Uso de fraldas após retirada da próstata pode ser contornado com esfíncter artificial criado no Brasil

O esfíncter artificial custa mais de R$ 40 mil, mas pesquisadores brasileiros acabam de apresentar uma versão nacional do dispositivo que pode torná-lo acessível

por Carolina Cotta 21/11/2013 15:00

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Não bastasse receber o diagnóstico de um câncer, um tumor maligno na próstata traz a reboque uma série de prejuízos. Ao homem é apresentado um quadro de dúvidas: ficarão sequelas como a disfunção erétil e a incontinência urinária? Um quarto dos pacientes submetidos à remoção cirúrgica da próstata permanecem com perda de urina um ano depois da cirurgia, precisando recorrer a fraldas para controlar o problema. O que muitos não sabem é que uma prótese pode mudar esse cenário, considerado por muitos como constrangedor.

O esfíncter artificial, tecnologia classificada mundialmente como padrão ouro para tratamento da incontinência urinária masculina grave, pode livrar esses pacientes das fraldas. O dispositivo implantado em procedimento cirúrgico substitui o mecanismo natural de continência por meio de uma prótese, acionada pelo próprio homem quando tem vontade de urinar. Faltava acesso, entretanto, pois o esfíncter artificial custa mais de R$ 40 mil. Mas pesquisadores brasileiros acabam de apresentar uma versão brasileira do dispositivo que pode torná-lo acessível.

O primeiro esfíncter urinário artificial brasileiro, idealizado pelo urologista e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Salvador Vilar, foi apresentado durante o 34º Congresso Brasileiro de Urologia, promovido pela Sociedade Brasileira de Urologia, que terminou ontem, em Natal. O protótipo brasileiro, chamado AS904, deve custar menos de um terço do americano apesar de ter tecnologia nos padrões internacionais. “Com a viabilização de uma tecnologia eficaz e nacional, poderemos beneficiar várias pessoas”, avalia o especialista.

O projeto foi desenvolvido em parceria com o professor João Luiz Amaro, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), e é resultado de quase 10 anos de pesquisas. O protótipo ainda aguarda os pareceres finais da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que estão em fase final, para iniciar estudos multicêntricos. Há três anos ele vem sendo testado em um simulador com tecido semelhante ao humano e foi aprovado em quesitos como temperatura, durabilidade e resistência.

É uma esperança, mas ainda impera a desinformação. Para o urologista Cristiano Mendes Gomes, médico do Hospital das Clínicas de São Paulo e do Hospital Sírio-Libanês, falta de acesso e desconhecimento da população sobre as opções de tratamento para incontinência urinária são os principais motivos que resultam no uso de fraldas, que tem um grave impacto na qualidade de vida. Um homem que teve câncer de próstata aos 50 anos, por exemplo, e perdeu a capacidade de controlar a micção, pode chegar a ter mais de 30% de seu período de vida comprometido pelo incômodo das fraldas.
“A incontinência urinária é a consequência da prostatectomia radical, como é chamada a retirada total da próstata, que mais afeta a qualidade de vida do homem, até mais que a disfunção erétil. Além de prejudicar a sexualidade, tem efeitos negativos na vida social, causando depressão, ansiedade, problemas de autoestima e nos relacionamentos interpessoais”, explica Gomes, especialista na cirurgia, que tem 90% de taxa de sucesso, número expressivo na medicina.

Hoje, um esfíncter artificial custa cerca de R$ 40 mil, apenas o aparelho, fora os gastos com a cirurgia em si. A notícia boa é que a tecnologia será incluída no rol de procedimentos dos planos de saúde em 2014. A partir daí eles terão que cobrir não só a cirurgia, mas também o aparelho. A notícia negativa é que no Sistema Único de Saúde (SUS) as fraldas continuam sendo a única opção. Diferentemente das mulheres, que podem fazer cirurgias de correção de incontinência, aos homens não são reservados nem os tratamentos mais simples.

Arte: EM/D.A Press
(foto: Arte: EM/D.A Press)


Arte: EM/D.A Press
(foto: Arte: EM/D.A Press)


Arte: EM/D.A Press
(foto: Arte: EM/D.A Press)


SAÚDE PÚBLICA

E trata-se de um problema de saúde pública. Dados da Sociedade Brasileira de Urologia revelam que a incontinência urinária afeta 10 milhões de pessoas no Brasil, sendo que, no homem, a ocorrência está associada, na maioria dos casos, às cirurgias na próstata. De acordo com Gomes, isso ocorre porque o procedimento pode afetar o funcionamento do esfíncter uretral, músculo que envolve a uretra e é responsável pelo controle da urina. Danificado, ele causa a perda involuntária de urina.
Uma significativa taxa de homens que passam por esse tipo de cirurgia têm perda urinária. Por si só, esse é um assunto que, portanto, deve ser discutido antes de uma cirurgia de retirada total da próstata. “A grande maioria terá a incontinência, e a grande maioria também, aos poucos, recupera a capacidade de reter a urina em um nível socialmente adequado. Mas uma porcentagem de pacientes, que varia de 3% a 10%, terá incontinência grave e permanente se não tratada.”

A melhora espontânea ocorre em, no máximo, um ano. Mas, segundo Gomes, um paciente que chega ao consultório seis meses após a cirurgia, relata a perda grave e não percebe melhora não precisa ficar esperando para adotar um tratamento. Para esses pacientes existem outras opções e a escolha da mais adequada é baseada no quadro clínico, na gravidade da perda e na preferência do paciente e do médico. O tratamento mais simples é endoscópico. Com a ajuda de equipamento, injeta-se uma substância que enrijece a musculatura, reforçando a capacidade de sustentação do esfíncter. Esse tratamento beneficia um número pequeno de pacientes porque só é indicado para casos leves. E, mesmo quando tem sucesso, é solução de curto prazo.

Outro tratamento é o sling, indicado para casos leves e moderados. Essas malhas cirúrgicas funcionam como um suporte, reforçando a sustentação da uretra, e têm 70% de eficácia. Já o esfíncter artificial é indicado para casos graves e tem a maior eficácia. A maioria dos pacientes mantêm a prótese funcionando cinco anos depois da cirurgia. É possível trocar o dispositivo quantas vezes forem necessárias.





Mais seguro
Antônio Rubens Mendes Geraldo, 56 anos, Arquiteto

Há três anos, o arquiteto Antônio Rubens fez uma cirurgia de retirada total da próstata. Essa era a opção para a cura do câncer diagnosticado, e ele não titubeou em fazê-la, mesmo sabendo das consequências possíveis. Queria se curar, era só o que pensava. Feito o procedimento, o paciente entrou em um quadro de incontinência urinária severa. "Fiz todos os tratamentos convencionais, fisioterapia pélvica, medicamentos. Até então eu desconhecia o que tinha ocorrido com meu esfíncter. Demorei um ano e meio para buscar outra solução e foi na internet que descobri a prótese", conta. O exemplo de Antônio mostra não só o difícil acesso ao esfíncter artificial, mas também um desinteresse médico em compartilhar com os pacientes as opções disponíveis na medicina. Foi preciso pagar R$ 43 mil pela prótese, que controlou em 100% a micção do paciente. "Só a partir daí eu tive de volta uma condição de normalidade. Hoje eu não tenho perda de urina, mesmo com esforços e prática de atividade física. Tenho de volta minha vida normal." Essa retomada da qualidade de vida reverteu um lado psicológico afetado pela incontinência. "O autocontrole melhorou minha autoestima. Passei a me sentir mais seguro e voltei a usufruir da minha vida em plenitude", comemora.

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