Pesquisa conclui que nem todas as pessoas mentem

Dizer que todos mentem é mentira, diz estudo feito em Amsterdã com 527 pessoas. Segundo a pesquisa, 41% falaram sempre a verdade. Mas 5% dos entrevistados foram responsáveis por 40% das lorotas contadas

por Paloma Oliveto 24/12/2013 14:15

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Mandar dizer que não está em casa para fugir de um telefonema ou de um vizinho chato, falar para o flanelinha que acabou o dinheiro trocado, chegar atrasado a um compromisso porque dormiu além da conta e jogar a culpa no trânsito… Todo mundo já contou uma mentira na vida. Já se sugeriu, inclusive, que o hábito é tão comum como comer e respirar. Mas, segundo uma pesquisa da Universidade de Amsterdã, isso sim é uma inverdade. Depois de realizar testes com 527 pessoas, os psicólogos garantem que uma boa parte delas é honesta o tempo inteiro.

No estudo, os cientistas sociais perguntaram aos participantes, em um questionário por escrito e, posteriormente, em entrevistas presenciais, quantas vezes eles haviam mentido nas últimas 24 horas. Quarenta e um por cento afirmaram que não tinham contado nenhuma lorota, 51% admitiram de uma a cinco inverdades e 8% reportaram seis ou mais. A média ficou semelhante à já constatada por outras pesquisas: duas mentiras por dia. Contudo, a psicóloga Rony Halevy, um dos autores do trabalho, diz que, nesse caso, não se pode pensar em termos de médias, pois somente 5% dos voluntários foram responsáveis por nada menos que 40% das mentiras.

Thiago / CB / DA Press
Conclusão está longe de ser unânime. Partidário da filosofia do protagonista do seriado House, o professor de psicologia da Universidade de Massachusetts Robert Feldmand é enfático: 'Todo mundo mente. O mundo está abarrotado de grandes mentirosos' (foto: Thiago / CB / DA Press)
Para descobrir se os participantes estavam falando a verdade sobre a frequência de suas mentiras, os pesquisadores os conduziram a um segundo teste. Eles deviam jogar os dados e, dependendo do número que diziam ter saído, recebiam determinada quantia em dinheiro. Os cientistas não podiam ver os cubos, por isso, os voluntários estavam livres para trapacear, reportando resultados maiores dos que, de fato, tinham obtido.

Halevy conta que justamente aqueles que, no questionário, haviam admitido recorrer à mentira muitas vezes ao dia foram os que disseram ter tirado as mais altas numerações no jogo de dados. “Estatisticamente, os escores deles eram tão implausíveis que isso não pode ter sido sucessivos golpes de sorte, eles só podem ter mentido. No fim, o resultado foi condizente com o primeiro teste. Os mentirosos trapaceiam mesmo, e os que garantiram não mentir provavelmente falaram a verdade no jogo”, afirma. O curioso, destaca Bruno Verschuere, coautor do estudo, é que os “pinóquios” da pesquisa foram honestos sobre sua desonestidade. “Talvez porque, para um grande mentiroso, isso é tão normal que eles não se incomodam em admitir que faltam com a verdade”, opina.

Diferenças

“Nesse estudo, quisemos debater se podemos generalizar e dizer que todo mundo mente ou se as diferenças individuais desempenham um papel importante no comportamento desonesto”, diz Rony Halevy. Ela afirma nunca ter se conformado com colegas do meio científico defensores da ideia de que a mentira é inerente ao ser humano. “Se todo mundo mente, então a mentira pode ser vista como uma ferramenta normal de comunicação. Mas, se alguns indivíduos mentem mais que outros, com a população em geral sendo honesta na maior parte do tempo, isso não pode ser visto como algo completamente natural”, argumenta.

Halevy e Verschuere, contudo, admitem que dois testes são insuficientes para determinar que a mentira é uma exceção e afirmam que vão continuar a pesquisar o tema, desenvolvendo outros tipos de experimentos que possam confirmar o resultado que tiveram agora. O coautor da pesquisa revela que o próximo foco da equipe serão os mentirosos patológicos, aqueles que admitem mentir mais de cinco vezes em 24 horas. “Para nós, essas pessoas provavelmente têm traços psicopatas. Pretendemos fazer um estudo comparativo, tentando identificar características já bem estabelecidas do comportamento antissocial (a psicopatia) em mentiroso extremo”, diz o especialista.

A teoria dos psicólogos holandeses é contestada por Michael Shermer, psicólogo e pesquisador da história da ciência. De acordo com ele, contar mentiras é um traço adquirido no passado evolutivo do homem, cujos ancestrais precisavam contar vantagens para sobreviver. “Somos uma espécie de primata social que depende da reprodução sexuada e precisa de status hierárquico para se dar bem do ponto de vista reprodutivo”, alega. “Essa necessidade de estar no topo nos leva a trapacear, exagerar e mentir sobre quem somos, do que somos capazes de fazer, do que conquistamos e do que gostamos”, continua. Shermer diz que a tensão social do homem gira em torno de manter um status e, ao mesmo tempo, ser considerado íntegro, competente e merecedor de reconhecimento e recompensas. “O ideal é ter os dois, mas nem sempre é o caso, por isso acabamos tendo de abrilhantar nossos feitos, florear nossas histórias etc”, defende.

Hábito cotidiano
Partidário da filosofia do personagem Gregory House, médico do seriado House, o professor de psicologia da Universidade de Massachusetts Robert Feldmand é enfático: “Todo mundo mente. O mundo está abarrotado de grandes mentirosos”, afirma. Diferentemente do que defendem os pesquisadores da Universidade de Amsterdã, o especialista em estudos sobre mentira e fraude diz que mentir faz parte da condição humana e é algo que a maioria das pessoas faz todos os dias. “Vai do cara que diz que se machucou só para não trabalhar à clássica história que o cachorro comeu seu dever de casa. As pessoas mentem para proteger sua autoimagem e, muitas vezes, para proteger os outros. Sua amiga ficou horrorosa com o novo corte de cabelo, mas você diz que ela está linda porque não quer magoá-la. Isso não é necessariamente uma coisa errada. Fazemos isso o tempo todo”, diz.

Autor do livro Why we lie (Por que mentimos, sem edição em português), o filósofo da Universidade de New England David Livingstone vai além: “Mentir é extraordinariamente comum e não poderíamos ir adiante sem isso”, escreveu. “A mentira movimenta as rodas da sociedade.” A teoria defendida por Livingtstone é que “mentir é automático e inconsciente, tanto como suar”. Embora o ser humano não nasça mentiroso, os próprios pais estimulam os filhos a ter esse comportamento, garante o filósofo. “As crianças devem fingir que gostaram de um presente de Natal que detestaram, têm de acreditar em fada do dente, coelho da Páscoa, Papai Noel… É como se os pais dissessem: ‘Não minta para mim, mas para os outros, você pode’.”

Já o psicólogo Shaul Shalvi, da Universidade de Amsterdã, defende um meio-termo entre a aceitação de que a mentira é algo natural e a tese defendida por seus colegas Bruno Verschuere e Rony Halevy. “As pessoas mentem por instintos de autopreservação, e só com o tempo elas consideram que esse comportamento não é aceitável socialmente. Quando agem rapidamente, podem tentar o que for possível para se preservar, incluindo passar por cima de valores éticos e mentir. Mas, quando têm mais tempo para deliberar, a tendência é não se deixar levar pela tentação de trapacear”, acredita. (PO)

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