Combater câncer com imunoterapia é a melhor abordagem médica deste ano

A revista Nature listou os cientistas que mais se destacaram na área. Um deles evitou que o vírus H7N9 se espalhasse pela China

por Bruna Sensêve 25/12/2013 12:00

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Um novo capítulo na pesquisa sobre o tratamento do câncer começou neste ano. Resultados promissores que mostram o uso da imunoterapia para conter tumores malignos fizeram com que a comunidade médica e científica se convencesse do nascimento de um importante paradigma contra a doença em 2013. A estratégia aproveita o sistema imunológico do paciente para atacar os tumores, e foi reconhecida pela revista científica Science como a descoberta científica mais importante dos últimos 12 meses.

Já a Nature lembra, na retrospectiva publicada nesta semana, três importantes personagens. A virologista Deborah Persaud anunciou, no primeiro semestre, a cura funcional de um bebê nascido com HIV e encabeça o rol dos principais especialistas. Zhang Feng, jovem neurocientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, acompanha Persaud por conta da criação de técnica barata, prática e acessível para a edição de DNA — trabalho também presente na relação feita pela Science. A chinesa Hualan Chen completa o time pela liderança da força-tarefa que conteve o surto do vírus da gripe aviária (H7N9) em seu país natal. Veja como aconteceram e quais foram os principais avanços da medicina neste ano.

Emiko Paul/Quade Paul/Ron Gamble/Divulgação
"Não havia dúvida quanto à imensa promessa da imunoterapia contra o câncer" - Tim Appenzeller, editor-chefe de notícias da revista Science (foto: Emiko Paul/Quade Paul/Ron Gamble/Divulgação)


Novo tratamento
A comunidade de pesquisa experimentou uma mudança radical em 2013, uma vez que uma estratégia, há décadas em formação, finalmente cimentou o seu potencial. Resultados promissores surgiram a partir de ensaios clínicos de imunoterapia contra o câncer, em que os tratamentos miram o sistema imune do corpo, em vez dos tumores (foto). Esse tratamento empurra as células T e outras do sistema imunológico para combater os tumores. Os editores da Science creem que a abordagem tem potencial suficiente para encabeçar a lista dos mais importantes do ano.

Instituto de Tecnologia de Massa/Divulgação
"Por ser muito fácil de programar, vai abrir uma porta para enfrentar as mutações que afetam algumas pessoas, mas são muito devastadoras" (foto: Instituto de Tecnologia de Massa/Divulgação)


Editor de DNA
Um dos assuntos mais quentes, neste ano, na pesquisa biomédica, foi a criação do neurocientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts Zhang Feng. Com apenas 32 anos, ele está entre as principais personalidades da ciência anunciadas pela revista Nature, e a descoberta feita por ele, entre os grandes achados do ano listados na Science. A junção de uma proteína bacteriana chamada Cas9 e o RNA projetado em sequências específicas de DNA fornece aos pesquisadores um poderoso kit molecular para a cirurgia genética, isto é, para desativar, ativar ou alterar genes. O sistema chamado CRISPR/Cas foi comprovadamente capaz de editar genomas de maneira barata, fácil e precisa.

AFP Photo
"A vigilância do vírus da influenza é a prioridade no nosso laboratório" - Hualan Chen, virologista (foto: AFP Photo)


Cerco à gripe

A virologista Hualan Chen, chefe do Laboratório Nacional de Referência da China em Influenza Aviária, ajudou a conter um surto do vírus da gripe aviária emergente em humanos que ameaçou o país asiático nas primeiras semanas de abril. Menos de 48 horas após o anúncio de novos casos em Xangai e nas províncias vizinhas, a equipe de Chen coletou diversas amostras. Ela obteve 20 resultados positivos para H7N9 a partir de mercados de animais vivos, o que levou ao fechamento rápido dos estabelecimentos e à queda imediata da taxa de novas infecções. Pela resposta ágil e transparente, Chen figura entre os principais cientistas de 2013, de acordo com rol da revista Nature.

Universidade de Rochester/Divulgação
"O espaço entre as células do cérebro muda muito entre os estados conscientes e inconscientes" (foto: Universidade de Rochester/Divulgação)


Limpeza profunda

Ao rastrear um fluxo de um corante colorido nos cérebros de ratos dormindo, os cientistas do Centro Médico da Universidade de Rochester, liderados por Maiken Nedergaard, conseguiram visualizar a finalidade básica do sono: a limpeza do cérebro. Quando os ratos dormem, uma rede de canais de transporte do cérebro se expande em 60% , aumentando o fluxo do líquido cefalorraquidiano. A onda de fluidos afasta resíduos metabólicos, como as proteínas beta-amiloides, que podem engessar neurônios com placas e estão associados à doença de Alzheimer. A descoberta faz parte dos principais feitos científicos de 2013, segundo a Science.

IMBA/Madeline A. Lancaster
"Eles permitem o teste de terapias contra defeitos cerebrais e outras perturbações. E vão ajudar na análise dos efeitos de produtos químicos no desenvolvimento do cérebro" - Madeline A. Lancaster, líder do estudo (foto: IMBA/Madeline A. Lancaster)


Pequeno cérebro
Pesquisadores do Instituto de Biotecnologia Molecular, na Áustria, fizeram um progresso notável com o crescimento de miniórgãos humanos in vitro. O sistema ajudará no estudo do desenvolvimento precoce do cérebro humano e está entre as principais descobertas do ano, de acordo com a Science. A cultura de tecidos em 3D recapitula a organização vista no cérebro (foto) foi feita com células-tronco pluripotentes humanas. Essa abordagem pode acabar com limitações enfrentadas por cientistas ao estudarem doenças neurológicas humanas usando modelos animais, que têm estruturas cerebrais menos complexas.

NIAIDI/Divulgação
"Este avanço cumpre essa promessa e prepara o terreno para aplicações similares de projeto estruturalmente orientados para vacinas eficazes contra outros agentes patogênicos" - Peter D. Kwong, líder da pesquisa (foto: NIAIDI/Divulgação)


Vacinas melhoradas
Pesquisadores do Instituto Nacional dos EUA de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID) utilizaram a estrutura de um anticorpo para projetar um imunógeno — o principal ingrediente de uma vacina — contra o vírus sincicial respiratório (foto). Ele é responsável pela hospitalização de milhões de crianças anualmente em decorrência da pneumonia e de outras doenças pulmonares, e desafiava muitos desenvolvedores de vacinas. Foi a primeira vez que a biologia estrutural levou a uma ferramenta tão poderosa para combater a doença. O trabalho liderado por Peter D. Kwong figura entre as principais descobertas da ciência em 2013 pela Science.

Johns Hoppikings Children´s Center/Divulgação
"A realização de uma terapia antirretroviral muito cedo nos recém-nascidos pode permitir uma longa remissão sem antirretrovirais ao impedir a formação dessas reservas virais ocultas" (foto: Johns Hoppikings Children´s Center/Divulgação)


Bebê livre do HIV
Em março deste ano, a virologista Deborah Persaud compartilhou com o mundo a notícia de que um bebê que nasceu com o HIV nos Estados Unidos parecia estar livre de vírus quase um ano após a interrupção do tratamento com antirretrovirais. Agências de notícias vibraram com a história e, depois de um mês, Persaud e seus colaboradores, Hannah Gay, na Universidade de Mississippi; e Katherine Luzuriaga, da Universidade de Massachusetts, foram listados entre as 100 pessoas mais influentes pela revista Time em todo o mundo. Persaud está agora entre uma das principais cientistas do ano, segundo a Nature.

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