Em BH, Ludmilla empolga plateia de boate chique, evita palavrões e jura que ainda é funkeira

Artista cantou hits e músicas do novo disco, mas desafinou ao imitar Beyoncé

por Cecília Emiliana 28/10/2016 12:00

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“Eu te ensinei certin”, diriam velhos espíritos do capitalismo a Ludmilla. Aos 21 anos, a cantora já é um verdadeiro prodígio do laissez-faire, expressão clássica do economês usada para definir o funcionamento selvagem do deus mercado, regido pela lei da oferta e da procura.

Marcos Vieira/EM/D.A Press
Ludmilla animou a madrugada com funk, música romântica, sucessos de Beyoncé e hits da sofrência (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)

Fato é que, cinco anos depois de estourar no showbizz como MC Beyoncé – e dois após fincar os pés no mainstream com o nome da certidão –, Ludmilla é uma das artistas mais em evidência do país. E haja procura! Diante disso, o que faz essa bem-assessorada moça, que, segundo contratantes, apresenta 22 shows por mês e faturaria cerca de R$ 1 milhão em 30 dias?


Cuidadosamente, ela valoriza o passe, tornando sua presença algo “precioso” de desfrutar fora dos palcos. Tem-se notícia de que não pisa neles por menos de R$ 120 mil.


A oferta é para lá de controlada. No primeiro show de Ludmilla em Belo Horizonte depois do lançamento do novo disco, A danada sou eu, a assessoria informou que ela não conversaria com repórteres nem sequer por telefone. Entrevistas, só por e-mail. No dia da apresentação, marcada para a madrugada de quinta, 27, a cantora se restringiria a receber fotógrafos e emissoras de TV no camarim. E sem abrir exceção, “pois o tempo está contado”, conforme alegou um integrante da equipe da artista.


“Mas, hein? Então Lud vira pauta justamente por que vem a BH, mas os jornalistas não têm como conversar com ela?”, perguntou a repórter a uma assessora da cantora. O jeito foi encaminhar perguntas ao staff, que a estrela fluminense selecionou antes de responder – e o fez de forma para lá de econômica.

BAILE ‘TOPZÊRA’ Quem ouve o novo álbum de Ludmilla tem a impressão de que o tamborzão funkeiro perdeu um pouco do rebolado para dar lugar à dose generosa de pop. Esforço para transformá-la em “diva tipo exportação”? Oficialmente, não é o que Lud confirma. “Muita gente comenta isso, mas vou continuar no funk. Só que não quero me limitar, quero cantar pop, reggaton, romântica ... tudo!”, afirma ela, por e-mail.


Marcos Vieira/EM/D.A Press
Ludmilla antes do show em BH (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Bastou uma boa olhada na fachada da casa de shows Woods, onde ela se apresentou na madrugada de quinta, 27, e nos pagantes enfileirados na entrada – a maioria branca, de bom poder aquisitivo, que chega a pagar R$ 2,6 mil pelo camarote, outros R$ 470 por uma garrafa de uísque ou R$ 180 num bom espumante – para perceber: conquistar ambientes assim exige uma “peneirada” no funk.


Antes de entrar em casas como essa, o batidão passou por certa “customização”, que o distancia do morro. Afinal, o estilo “baile de favela”, para ser consumido em larga escala em baladinhas universitárias e pistas lucrativas, não deve ultrapassar a medida da “pitada”, como bem entendem os tubarões da indústria fonográfica que projetaram tanto Ludmilla quanto seus colegas funkeiros.


Da portaria à entrada do camarim, guardado pela segurança Joana d’Arc, heroína anônima que defendia a privacidade da diva, o caminho era entremeado de fãs contemplados por um sorteio do patrocinador do show, que aguardavam o encontro com a diva. Pareciam estar ali mais pela farra do que pela paixão que se observa em meninas negras que se sentem representadas em Lud.


Aliás, a pergunta sobre a representatividade que a ex-MC Beyoncé tem junto às garotas negras foi uma das que ela não respondeu na entrevista virtual.


As tietes presentes na Wood’s, porém, dizem muito sobre o público no qual ela parece estar investindo. “O que mais admiro na Ludmilla é o visual dela. Ah, as músicas também”, pontuou, sem emoção, a estudante Franciane Sampaio, de 30 anos, prestes a conhecer pessoalmente a diva.


Antes de receber os fãs, a princesa do funk pop (a rainha é Anitta) abriu as portas à reportagem. Mas... Por apenas três minutinhos. E só para fazer fotos.


Vieram de seu staff algumas informações “preciosas”. A empresa de decoração e bufê revelou que a cantora não fez nenhum tipo de exigência complicada ou estranha.


Marcos Vieira/EM/D.A Press
Ludmilla no palco da casa de show (foto: Marcos Vieira/EM/D.A Press)
Entretanto, quem observa a garota, que não esconde a vaidade e assume ter feito três plásticas – e diz não se arrepender, pois hoje se sente muito mais bonita, autoconfiante e feliz –, talvez não imagine que ela não se liga em dietas. “Ludmilla pediu apenas refrigerantes na versão normal, salgados, pizza, coisas do gênero. Incluímos por nossa conta alguns doces personalizados, como palha italiana – e ela adorou. Comeu vários e pediu que embrulhássemos o que sobrasse para viagem”, conta Érika Pevidor, dona do bufê.

PERUCA AZUL Às 2h30 em ponto, Lud entrou no palco, cheia de força na peruca azul e mandando a animada 24 horas por dia, diante do mar de smartphones. Mostrando que sabe fazer baile, engatou o hit Eu te ensinei certin. Depois de Fala mal de mim (“Não olha pro lado/ quem tá passando é o bonde/ se ficar de caozada/ a porrada come”) e É hoje – que o público tinha na ponta da língua –, cantou a balada Bom, a primeira canção do disco novo. A plateia já estava rendida.


Halo, de Beyoncé, a diva favorita de Ludmilla, também fez parte do repertório. Os momentos em que “performou” os agudos chegaram a ser engraçados. Sem a potência vocal da americana, Lud quase engasgou. E escorregou no inglês ao tentar imitar a ídola. Mas quem liga? A plateia é que não, pois cantou desafinadamente com ela.


Ludmilla conhece seu público – sobretudo, o que ele escuta além do funk pop. Com essa expertise, anunciou: “Agora é hora da sofrência”. E mandou 50 reais, hit da sertaneja Naiara Azevedo, além da romântica Duas doses de saudade, uma das cinco canções que compôs para o novo CD. Depois, soltou um pancadão – daqueles bem “baile de favela”.


Ao contrário de suas antigas performances, ela evitou palavrões – tão característicos do funk carioca. Malandramente, deixou para o público a “sessão pornografia”.
Fim de show, uma certeza: a danada ainda é ela.

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