar”, explica a também psicopedagoga.

Soraia Piva / EM / DA Press
(foto: Soraia Piva / EM / DA Press)
Inspirem-se em Thomas Edison
O norte-americano Thomas Alva Edison nasceu em 1847. Mais novo de sete filhos, foi educado em casa pela mãe e recebia 10 centavos do pai todas as vezes que lia um grande clássico da literatura. Gradualmente, tornou-se um autodidata, mas, ao perceberem que o jovem se interessava pela ciência, os pais contrataram um tutor e o jovem começou a fazer experiências com substâncias químicas no porão de casa.

Aos 16 anos, fez a primeira invenção: um repetidor automático que permitia a fácil tradução de códigos do telégrafo em qualquer velocidade e de maneira precisa. Thomas Edison havia perdido quase toda a audição dois anos antes, aprendendo, por conta do problema, o código Morse e o uso do telégrafo. Aos 29 anos, ele começou a trabalhar no transmissor de carbono, que fez audível o telefone de Graham Bell. Um ano depois, ganhou fama internacional com o fonógrafo, primeira máquina a gravar e reproduzir sons.

Ao contrário da crença popular, não foi Edison o inventor da lâmpada. Ele melhorou uma ideia surgida meio século antes. Aos 32 anos, conseguiu produzir uma que fosse confiável e de longa duração. O cinetoscópio também é cria dele. Devido à importância dos trabalhos de Thomas Edison, quando ele morreu, em 18 de outubro de 1931, comunidades e empresas em diversos países desligaram momentaneamente a energia elétrica em homenagem ao inventor.

Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press
Estudantes buscam soluções usando conhecimentos de diferentes matérias (foto: Paula Rafiza/Esp. CB/D.A Press)
Mistura de disciplinas

No Colégio Arvense, em Brasília, os alunos participam do programa Ciências e Tecnologia com Criatividade. A intenção é que o interesse pela inovação caminhe com a interdisciplinaridade. Semestrais, os projetos são desenvolvidos em um laboratório montado na sala de aula e de maneira que os alunos possam levar alguns materiais para casa. “O próximo módulo será sobre eletricidade, faremos uma calculadora movida a batatas”, conta, animada, a professora Kaelly Ornelas.

Os alunos João Victor Mazetti, Hugo Carvalho e Bruno Beltrão gostam de mostrar as criações aos pais. “Eu explico e eles acham interessantes. Até se lembram de algumas coisas e corrigem o que falamos errado”, conta João Victor. O amigo Hugo concorda que é bom usar a criatividade: “O tédio me dá sono, gosto de ficar inventando coisas para passar o tempo em casa.”

Além do cenário pedagógico para proporcionar interesse na criatividade, as experiências fora da aula, como o compartilhamento com pessoas próximas, também são enriquecedoras, dizem especialistas. Além de agregar novas informações, cultiva o sentido de identidade dos pequenos inventores e coopera para o suporte dos sonhos infantis que podem se tornar realidade.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA