Conheça histórias de pessoas que passaram por mudança radical na vida para encontrar a felicidade

Pierre Marcovicz largou um emprego estável para ganhar a vida como tarólogo

por Gláucia Chaves 26/12/2013 09:01

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Arquivo Pessoal
Em 2008, Rodrigo e Verônica largaram empregos estáveis e ganharam o mundo, levando a tiracolo a pequena Alice (foto: Arquivo Pessoal)

 

Quem: Rodrigo Mattioli, Verônica Lacerda e Alice

Felicidade é:
Verônica: “Não tenho um conceito definido... Acho que hoje é ‘se saber sortuda’.”
Rodrigo: “Hoje, é poder viver de acordo com o que você acredita. Amanhã, será diferente...”

Rodrigo Mattioli, 31 anos, e Verônica Lacerda, 29, sempre quiseram descobrir o que estava além do Planalto Central. Os publicitários se conheceram em Brasília, mas, mesmo antes de se casarem, já tinham vontade de se mudar, por “curiosidade e cansaço”, como define Verônica. Não que a vida aqui estivesse difícil para os dois. A carreira de ambos estava de vento em popa, com a empresa de fotografia e design que montaram crescendo mais e mais. A filha, Alice, hoje com 7 anos, crescia saudável e feliz. Mas foi justamente quando o casal se deu conta de que as raízes na cidade ficavam cada vez mais profundas que decidiram que era a hora de tentar algo novo.

Rodrigo já tinha morado em Londres e queria voltar ao exterior. “Pensamos que, se não fôssemos logo, o crescimento da empresa e o fato de a Alice começar a ficar mais velha seriam fatores que fariam mais difícil nossa saída”, explica Verônica. Em 2008, os três fizeram as malas e partiram. Londres, porém, também ficou pequena demais. “A rotina de cidade grande cansou a gente”, resume ela. A outra empresa que abriram em terras inglesas também crescia, assim como o trabalho. A família queria mais tempo de convivência e liberdade. Queria largar tudo novamente para ir para o meio do mato. Mesmo sabendo que seria uma decisão difícil, especialmente com uma criança pequena, decidiram pesquisar mais a fundo sobre as possibilidades do plano.

Verônica e Rodrigo descobriram que, sim, seria possível viajar pelo mundo sem tantas amarras ou mesmo sem dinheiro sobrando. “Descobri que existem vários sites de voluntariado, lugares que oferecem acomodação e alimentação por troca de trabalho”, completa Verônica. Naturalmente, os dois precisaram fazer um planejamento financeiro mínimo antes de pegar a estrada. “Como freelancer, a gente tem uma regra básica: tem sempre que ter três meses adiantado de salário na conta-corrente”, explica Rodrigo. “Quando saímos de Londres, percebemos que três meses de salário de lá renderiam quase um ano em outros países.” O plano, então, passou a ser viajar seis meses com um orçamento de até £40 por dia (cerca de R$ 150). Na prática, os três estão gastando menos do que o planejado — o que dará uma “folga” para viajar por mais alguns meses além dos seis que já constam no currículo.

Hoje, três países e oito estados diferentes depois, a família está em processo de “test-drive” de estilos de vida diferentes. Se encontrarem um lugar em que se vejam morando, param. Se não, continuam pedalando suas bicicletas em busca da nação perfeita. O destino de cada viagem só é revelado para poucas pessoas, e se as passagens já estiverem marcadas, para não gerar expectativa em ninguém. Muitos os consideram corajosos, mas eles não se veem assim. “É preciso ter mais coragem para ficar no mesmo lugar, levando a mesma vida, sem mudar nada durante anos, do que resolver arriscar e se mudar”, pondera Verônica. “Não é que um jeito seja melhor que o outro, mas é assim que a gente gosta de levar a vida.”

Na bagagem, a família tem hoje poucos souvenirs e muitas memórias. A experiência em uma fazenda no norte da Inglaterra, por exemplo, ajudou-os a perceber que não precisam de tanto luxo para se virar. Ter oportunidade de trabalhar na terra e ver que o produto final do trabalho, para Verônica, “era como uma coisa muito sólida, real e que a gente pode entender de cara de que forma ele afeta a vida das pessoas que dependem dele”. A paisagem, as pessoas que conheceram pelo caminho e até mesmo a barrinha de cereal no bolso ganharam novos significados. “É engraçado como as coisas simples que a gente toma como garantido podem nos dar tanta felicidade.”

Arquivo Pessoal
(foto: Arquivo Pessoal)


Quem: Fred Di Giacomo e Karin Hueck

Felicidade é:

Fred: ”Há duas definições que eu gosto bastante, uma é de Freud que diz que a felicidade seria a busca pelo prazer e a tentativa de evitar o desprazer. Outra é do cantor punk brega Wander Wildner: ‘Vida é muito simples, basta achar algo que se gosta para fazer’.”
Karin: “A felicidade não é um objetivo final. Não é algo que está parado lá na frente e que basta você esticar a mão para encontrar. Pelo contrário, a felicidade é tudo, menos estática.”

Fred Di Giacomo e Karin Hueck, 29 e 28 anos, tinham bons empregos. Os dois são jornalistas e escritores, já publicaram livros, ganharam prêmios e realizaram pesquisas importantes. Um belo dia, resolveram ir atrás dessa tal felicidade. O casal pediu demissão, fez as malas e, há quatro meses, foi viver em Berlim, na Alemanha. O projeto foi batizado de Glück Project, ou Projeto Felicidade, em tradução livre do alemão. No site da iniciativa, os dois catalogam o que encontram por aí, como exemplos de pessoas que tiveram a coragem para investir no que as fazia felizes.
A dupla entrevista ainda médicos, psicólogos e especialistas sobre temas relacionados à felicidade, como medo e arrependimento. A ideia é juntar tudo em um livro. “Cada entrevista feita ou livro lido gera um post no blog”, explica Fred, que frisa: o resultado prático não é o principal objetivo da busca. “Existe um objetivo pessoal, que é repensar nossas vidas, nosso modo de viver, nossa forma de encarar o mundo”, resume.

Quando a notícia de que largariam os empregos para se debandarem para a Alemanha foi anunciada, as reações, surpreendentemente, foram positivas. Nada de perguntas, acusações ou tentativas de sabotagem (ainda que não intencionais). Na verdade, o casal conta que sentiu amigos próximos e parentes inspirados pelo exemplo. “As pessoas que ficaram mais surpresas foram as que não nos conheciam direito, que achavam que éramos muito satisfeitos e realizados, por exemplo”, diz Karin.

Os dois já contabilizam momentos marcantes, tanto com relação à cidade quanto às experiências que tiveram. Debates com escritores, cineastas e pesquisadores são alguns dos legados da viagem. Para os dois, a maior epifania do autoconhecimento foi o que fazer com o tempo livre. “Eu tinha curiosidade em saber o que faria da minha vida se tivesse mais tempo livre. A resposta que encontrei foi que tenho vontade de fazer muito mais coisas do que fazia antes: aprender a desenhar, fazer filmes, cozinhar, andar de bicicleta”, enumera a jovem. “Hoje, a sensação que tenho é que a vida é um corredor com diversas portas esperando para serem abertas e nós estamos abrindo várias delas para dar uma espiadinha. Se gostarmos de alguma, podemos entrar e ficar”, finaliza Fred.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Quem: Pierre Marcovicz

Felicidade é: “Encontrar o que se deseja de verdade e ir em frente.”

Pierre Marcovicz, 37 anos, levava uma vida comum. Acordava, tomava banho, arrumava-se e seguia para o trabalho. O problema era o intervalo entre o serviço e a volta para casa: raramente se passavam menos de 10 horas entre uma coisa e outra. A rotina se repetiu por cerca de 14 anos. Pierre trabalhava com suporte de TI (tecnologia da informação). Além da imensa quantidade de trabalho, Os horários de Pierre não eram convencionais. O recorde foram 24 horas em frente ao computador. Horas extras? Nem pensar. “Nem o salário era bom. Sentia que estava desperdiçando minha vida.” O excesso de trabalho somado às relações não muito amistosas entre os colegas de ofício o deixavam extremamente estressado, frustrado e sem vontade de continuar com a vida que levava. As cartas do tarô, atividade que despertava seu interesse desde a infância, serviam como válvula de escape.

A rotina estafante, finalmente, fez com que Pierre chegasse ao limite. Resolveu transformar o hobby em algo profissional e, há um ano, usa as cartas como ganha-pão. O dinheiro da rescisão de contrato do antigo emprego serviu como amparo para os primeiros meses de empreitada. “Fiquei tranquilo. Se desse errado, pelo menos tinha tentado.” Os amigos e familiares o apoiaram incondicionalmente. Por enquanto, as consultas são feitas no apartamento em que mora. A ideia é transferi-las para um consultório próprio no futuro. A carga de trabalho diminuiu e o prazer aumentou — bem como a conta bancária. Ainda que as contas não estivessem estabilizadas, a tranquilidade que a nova vida trouxe teria valido a pena. “Não fico mais estressado ou nervoso.” Além das cartas, ele usa o tempo livre para estudar para concursos que o interessem. Ao contrário de muitas pessoas, contudo, esse é, agora, seu “plano B”.

Zuleika de Souza/CB/D.A Press
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)


Quem: Célia Estrela, 51 anos

Felicidade é: “Receber amigos em casa para um jantar e compartilhar momentos gostosos.”

Célia Estrela, 51 anos, fez um curso de ensino superior, como muitas pessoas. Porém, não escolheu exatamente o que queria para o resto da vida. “Você faz faculdade para ter um diploma, mas eu não era feliz”, resume. Há 20 anos, ela decidiu largar a vida de economista para seguir seu sonho: ser artista plástica. Autodidata, ela conta que pinta desde criança. “Quem tinha mais medo era eu, mas meu pai me incentivou a tentar. Ele disse que, se não desse certo, eu teria o apoio da família.”
A decisão de transformar a arte em trabalho veio após a primeira experiência profissional com economia. Célia tentava pintar uma coisa ou outra em seu tempo livre, porém as oito horas diárias de trabalho a impediam de se dedicar completamente aos quadros. Ainda assim, via no rosto dos amigos qual deveria ser seu caminho. A cada novo produto que produzia, a procura e os elogios cresciam. As encomendas foram aumentando, assim como a vontade de largar tudo. “Vi que só me sentia realmente feliz nesse tempinho em que não estava no trabalho”, completa.

Aos 30 anos, o momento de começar um novo trabalho, mais recompensador, chegou. Após a primeira exposição, Célia viu que poderia investir também em outras formas de arte. Lançou sua primeira coleção de porcelanas e adaptou um canto da casa para fazer o ateliê. O local hoje virou um reduto de artistas, amigos e clientes, que marcam horário para escolher as peças. Sua maior propaganda é boca a boca: ela conta que, não raro, clientes que viram suas peças na casa de amigos aparecem para adquiri-las também.

A vida hoje é muito diferente do que era antes. Não que Célia trabalhe menos por estar em casa: assim como um ofício convencional, é preciso disciplina e horários para que tudo dê certo. Financeiramente, as coisas vão bem, obrigada. A conta bancária está mais folgada hoje que nos tempos de economista. “Se eu vendo dois quadros em um mês, ganho mais do que se trabalhasse no meu antigo emprego por 30 dias.” Claro que esses dois compradores nem sempre aparecem. Porém, ela não se preocupa. “Sou muito pé no chão. Dá para viver de arte, desde que você se destaque e faça algo acessível ao público”, ensina. “Não dá para ficar gastando à toa.”

Para ela, ir atrás de um sonho não quer dizer relaxar. A prova está no corpo: após 20 anos pintando diariamente por cerca de oito horas, as dores são inevitáveis. “A vantagem é que não tenho mais estresse. Quando você faz o que gosta, nem sente o tempo passar.” Outro bônus do emprego hobby, segundo a artista, é ter cabeça e tempo para investir em outros projetos pessoais. Para o futuro, o plano de Célia é lançar um livro sobre decoração de mesas. “A proposta é dar dicas para decorar usando coisas reaproveitadas. A pessoa só se sente infeliz com o que não pode ter. O que tenho me faz feliz.”

Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press
(foto: Ana Rayssa/Esp.CB/D.A Press)


Quem: Iara e Eduardo Xavier

Felicidade é: “Amar tudo e todos. Para nós, não existe uma vida totalmente feliz ou totalmente infeliz. Existem momentos de felicidade.”

“Cansamos de ouvir notícias ruins.” Essa é a justificativa do casal Iara e Eduardo Xavier, 32 e 45 anos, para vender um apartamento e outros bens materiais, colocar itens essenciais no bagageiro do carro e sair pelo Brasil em busca de notícias boas. O plano começou em 2011 e continua até 2015. O planejamento acaba aí. “Acreditávamos que, se planejássemos muito, não iríamos sair nunca”, justifica Iara. Até agora, o casal já percorreu 180.160km, visitou 24 estados e catalogou 832 projetos.

A sensação de não contribuir com algo concreto para o mundo os incomodava. Manter as contas em dia, a casa limpa e as roupas lavadas os entorpecia: o que é felicidade? O que fazer para proporcionar felicidade aos que estão por perto? No site oficial do projeto Caçadores de Bons Exemplos, os dois dão a resposta: “Conhecendo e convivendo com pessoas que pararam de olhar para o próprio umbigo e pensam no coletivo”.

Ninguém entendeu a proposta de início. “Como poderíamos vender tudo o que tínhamos e viver na estrada?”. A viagem começou por Minas Gerais. A ideia é passar por todos os estados brasileiros para, depois, seguir para o exterior. O objetivo é juntar tudo em um livro, que será distribuído gratuitamente em escolas públicas brasileiras. “Enquanto isso, vamos distribuindo todas essas informações no site e nas redes sociais.”

Quem aponta os bons exemplos são os moradores das cidades que o casal visita. Uma vez no destino, os dois se guiam pelas indicações dos nativos até encontrar um ou mais projetos que incentivem boas ações. De vez em quando, conseguem pouso em casas de famílias. Na maioria das vezes, dormem em uma barraca automotiva montada no teto do carro. Não há rotinas. Hoje, os dois se consideram mais felizes do que quando tinham endereço fixo. Além da nova visão de mundo, desprovida de tanto consumismo, eles contam que aprenderam a viver um dia de cada vez. “Simplesmente vivemos e encontramos a felicidade em pequenas coisas e nos momentos”, filosofa Iara.

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