Habitués têm lugar cativo em bares e restaurantes de Belo Horizonte

'Turma da diretoria' tem mesa especial, chamam garçons pelo nome e nem consultam o cardápio para fazer pedidos. Clientes assim são parte da história de bares e restaurantes de Belo Horizonte

por Luiz Fernando Motta 22/01/2016 09:00

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Jair Amaral/EM/D.A Press
Ricardo Normandia (E) já virou "sócio" de José Batista Martins, dono do Bar do Zezé, no Barreiro (foto: Jair Amaral/EM/D.A Press)
Você se lembra de voltar a algum bar ou restaurante em BH, encontrar aquele cliente sentado no mesmo lugar, consumindo quase sempre as mesmas opções do cardápio e tendo os pedidos “magicamente” trazidos à mesa pelo garçom? Essa gente fiel, que transforma rotina em lazer, já faz parte da “casa”. Se você não conhece ninguém assim, basta reparar melhor. Lá está o dono da famosa “mesa da diretoria”, que quase sempre mora perto, repete rituais, conhece pelo nome todos os funcionários e até usa códigos para expressar suas preferências.


É o caso do empresário Luiz Otávio Gonçalves. Mesmo numa sexta-feira chuvosa, ao chegar à Mercearia 130, na Serra, ele escolhe a opção de sempre: a mesinha na área externa, perto da mureta que por vezes serve de assento para os amigos. O cantinho estratégico lhe permite acender um charuto depois do almoço e observar de perto o trabalho dos cozinheiros, separados dali apenas por um vidro.

Assim que Luiz Otávio se senta, o garçom chega com a cachaça em temperatura não muito usual: gelada, ao gosto do freguês. A confiança é tanta que ele e o amigo José Renato Araújo nem sequer escolhem o prato. Apenas pedem que tragam algo “diferente”. Chegam à mesa o steak tartare com batatas (R$ 32, para duas pessoas) e o carro-chefe da casa, o torresmo de costela “picolé mineiro” (R$ 42, quatro unidades). “Comemos de tudo e gostamos de experimentar coisas novas. Frequentemente, nos trazem opções que acabam entrando de vez para o nosso cardápio”, diz Luiz Otávio.

A rotina do empresário já é conhecida na 130. Quando vai almoçar, leva a turma de amigos. No jantar, está sempre acompanhado da família. “Isso nunca se resume a um almoço ou jantar, é terapia em grupo. O que me atrai é o astral daqui. Sou tão bem atendido que chego a brincar com o pessoal, dizendo que habitué como eu já nem precisa de tanta atenção”, afirma.

TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS
O videoartista Rodolfo Magalhães não abre mão de seu cantinho debaixo da marquise da Mello Mercearia, na Serra (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A PRESS)
MARQUISE
Para encontrar o roteirista e diretor Rodolfo Magalhães nem é preciso combinar. Basta conhecer a rotina dele. De segunda a segunda-feira, por volta das 20h, é praticamente certo: o videoartista estará sentado embaixo da marquise na Mello Mercearia, na única mesinha redonda ao lado da porta. “Os amigos passam por aqui e sentam comigo. Outras pessoas, antes desconhecidas, começaram a me cumprimentar depois de me ver nesta mesa. Uma das funções da cadeira cativa é essa”, comenta.

Mesmo com o propósito de sair de casa para se distanciar do trabalho e do computador, o momento no bar nem sempre é puramente lazer. Rodolfo leva papel e caneta para o bar. Vez ou outra, observando o vaivém na Rua do Ouro, tem alguma ideia que não deixa passar em branco. “Uma frase que penso ali pode conduzir ou se encaixar em algum trabalho. De repente, você consegue achar o fio da meada de algo que não está bem resolvido”, conta. Além disso, frequentemente os convidados para uma cerveja são produtores de cinema. Resultado: a noite inteira é dedicada ao ofício.

Os funcionários já têm intimidade dos códigos e preferências de Rodolfo. “O toldo deve estar sempre puxado, eles já sabem disso. Dois garçons mais antigos já conhecem os sinais e até interpretam o meu humor. Se estou com o bloquinho de papel, por exemplo, até evitam de puxar conversa”, revela o videoartista mineiro.

SAUDOSISTA Morador do Barreiro, o empresário Ricardo Normandia faz da rotina um lazer. O cardápio do Bar do Zezé, ao lado da casa dele, é o principal atrativo para as noites de diversão. O estabelecimento funcionava como mercearia, mas há 16 anos começou a se transformar em bar. No começo, o proprietário Zezé vendia petiscos na garagem ao lado, onde havia quatro mesas. Nos poucos, o mercado foi sendo desativado e a área ganhou 40 mesas. Cliente cativo, Ricardo Normandia não abre mão de se sentar no mesmo lugar.

“Sou saudosista e gosto de recordar os velhos tempos da mercearia e da garagem. Do meu lado fica a prateleira onde ainda estão os itens daquela época”, revela.

Às quintas-feiras à noite, Ricardo se senta para esperar o prato preferido: a tradicional canjiquinha (R$ 28,50, serve duas pessoas). Nos fins de semana, prefere feijoada (R$ 55, serve três pessoas) no almoço. “Quando chego, já trazem uma porção de almôndegas (R$ 6). Essa é a vantagem de ser cliente fiel: a gente já sabe que nunca terá surpresas desagradáveis”, diz.

EULER JUNIOR/EM/D.A PRESS
José Renato Araújo foi o convidado de Luiz Otávio Gonçalves (D) para sua "mesa cativa" na Mercearia 130 (foto: EULER JUNIOR/EM/D.A PRESS)
Repetir? Quase nunca

 

A fidelidade traz vantagens, mas há quem abra mão dela pela chance de expandir os roteiros. Antes de se decidir por algum bar, Vinícius Alves, morador do Bairro São Pedro, senta em frente ao computador e procura outras referências. “Novos bares, novas cervejas, novos pratos. Gosto de novidade e de aprender. Por isso é bacana fugir do trivial”, diz.

Para reduzir as margens de erro, o técnico bancário criou o próprio manual. “A beleza do estabelecimento sempre me atrai bastante. Estacionamento também é um ponto muito forte, por causa da dificuldade para encontrar vagas e da insegurança. Procuro referências de amigos, além de fotos na internet”, conta.

Vinícius já se surpreendeu várias vezes. “A maior curiosidade sobre minhas idas e vindas é que já fui a locais caros e belíssimos, porém com comida bem abaixo do esperado, e a lugares simples com banquetes deliciosos e dignos de registro fotográfico. Isso é comum a todos que se arriscam em lugares novos”, conclui.

CONFIRA

BAR DO ZEZÉ

Rua Pinheiro Chagas, 406, Barreiro, (31) 3384 -2444. Abre de segunda a sexta-feira, das 17h à meia-noite; sábado, das 12h às 21h.

MELLO MERCEARIA
Rua do Ouro, 331, Serra, (31) 3221-4022. Abre de segunda a quinta-feira, das 10h à meia-noite; sexta-feira e sábado, das 10h à 1h; e domingo, das 10h às 23h.

MERCEARIA 130
Rua Ivaí, 130, Serra, (31) 3658-3395. Abre de terça a sexta-feira, das 11h30 à meia-noite; sábado, das 12h à meia-noite; e domingo, das 12h às 17h.



O MANUAL DO HABITUÉ

Tem hora marcada e dias específicos para ir ao bar ou restaurante


Quase sempre se senta em mesa reservada, em algum cantinho

 

Gosta de estabelecimentos perto de casa


Conhece todos os funcionários


Tem códigos e maneiras peculiares para se comunicar
com os garçons


O garçom já conhece as preferências


Nem é necessário trazer o cardápio

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