Formada por mexicanos e paulistas, banda Francisco El Hombre é uma das atrações do Festival Transborda

Evento que começa nessa quinta (15) traz a BH novas faces da música feita no Brasil e no exterior em shows gratuitos

por Pedro Galvão 14/09/2016 08:38

No romance de Júlio Verne, o personagem Phileas Fogg precisou de 80 dias para dar a volta ao mundo, viajando em navios, trens e outros meios de transporte.

A partir de hoje, os belo-horizontinos poderão girar o planeta em apenas cinco noites, nas ondas sonoras do Festival Transborda e do evento Música Mundo.

Rodrigo Gianesi/Divulgação
Depois de deixar empregos e faculdade, integrantes da banda Francisco El Hombre fizeram turnê pela América no Sul (foto: Rodrigo Gianesi/Divulgação )

Serão 19 shows gratuitos, discotecagens, além de uma feira com palestras, rodada de negócios e outros atrativos para os interessados em viajar por vários ritmos.

Mantendo a proposta de misturar estilos e sotaques, o Transborda chega à sua quinta edição na capital mineira. As atrações (nacionais e internacionais) vão do rock à música tradicional da Estônia, passando por ritmos latinos e pelo hip-hop.

 

Uma boa síntese da característica do festival é a banda paulista Francisco El Hombre.

O grupo surgiu em Campinas, quando os irmãos mexicanos Mateo e Sebastián Piracés-Ugarte, que se radicaram no Brasil há 13 anos, se uniram a uma amiga e dois amigos brasileiros na missão de largar os empregos, faculdade e todas as “amarras com a sociedade”, nas palavras de Mateo, e sair de carro pela América do Sul fazendo música.

A turnê despretensiosa, pelo Chile, há três anos, com shows em praças e albergues, hospedagem em barracas e “passando o chapéu” para pagar as contas rendeu um bom repertório que, depois de um novo giro por Cuba, México e Uruguai, deu origem ao primeiro álbum da banda. Soltasbruxa, lançado em agosto, será apresentado no Transborda.

“Temos uma pegada política, somos Terceiro Mundo, nascemos perdendo, mas nascemos para gritar, por isso o disco se chama Soltasbruxa, queremos que a galera exploda no show, não apenas se divirta”, diz Mateo, que canta e toca violão.

 

A banda conta ainda com guitarra, baixo, percussão e instrumentos de sopro, para garantir a pegada latina, batizada por eles de “patchanga-folk”, com letras em espanhol, português e até “portunhol”.

Francisco El Hombre, nome inspirado em um trovador colombiano que perambulava pelas cidades contando e cantando sobre o que havia aprendido no lugarejo anterior,  faz show no domingo (18h), no palco montado embaixo do Viaduto Santa Tereza, que receberá, no mesmo dia, o mineiro Jonathan Tadeu e os pernambucanos do Mombojó.

ARGENTINOS
O sotaque castelhano também estará presente no Transborda com a banda Él Mató a Un Policia Motorizado.

 

Mesmo com apenas dois álbuns e três EPs lançados desde 2004, o quinteto de La Plata é uma das referências da cena do rock independente e alternativo da Argentina e toca em BH pela primeira vez no sábado, também no Viaduto.

A noite contará ainda com shows do mineiro Di Souza, do baiano Lucas Santanna, da banda paulista de rock Inky, além da apresentação de estreia do projeto Xõó, formado pela colaboração entre o mineiro Vitor Brauer e integrantes das bandas cariocas Baleia e Ventre, que também se apresenta no festival, no mesmo sábado, porém no palco do Baixo Centro Cultural, que recebe ainda a banda mineira Carmem Fem.

A viagem musical percorrida pelo Transborda chega até o interior da Estônia, com a banda Trad.Atack, vinda diretamente do país europeu para apresentar a música tradicional local misturada ao rock e ao eletrônico.

 

Na sexta-feira, o grupo terá a companhia do Pequena Morte e do Cromossomo Africano, completando o balanço internacional.
Além de diversidade étnica em torno dos ritmos, o Transborda propõe uma programação representativa, com equilíbrio de gênero entre os artistas presentes.

 

A noite de abertura, nesta quinta-feira, n’A Autêntica, dá destaque especial às mulheres, com os shows das rappers Bárbara Sweet (BH) e Indee Styla (Espanha).

Fruto do movimento hip-hop de Barcelona e influenciada pelos ritmos jamaicanos e pelo soul, Indee Styla é um nome que chama a atenção no universo rapper por ser mulher e cantar em espanhol.

 

”É uma cultura que trata sobre a expressão, mais do que nada, hip-hop é fazer as coisas como você sabe fazer, por isso faço na minha própria língua, que é como eu transmito melhor minhas ideias”, explica Indee.

Cantora e coreógrafa, a espanhola batalha por seu lugar de destaque há mais de 10 anos na música. “O hip-hop é um instrumento de empoderamento e também uma ferramenta para expressar a visão da mulher e sua sensibilidade. Sempre foi muito masculinizado.

 

No começo, eu não sabia como lidar, mas hoje vejo que é uma forma de as mulheres mostrarem a própria força”, conta a artista.

Do lado de cá do Atlântico, mais especificamente aqui mesmo, em Belo Horizonte, Bárbara Sweet traça um caminho parecido com o de Indee Styla. Famosa pelas performances nas batalhas de MCs da capital e pelo firme posicionamento em defesa dos direitos das mulheres, Sweet compartilha da opinião sobre a importância do rap para a causa feminina.

TRANSFORMAÇÃO
“A música é um instrumento maravilhoso de transformação e inspiração. Eu me transformei ouvindo música de mulheres, no rap e em outros estilos. O machismo, infelizmente, não é coisa do passado, ainda rola, mas temos conseguido chegar cada vez com mais força e cada vez mais unidas. Por isso temos conquistado nosso espaço”, afirma.

A mineira Juliana Perdigão encerra a programação no domingo, com show de seu novo álbum, Ó, no Baixo Centro, junto com a banda Os Kurva .

“Neste momento político do país, é importante que a gente aproveite os momentos culturais para manter nosso senso de identidade. Por isso o acesso gratuito é importante, para amplificar a presença e misturar todos os tipos de pessoas consumindo essa música brasileira vibrante, nova e com outras culturas que agregamos ao festival”, afirma Camila Cortielha, curadora do Transborda.

Viabilizado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura com patrocínio de empresas privadas, o Transborda é gratuito, mas para os shows realizados nas casas A Autêntica e Baixo Centro Cultural, sujeitos à lotação do espaço, os ingressos devem ser retirados com antecedência via internet.

 

Até a conclusão desta edição, apenas as atrações de domingo não estavam esgotadas.

MÚSICA MUNDO
Paralelamente ao Transborda, será realizada a segunda edição do Música Mundo. Com o caráter de “encontro”, nas palavras do curador e produtor Gabriel Murilo, o evento objetiva reunir profissionais envolvidos com a música de vários países para uma troca de experiências e oportunidades.

 

"Queremos dar a chance aos músicos de potencializar o trabalho, seja distribuindo música, firmando acordo de residência artística, agendando turnê, fazendo acordo com selo. Não é só uma feira de compra e venda”, afirma Murilo.

 

O Música Mundo ocorre a partir de hoje, no Cine 104 (Praça Ruy Barbosa, 104, Centro) e em outros espaços. Os interessados em participar devem se credenciar no site do evento, que traz ainda a programação completa: www.musicamundo.com.br.

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