Formação de raças trouxe consequências negativas para cães

As "raças" de cães foram criadas a partir da interferência dos humanos e, sem essa intervenção, eles seriam todos mestiços

por Revista do CB 04/01/2014 10:00

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Zuleika de Souza/CB/D.A Press
A buldogue inglesa Ennya é tratada com muito carinho pela dona, Thais Souza. A raça é uma das mais prejudicadas pelos cruzamentos consanguíneos (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Rotweiller, cocker spaniel, poodle, boxer, labrador. Praticamente todos conhecem essas raças de cães, muito comuns em todas as partes do mundo. Porém, não foi sempre assim. As “raças” de cães foram criadas a partir da interferência dos humanos e, sem essa intervenção, eles seriam todos mestiços.

As pessoas identificavam características específicas em uma família de cães, e desejando mantê-las, cruzavam indivíduos da mesma família. Simplificando, essa foi a forma que as raças se desenvolveram até o estágio que conhecemos hoje. O problema é que esse cruzamento de indivíduos da mesma família, com alta taxa de consanguinidade, causa diversas alterações genéticas que podem prejudicar bastante a vida do animal de raça.

Segundo o veterinário Kleber Felizola, essas alterações genéticas desencadeiam mutações fisiológicas que, em alguns casos, resultam em anomalias de ossos, membros ou órgãos, com grande prejuízo para o animal. Além disso, as mutações podem causar problemas como sarna demodésica, cardiopatias ou até crises epiléticas.

O veterinário Luiz Carlos Albuquerque informa que cada raça carrega problemas em potencial, característicos da sua linhagem. Segundo ele, raças pequenas, como pincher e poodle, têm tendência a ter crises epiléticas, além de má-formação da dentição. Já cães como o pastor alemão e o rotweiller têm grande probabilidade de desenvolver displasia coxofemoral (encaixe falho entre a fêmur e a bacia). O boxer costuma desenvolver câncer, enquanto o shar-pei é vítima de problemas nos rins e no fígado.

Outro exemplo bem conhecido de raça com pré-disposição a mutações genéticas é o buldogue inglês. Cães da raça tendem a apresentar criptorquidia ou monorquidia (quando o testículo não desce para o saco escrotal e a ausência de um dos testículos, respectivamente) e problemas cardíacos e respiratórios. Uma consequência dessa fragilidade física é o fato de eles serem incapazes de se reproduzir sem intervenção humana, ou seja, inseminação artificial. Segundo Kleber, outra grande limitação que acomete boa parte dos indivíduos dessa raça é a hipersensibilidade ao calor.

A psicanalista Thais Souza percebeu a fragilidade genética dos buldogues da pior forma possível. Seu primeiro exemplar foi Athena, que, de tão bonita, acabou sendo campeã em algumas exposições em Brasília. Em certa ocasião, a dona levou a mascote e a filhotinha dela, a Ennya (fruto de uma inseminação artificial), para um banho no pet shop. Thais pediu que o estabelecimento levasse as cadelas para casa após o banho, o que seria em torno de meio dia. “Quando deu a hora e elas não tinham chegado, já desconfiei. Eles costumavam ser bem pontuais”, diz Thais. Horas depois, finalmente veio a notícia. “Eles me ligaram e disseram para eu ir ao pet shop. Ao chegar lá, Athena estava morta, já sem pulsação. Apesar disso, quando coloquei a mão nela, senti sua temperatura altíssima. Devia estar quase uns 50ºC”, conta a psicanalista. Para ela, o pet shop disse somente que Athena passou mal - provavelmente do coração - quando estava no carro a caminho de casa, e não houve tempo hábil para tratá-la.

Para o veterinário Kleber, o relato leva a crer que a morte de Athena teve somente uma causa: o calor. Segundo ele, casos como esse são mais comuns do que se imagina quando se trata de buldogues. “Várias mortes acontecem, e o pet shop, cuidador ou quem quer que esteja responsável pelo animal, muitas vezes culpa um ataque cardíaco ou falha nos pulmões. Na verdade, na maioria das vezes, esse tipo de morte súbita em buldogues jovens e saudáveis acontece por hipertermia”, afirma.

Apesar da “sina” genética, os chamados cães de raça pura nem sempre desenvolvem as doenças esperadas. “É claro que, para obter uma ninhada de padrões consistentes, a cruza entre animais de alta proximidade sanguínea é indispensável. Por isso, essa ‘lenda’ de que quanto mais pura a raça do animal, mais problemas genéticos ele vai ter, mas não é bem assim”, tranquiliza Kleber.

Um procedimento muito comum para minimizar os fatores genéticos comprometedores é “lavar o sangue” de ninhadas específicas, introduzindo um indivíduo da mesma raça na cruza, mas sem parentesco direto. Segundo o veterinário, essa manipulação é suficiente para diminuir a quantidade de genes de parentesco muito grande, reduzindo as chances de mutações indesejáveis.

Para Luiz Carlos, mesmo quando as limitações de fato existem, em muitos dos casos não são fatores determinantes na vida dos animais, pois, com um pouco de cuidado, a maioria desses problemas são contornáveis. “Se o dono é atencioso e carinhoso, não terá grande dificuldade. Afinal, cada ser tem condições ideais específicas, e tendo em mente que ter um cachorro significa satisfazer suas necessidades, como um filho, fazer o bem para seu bichinho não será um grande incômodo”, diz o veterinário.

Raças e possíveis doenças genéticas
  • Poodle: propensa a desenvolver doenças endócrinas, tumores de mama, hidrocefalia, epilepsia, entre outras.
  • Cocker americano: catarata, glaucoma, problemas nos rins, displasia coxofemoral, entre outras.
  • Rotweiller: displasia coxofemoral, parvovirose e problemas no aparelho gastroentérico, entre outras.
  • Labrador: displasia coxofemoral, catarata, criptorquidia, entre outros.
  • Schnauzer: hipotireoidismo, catarata, criptoquirdismo, glaucoma, entre outros.
  • Buldogue inglês: cardiopatias, sensibilidade ao calor, monorquidia, criptorquidia, displasia coxofemoral, entre outros.
  • Dachshund: artrite, hérnia de disco, cálculos renais, otites entre outros.
  • Pastor-alemão: epilepsia, displasia coxofemoral, ataxia, entre outros.
  • Yorkshire: hidrocefalia, problemas nos rins, catarata, atrofia da retina, câncer de testículo, entre outros.

Fonte: Luiz Carlos Albuquerque, veterinário.

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