'Nunca beijei': conheça a filosofia de vida de jovens que decidem levar a castidade ao extremo

Casais guardam até os beijos na boca para depois do casamento e optam pelo chamado 'namoro de corte'

por Juliana Ferreira 03/11/2013 08:35

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Há quem diga que um beijo é a menor distância entre dois apaixonados. Um dos grandes escritores do romantismo, o alemão Johann von Goethe se arriscou a dizer que quem não beija é como um morto. Mas, para alguns jovens contemporâneos, o gesto de amor deve ser encarado como por Lucíola, personagem de José de Alencar ambientada no Rio de Janeiro do século 19: “Os beijos que lhe guardei ninguém os teve nunca! Esses, acredite, são puros!”. É nessa pureza que se mantém a biblioteconomista Pâmela Machado. Aos 25 anos, à espera do amor verdadeiro, seus lábios nunca sentiram outros. Assim como nos contos de fadas, em que as mocinhas só beijam o príncipe encantado no casamento, a jovem pretende experimentar a sensação no altar.

A inspiração para esse propósito de vida veio da literatura. Quando tinha 14 anos, Pâmela leu um livro em que um casal se conhecia e se apaixonava sem manter contato físico. “Vi o cuidado para não passar do limite. É uma forma de se resguardar. Não que seja pecado beijar, mas é a forma que encontrei de honrar o outro. A religião não me cobra isso, é pela minha relação com Deus”, explica. Mas ela confessa que é preciso muita força de vontade para resistir à tentação: “Já tive muita vontade. Conheci pessoas que mexeram muito comigo e tive que fugir”, ri.

Beto Magalhaes/EM/D.A Press
Pâmela Machado, de 25 anos: 'Eu me sinto completa por me guardar para alguém que vai me amar. Mas sei que muitos me acham doida' (foto: Beto Magalhaes/EM/D.A Press)
Quando a mãe descobriu a ideia, que impede o despertar do desejo antes da hora certa, foi um susto. O pai, ciumento, até que aprovou. Mesmo assim, a jovem confessa que ver a irmã mais nova beijar foi “cruel”. As brincadeiras com sua escolha também são constantes na família. Muitos nem acreditam que ela não beijou até hoje. “Não sinto que faça falta e não sou triste por isso. Eu me sinto completa por me guardar para alguém que vai me amar. Mas sei que muitos me acham doida.” O afastamento dos garotos que não a compreendem é visto como algo positivo, pois facilita o caminho até o par perfeito, que ela assume ser bem difícil de encontrar.

A procura pelo futuro marido, no entanto, não pode ocorrer só na imaginação. Por isso, quem não beija também namora, mas de uma forma bem peculiar. É o relacionamento de corte, baseado na amizade entre o casal. Nele, não há espaço para carícias ou toques mais prolongados. E nada de ficar sozinho. “A família está sempre por perto. O namoro é conversar e dar muita risada. Isso não é antigo, pode ser vivido no nosso contexto”, explica Pâmela, que já teve dois namorados e não nega a vontade de provar um beijo. “Vai ser uma descoberta de tudo. Sei lá se vou bater o dente. Mas o amor vai passar por cima disso”, brinca. Depois do casamento, está tudo liberado: “Tem que recuperar o tempo esperado”.

Voto de castidade
Um tempo que pode parecer uma eternidade. Os adeptos da linha que preserva a castidade de forma radical, que não aceita beijos ou toques, dizem que é preciso muita ajuda dos amigos e familiares, além de orações constantes. O estudante de administração Glauco Santos, de 23 anos, usa as táticas como válvula de escape para a tentação. Desde os 15, ele está convicto do objetivo de aguardar por uma esposa enviada pelo céu. Uma pedra no caminho o fez perseverar mais ainda: “Depois me arrependi, foi um beijo só. Eu queria ter esperado, mas achei por um momento que ela fosse a pessoa”. O lapso aconteceu no ano passado. E nunca mais. O próximo beijo está marcado para o dia do casamento. “É perigoso, porque culmina em outros pecados. As pessoas se espantam, mas a maioria me apoia.” Agora, ele não nega que a atenção é redobrada, já que mordeu parte da maçã, como fizeram Adão e Eva no Jardim do Éden, segundo a tradição bíblica. “Busco sempre estar envolvido com Deus e ter a mente preenchida. Vai vir no tempo certo.”

O namoro casto não precisa de devotos totalmente puros. Não importa o passado, mas a escolha que se faz no presente, como explica a estudante Sara Augusta dos Santos, de 19. Ela não beija há quatro anos, quando optou por cortejar quem quiser estar ao seu lado. “A Bíblia diz que a mulher deve se guardar para seu marido. Não estou à procura. Quando tiver que ser, será”, diz a jovem, que assume a dificuldade em achar um homem com os mesmos princípios. “Depois que casar, é tudo liberado. Não vou me privar do prazer. Isso me valoriza como mulher. Meu marido vai saber que serei só dele.” Se ela tem pressa? Não mesmo: “Não tenho medo algum de ficar para titia”, diverte-se.

Especialistas veem opção com reservas
O comportamento de quem opta por um nível de castidade em que até os beijos são proibidos é considerado por especialistas como fora do padrão. Esses jovens até podem conduzir a situação sem problemas, mas, segundo o psicólogo junguiano Sérgio Pereira Alves, tudo levado ao extremo faz mal e pode causar traumas. “É uma visão romântica deturpada, porque no mundo de hoje, em que tudo ocorre com rapidez, ficar esperando é evitar o desgosto e a decepção.” Ele cita o filósofo Gregory Bateson, que diz ser preciso dois para se conhecer um, o que resume a necessidade do outro.

“É preciso ter experiências de desgosto, se apaixonar estupidamente. Como lidar com isso quando algo vier à tona se não passamos por essas emoções?”, questiona. Uma relação sem a entrega física, segundo ele, não é suficiente para isso. “O contato é importante e traz uma ligação maior entre as pessoas. Há necessidade de fazer carinho, dar a mão, encostar”, explica. Alves diz ainda que a entrega abrupta somente no casamento pode ser traumática. “A pessoa pode sentir tudo de uma vez e travar totalmente.”

Mas a falta de compromisso nos relacionamentos da atualidade pode causar problemas da mesma forma, alerta. Segundo o especialista, quem não se compromete também tem medo de sofrer. “Não querer viver o amor causa os mesmos efeitos. É preciso equilíbrio, como tudo na vida”, conclui.

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