Oitenta anos de Hermeto Pascoal: o que se passa na mente do "Bruxo Albino"

Reportagem do Estado de Minas foi recebida com exclusividade pelo artista em sua casa, no Rio de Janeiro

por Eduardo Tristão Girão 22/05/2016 08:00

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Eduardo Girão/EM/D.A Press
(foto: Eduardo Girão/EM/D.A Press)
Rio de Janeiro – Para entrevistar um dos maiores músicos do mundo, é preciso ir até o Rio de Janeiro e rumar para o Jabour, bairro na Zona Oeste, vizinho de Bangu. É um lugar tão afastado do Centro que recomenda-se reservar no mínimo uma hora de carro só para chegar lá. Com a Avenida Brasil em obras, dá tempo de saber que o motorista do táxi (o Cláudio) mora no Méier, ainda não pagou a escola dos filhos e gosta de angu bem molinho. A viagem levou quase duas horas e meia.

“Aqui é o interior do Rio de Janeiro”, brinca o multi-instrumentista e compositor Hermeto Pascoal, já estendendo a mão direita para o cumprimento. Ele se levanta do sofá, cuja estampa colorida não chega aos pés de sua camisa laranja, cheia de flores. Calça preta bem folgada, sandália de couro, relógio de ponteiro com passarinhos no punho esquerdo e, sobre os longos cabelos brancos presos, o chapéu. O apartamento simples, transformado em escritório, fica no bloco vizinho àquele onde Hermeto mora com a família do filho, Fábio, percussionista de sua banda.

A conversa com o artista, que completa 80 anos em 22 de junho, começa com a troca de impressões sobre o show que seu grupo fez em Juazeiro, no interior da Bahia, seis anos atrás. A fantástica apresentação ocorreu num teatro para não mais que 300 pessoas: Hermeto tocava e regia os músicos em composições que pareciam feitas bem naquele momento. O nível de entrosamento revelava a absurda perícia técnica dos envolvidos. A música do “Bruxo Albino” só falta ter cor.


“Digo que sou 100% intuitivo. Sinto as coisas e, quando quero escrever, pego o papel e faço. Mas não quero premeditar nada sobre o que vou tocar. Mesmo que faça uma lista de músicas, a gente nunca cumpre. Vão acontecendo coisas no meio do show... O começo dele já é solto, não tem jeito. Sinto umas coisas na hora e gosto de pegar todo mundo de surpresa. É lindo. Passo isso para o público”, conta.

Hermeto faz isso não apenas com o piano, mas “tocando” toda sorte de objetos – a chaleira, que virou sua marca registrada, ficou famosa.

Quem tenta premeditar tudo e se preparar demais perde a chance de ser criativo e, realmente, ser o que se é, acredita o compositor. Isso vale para o público. “É preciso se entregar. Não é ouvir uma música minha e eu explicar. Minha explicação serve para mim. Para que explicar? Por isso, é importante o cara que cria ser legal, pois tem a responsabilidade de ser livre. Não é ter compromisso com o público, pois, se tiver, fica preso. Tenho vontade de fazer as coisas, tenho amor”, explica.

De repente, o hino do Botafogo toca no celular de Fábio, filho de Hermeto Pascoal, que está na mesa ao lado organizando as partituras que o pai passou a escrever em tudo o que vê pela frente – guardanapo de pano, abajur, bandeja, copo, cartolina, revista de bordo, assento de vaso sanitário. Elas serão reunidas em uma exposição na capital fluminense, marcada para junho. Ele atende a ligação e começa a conversar, enquanto Hermeto discorre sobre como equilibra o saber e o sentir.

– Ô, Fábio, se você ficar falando aí fica esquisito – protesta.

O filho logo some pelo corredor. O pai retoma o raciocínio: “Não temos nem o poder nem o direito de premeditar nada. Senão, saberia o dia em que vou morrer. Se a gente soubesse de tudo antes, aí o saber seria mais importante do que o sentir. A gente tem intuição para fazer as coisas, é levado a pensar nas coisas. A gente não tem como premeditar. Temos algo mais importante: a intuição. Sem a intuição, o saber, coitado dele, não funciona. O mundo está botando o saber na frente e estamos pagando pecado por isso”.
“O cara que cria tem a responsabilidade de ser livre” - Hermeto Pascoal, compositor

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