'Um lambe por dia' ganha exposição em BH

Adaptação do trabalho das ruas para o espaço de uma galeria incluiu música e adesivos ''disponíveis para roubo''; autor pregou 2 mil lambes pela cidade

por Shirley Pacelli 25/11/2015 08:00

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Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
Leonardo Beltrão já pregou cerca 2 mil lambes no Centro e nos bairros Santa Tereza e Serra (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)
Em meio ao caminho de uma Belo Horizonte cinza, o cartaz amarelo com letras em vermelho vibra a mensagem no poste: “Não era amor. Era cilada”. A ação de espalhar cartazes coloridos e poéticos pela cidade, à la “Mais Amor Por Favor”, é parte do projeto Um Lambe Por Dia, do gestor cultural Leonardo Beltrão. Exemplares dessa proposta artística estão em exposição na Casa Una, até a próxima sexta.
 
Beltrão é escritor e publicou no ano passado o livro A festa do adeus. O projeto dos lambe-lambes é de abril deste ano e foi impulsionado por uma oficina que o idealizador fez, em março, com Laura Guimarães, que desenvolve o projeto Microrroteiros da Cidade, em São Paulo. “Eu já era vidrado com essa coisa do lambe-lambe de colorir a cidade, deixá-la mais poética. Fui pegando uns textos meus e comecei despretensioso. Os amigos incentivaram”, diz Beltrão.

Marcella Mendes/Divulgação
Série astrológica conquistou milhares de fãs (foto: Marcella Mendes/Divulgação )
“Signo de escorpião com ascendente em tretas.” “Signo de touro com ascendente em teimosia.” O projeto Um Lambe Por Dia teve uma série especial ‘astrológica’ que atraiu milhares de admiradores na web: 16 mil fãs no Facebook e 6,6 mil no Instagram. Alguns posts chegaram a alcançar 200 mil compartilhamentos.

Na vida real, a proposta também faz sucesso. “Estava pregando um lambe no poste no Bairro Serra e passou um carro de polícia. Eles pararam, olharam, deram uma volta no quarteirão e voltaram. Aí, o policial me perguntou: ‘Tem do signo de Gêmeos para dar para minha filha?’”, conta Beltrão, entre risos.

Para a mostra na Casa Una, o artista encarou o desafio de levar o universo da rua para um centro cultural. “Tive que repaginar o lambe-lambe usando outras manifestações artísticas. Explorei suportes em diálogo”, diz. Uma das salas traz faixas do teto ao chão, com serigrafia dos poemas. Em outra, há o áudio das poesias, que são projetadas no teto. O público é convidado a se aconchegar nos puffs. Na última sala, chamada Pequenos Voos, balões preenchem o espaço com adesivos dependurados – “Disponíveis ao roubo”.

Desde o ínicio do projeto, Leonardo Beltrão já pregou 2 mil lambes no Centro e nos bairros Santa Tereza e Serra.


ESTRANHAMENTO

Ramon Lisboa/EM/D.A Press
Com o Culundria Armada, criado em 2005, Luiz Navarro e João Perdigão faziam lambes provocativos (foto: Ramon Lisboa/EM/D.A Press)

A reação afetuosa do público ao projeto Um Lambe Por Dia não é o que buscava o Culundria Armada, coletivo criado em 2005 por João Perdigão e Luiz Navarro. “Sempre fizemos nossos lambes com a intenção de causar estranhamento, uma reação. Eles são provocativos. A pessoa está no fluxo do cotidiano, monótono, saindo de casa para o trabalho… Aquela mesmice. E aí bate o olho na parede e vê o que não esperava”, afirma Navarro.

Ele observa que há 10 anos havia um boom de produção de stickers e lambes em BH. Krol, Comum e Desali eram seus contemporâneos. “Começamos a fazer depois que vimos um do Xerel. Ele é um dos pioneiros.” Em 2016, Navarro deve lançar livro sobre a trajetória do lambe-lambe na capital mineira. Ele e Perdigão editam atualmente o zine A Zica.

Comum/Divulgação
Série que retratava personagens de BH deu nome ao artista Comum (foto: Comum/Divulgação)
Outro nome atuante no cenário da arte urbana é Comum, que acabou adotando essa assinatura após a série de trabalhos Cidadão Comum, com retratos de personagens da cidade. Quando Comum começou sua produção, “tirava xerox, imprimia na gráfica”, lembra. Um dos seus primeiros trabalhos convidava as pessoas à interação: uma folha em branco, escrita “espaço branco”.

Hoje, uma técnica que ele utiliza muito é a de aplicar no papel o estêncil de diversas camadas. Depois, ele vira lambe-lambe. “É uma forma de colocar nas ruas as minhas produções. Desenvolvo o estêncil como técnica de gravura”, explica.

CURRÍCULO
A professora Adelaine Scalco se inspirou na proposta do Um Lambe Por Dia para realizar projeto com estudantes das escolas estaduais Sagrada Família 1, no Nova Vista, e Laura das Chagas Ferreira, no Aglomerado da Serra. Os alunos fizeram a audição de variados estilos musicais, escolheram trechos de canções e passaram para os lambe-lambes, que ganharam as ruas. “Houve manuseio dos encartes, observação das linguagens visuais, fotos e concepções gráficas do artista”, explica Adelaine.

UM LAMBE POR DIA
Exposição de cartazes do projeto. Na Casa Una (Rua Aimorés, 1.451, Lourdes, (31) 3235-7314. Das 14h às 18h. Entrada franca. Até 27/11.

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