Fumantes impregnam a casa de substâncias cancerígenas; crianças que engatinham são maiores vítimas

Fumo de terceira mão (FTM) não vem das tragadas. Invisível, a ameaça esconde-se em todos os cantos da casa: mobília, cortinas, tapetes e parede

por Isabela de Oliveira 20/03/2014 10:00

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De acordo com o estudo, as crianças são as maiores vítimas desses resíduos porque engatinham e tocam em uma grande quantidade de superfícies poluídas. Com isso, acabam ingerindo cerca de 0,25g de poeira (muitas vezes contaminada) por dia, o dobro de um adulto (foto: sxc.hu)
Não é preciso fumar um cigarro ou inalar a fumaça dele para sofrer com os malefícios do tabagismo. Um outro tipo de contaminação, chamada fumo de terceira mão (FTM), não vem do ar ou das tragadas. Invisível, a ameaça esconde-se em todos os cantos da casa habitada por fumantes: mobília, cortinas, tapetes e parede. Nenhuma superfície ou espaço fechado onde há exposição crônica ao fumo está livre dos resíduos perigosos. As pessoas que vivem neles muito menos. Evidências apresentadas ontem no Congresso da Sociedade Americana de Química mostram que, além do mau cheiro, as substâncias encontradas no FTM provocam alterações no DNA humano, favorecendo o desenvolvimento de cânceres.

A lista de substâncias nocivas é longa. Há o ácido cianídrico, usado em armas químicas; o butano, presente no fluido de isqueiros; o tuolento, encontrado em solventes de tintas. Isso sem falar no arsênico, no chumbo, no monóxido de carbono e no polônio-210, um cancerígeno altamente radioativo. De acordo com o estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, as crianças são as maiores vítimas desses resíduos porque engatinham e tocam em uma grande quantidade de superfícies poluídas. Com isso, acabam ingerindo cerca de 0,25g de poeira (muitas vezes contaminada) por dia, o dobro de um adulto.

“As que estão no período pré-escolar são especialmente afetadas por vários fatores. Passam mais tempo presentes no ambiente domiciliar, têm frequência respiratória elevada e põem a mão na boca após tocar superfícies contaminadas, como sofás, tapetes, lençóis e brinquedos espalhados pelo chão”, explica o pneumologista Alberto Araujo, membro da Comissão de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e do Núcleo de Estudos e Tratamento do Tabagismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Araujo explica que o risco do tabagismo terciário é medido pelo nível de cotinina — metabólito da nicotina e um dos marcadores utilizados para medir a exposição ambiental ao fumo — na urina de crianças que moram com fumantes. “Evidências científicas mostram que, mesmo com baixos níveis de marcadores de fumaça do tabaco, há associação com deficits cognitivos em crianças (que vivem nesses ambientes), como dificuldade do desenvolvimento neuropsicomotor e de aprendizado na escola”, diz.

Os cigarros industrializados são mais perigosos, representam a maior fonte de resíduos, gases e toxinas, em especial as nitrosaminas, que integram a lista dos mais potentes carcinogéneos, os causadores diretos ou indiretos de cânceres. “As outras formas de tabaco, como o narguilé, o charuto, o cachimbo tradicional e o cigarro eletrônico, também liberam substâncias no ambiente. Elas não são inócuas à saúde, mesmo que sejam à base de vapor. Guimbas, bitucas e cinzeiros no ambiente domiciliar também expõem as crianças, que podem tentar imitar os adultos e experimentar ou manipular esses produtos”, aponta Araujo.

Lesões no DNA
Liderados por Bo Hang, os cientistas do Laboratório Nacional de Laurence Berkeley realizaram dois ensaios para testar a genotoxicidade do fumo de terceira mão. Eles descobriram que os resíduos provocam lesões oxidativas e quebram as cadeias de DNA. Os dois processos levam à mutação genética. “Até este estudo, a toxicidade do fumo de terceira mão não era bem compreendida. Essa fumaça tem uma menor quantidade de produtos químicos do que a do fumo de segunda mão. Por isso, é bom ter evidências experimentais para confirmar a genotoxicidade dela”, avalia Hang, que é bioquímico.

Valdo Virgo / CB / DA Press
Resíduos da fumaça que se acumulam em superfícies podem provocar câncer. Clique para ampliar e entender (foto: Valdo Virgo / CB / DA Press)
Ele e os colegas utilizaram tiras de papel que foram expostas, em uma câmara, à fumaça de cinco cigarros fumados em 20 minutos. Para amostras de exposição crônica, a exposição durou mais de 258 horas durante 196 dias (veja infográfico). Os cientistas verificaram que a concentração de substâncias tóxicas, entre elas a NNA, foi maior nas amostras da exposição crônica, o que indica que os materiais podem ficar mais tóxicos com o tempo.

“O estudo é inovador porque desvenda a etiologia de muitas neoplasias que não têm uma relação causal tão óbvia e clara, como as pessoas que não fumam, mas desenvolvem câncer de pulmão. Conhecer as causas de uma doença é fundamental para preveni-la. Quanto mais anos de exposição aos poluentes do fumo terciário, mais aumenta o nosso risco”, considera Rodrigo Medeiros, oncologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.

Medeiros explica que o efeito se dá dentro do DNA, composto por duas fitas entrelaçadas. Quando as nitrosaminas interagem com o organismo, criam “pontes” capazes de ligar a célula aos compostos cancerígenos. “Com isso, começam a surgir falhas e danos no DNA da célula. Muitas vezes, o organismo deleta as células estragadas, mas, uma série de fatores, como deficiência no reparo do DNA ou comprometimento da imunidade, pode fazer essas estruturas defeituosas vingarem”, explica.

O oncologista ressalta ainda que o tabagismo terciário tem ocupado mais espaço nos debates acadêmicos nos últimos quatro anos, quando as primeiras evidências sobre a toxidade dos resíduos nas superfícies começaram a despontar nos periódicos especializados. Medeiros é um dos muitos que recomenda a troca de carpetes e cortinas da casa de ex-fumantes. “Se ele estiver muito motivado, eu aconselho até a trocar de carro. Muitos fumam dentro do veículo e o ambiente acaba contaminado da mesma maneira”, explica. Segundo o especialista, além de impregnar toda a superfície do automóvel, as nitrosinaminas prendem-se ao filtro de ar dos veículos.

Também perigoso
O fumo passivo só perde para o tabagismo ativo e o alcoolismo no número de mortes em todo o mundo. A fumaça que fica em um ambiente fechado após alguém fumar é chamada de poluição tabagística ambiental (PTA) e é muito mais perigosa. O ar contaminado tem, em média, três vezes mais nicotina e monóxido de carbono, e a quantidade de substâncias cancerígenas aumenta em até 50 vezes se comparada à fumaça inalada pelos fumantes. De certa forma, eles são protegidos pelo filtro do cigarro.


Efeitos a longo prazo
Algumas reações químicas deixam os resíduos dos cigarros fixados em paredes, móveis e cortinas ainda mais nocivos. O contato das nitrosanimas com o ácido estomacal, por exemplo, pode gerar câncer no estômago e nos pulmões. Tudo isso em longo prazo, frisa Rodrigo Medeiros, oncologista do Hospital Sírio-Libanês de Brasília. “Essas doenças dificilmente se desenvolvem em idades precoces porque o processo leva anos, o que é uma das características da exposição crônica. Não é que a criança exposta uma vez terá problemas ainda jovem, mas o contato anos a fio com esses químicos favorece o aparecimento de tumores na vida adulta”, observa.

Medeiros explica que esse efeito é bastante comum no câncer de pulmão. Segundo ele, para cada 10 pacientes, um ou dois nunca fumaram. “Essa teoria afirma que a doença é resultado do tabagismo passivo ou terciário”, diz, ressaltando, em seguida, que o acúmulo das substâncias tóxicas no organismo de crianças é indicador também de possíveis tumores no esôfago e no estômago na idade adulta.

Embora muitos locais públicos proíbam o fumo, Bo Hang, líder do estudo divulgado no Congresso da Sociedade Americana de Química, levanta uma preocupação: o maior perigo está em apartamentos alugados, quartos de hotéis e residências privadas. Até agora, a melhor maneira de se livrar do fumo terciário é a reforma da casa e renovação de mobiliária e objetos que o fumante teve contato. As tradicionais faxinas, com uso de materiais de limpeza ou aspiradores, não são eficazes na remoção desses resíduos. (IO)

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