Cadáveres contribuem silenciosamente para a ciência e inspiram as artes

Defuntos têm papel no avanço da medicina, na investigação de crimes e até ajudam a salvar vidas, com transplante de órgãos doados. Literatura, cinema e artes plásticas se inspiram na morbidez do tema

por Fellipe Torres 29/06/2015 12:54

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Museu Nacional de Medicina dos EUA
(foto: Museu Nacional de Medicina dos EUA)
De maneira silenciosa, sem exigir crédito algum, cadáveres fazem história junto à ciência há mais de 2 mil anos. Entre os muitos feitos, já ajudaram a provar a necessidade do uso do cinto de segurança, após testes de colisão. Foram voluntários para a criação da guilhotina, na França, naquela época considerada opção "humanitária" à forca. Viajaram ao espaço. Todos os dias, um corpo doado é igualmente capaz de proporcionar transplantes de órgãos e salvar várias vidas. Essa longeva interação entre mortos e vivos também inspirou e inspira as artes, desde a escrita do clássico Frankenstein, de Mary Shelley, até roteiros de filmes e episódios de séries contemporâneas, como CSI, Shameless e Grey’s anatomy.

Várias contribuições anônimas dos defuntos aos avanços científicos foram enumeradas pela jornalista e escritora norte-americana Mary Roach no livro Curiosidade mórbida (Paralela, R$ 44,90), publicado em 2003 nos Estados Unidos e só agora lançado no Brasil. A obra analisa tanto a importância histórica do uso dos defuntos quanto aquela cotidiana, em atividades como o treinamento de novos cirurgiões plásticos. Os corpos sem vida, aliás, são essenciais para a medicina desde sempre, como já anunciava, no século 18, um renomado anatomista britânico: “Quem não opera os mortos vai mutilar os vivos”.

Embora instituições educacionais de todo o mundo enfrentem dificuldades em mantê-los introduzidos no currículo da graduação (diante da substituição por bonecos ou pela simples observação de profissionais experientes), defuntos ainda são peça-chave na formação. “Há um número surpreendente de doadores que, na verdade, não se importam com o que vai acontecer com eles. Para eles, trata-se apenas de um meio prático de dar destino a um corpo, um meio prático que, por sorte, tem um componente de altruísmo", sugere, no livro, o historiador Art Valley, especialista na história da doação de corpos. 

 Museu Nacional de Medicina dos EUA
(foto: Museu Nacional de Medicina dos EUA)
De fato, é preciso desapego, pois uma pele doada, por exemplo, quando não aproveitada para enxertos em vítimas de queimaduras, pode servir para um procedimento cosmético de aumento de pênis. Como consolo (aqui, sem trocadilho), resta o fato de a maioria das escolas de medicina terem se organizado, mais recentemente, para promover atitudes respeitosas em relação aos cadáveres utilizados. Há cerimônias cuja participação de parentes dos mortos é inclusive permitida e encorajada.

Mas nem sempre os defuntos foram tratados com o devido respeito. Já foi comum, por exemplo, estudantes e professores de medicina atacarem cemitérios para roubar corpos (ou contratar quem o fizesse). No século 17, o literato francês Sebastién Mercier descrevia: “Jovens cirurgiões reunir-se-ão em número de quatro, tomarão uma tipoia, assaltarão um cemitério. Um luta com o cão que guarda os mortos; o outro com uma escada desce à vala; o terceiro está montado no muro, lança o cadáver; o quarto o apanha e o põe na tipoia”. Naquela época, também não era visto com estranheza o fato de cadáveres serem utilizados em larga escala para testar o impacto de munições pelas forças armadas de vários países.

Nenhuma dessas práticas condenáveis, por outro lado, ofuscam a relevância científica do uso dos corpos – respeitando-se a ética, as leis e o bom senso. No volumoso estudo O homem diante da morte (1977, reeditado em 2014 pela Unesp), o historiador Philippe Àries ressalta o grande valor da anatomia para além da medicina. Baseado em tratados do século 17, ele menciona o quanto filósofos, magistrados, pintores e escultores estavam interessados no conhecimento relativo à natureza dos corpos, cada um com as próprias motivações. Grosso modo, o entusiasmo permanece o mesmo até hoje, embora os meios para acessar as informações tenham mudado completamente.

TREINO É TREINO
Primeiro, vêm os animais. Depois, os defuntos humanos. Quem decide estudar medicina tem muitos anos para se acostumar a corpos sem vida. Se, porventura, decidir se especializar em cirurgia plástica, já não os verá como mortos, mas como aliados, ou "ferramentas" à disposição da prática. O truque da coisificação (convencer a si mesmo da função do cadáver ao invés de se apegar ao passado daquela pessoa, por exemplo) é bastante usual. Portanto, em um treinamento de cirurgia estética facial, os alunos não vão se chocar ao se deparar com 40 cabeças decapitadas, à espera dos procedimentos. De cabelos raspados, os rostos podem sair dali com um nariz mais fino, com as pálpebras repuxadas, as rugas suavizadas. 
>>>>>>>>> UM FILME >>>
Cadáveres (2006) - Quatro estudantes de medicina trabalham em um laboratório dissecando cadáveres. Após aulas de anatomia, uma aluna passa a ter visões e um de seus colegas aparece morto.
 
CORPOS ROUBADOS
Nem sempre a contribuição dos cadáveres com a ciência se dá com a leniência do falecido ou com a de parentes dele. Ainda hoje são registrados casos de violação dos direitos do morto. No Afeganistão, onde clérigos talibãs proíbem o uso de corpos ou esqueletos para fins de aprendizado, muitos estudantes recorrem a medidas extremas, como desenterrar os restos mortais de alguém. Se na atualidade o ato pode ser considerado gravíssimo, antigamente já foi prática comum e aceitável. Na história de escolas britânicas de anatomia, nada era tão cotidiano quanto o "sequestro" de corpos (algo considerado perdoável, ao contrário do roubo de pertences do defunto). Em alguns centros de estudos da Escócia, no século 18, a mensalidade poderia até ser paga com cadáveres, ao invés de dinheiro. Havia inclusive quem terceirizasse a tarefa, ao contratar sequestradores de defuntos.
>>>>>> UM LIVRO >>>
O ladrão de cadáveres, de James Bradley (Record, R$ 45) - Na Londres de 1820, Gabriel Swift passa a ter aulas com o anatomista Edwin Poll e descobre um lado sombrio da medicina. Ele começa a vender corpos e extorquir dinheiro, e a ambição o conduz ao assassinato.

DEIXADOS AO SOL 
A medicina legal é incessante no aperfeiçoamento de técnicas capazes de elucidar crimes. Uma maneira de fazer isso é descobrir, a partir da decomposição do corpo da vítima, o dia e até a hora aproximada da morte. Para avançar em estimativas dessa espécie, são mantidos centros de estudos médicos como o de Knoxville, Tennessee, nos Estados Unidos. Trata-se de uma área de pesquisa de campo dedicada a estudar a decomposição de cadáveres doados. Por lá, são analisadas minuciosamente as etapas biológicas e químicas, a duração de cada uma delas e como o meio ambiente as afeta. Cerca de 700 corpos são avaliados simultaneamente.
>>>> UMA SÉRIE >>>>
CSI: Miami – Crime scene investigation (Box 1ª temporada, DVD, R$ 39,90) – O programa acompanha equipe de investigadores do sul da Flórida, nos EUA, que utiliza tanto de tecnologia de ponta quanto os métodos à moda antiga para desvendar crimes.

ALÉM DA CAIXA-PRETA
Os corpos de vítimas de um acidente aéreo são capazes de contribuir para desvendar os motivos de uma tragédia tanto quanto as informações guardadas na caixa-preta. Em casos específicos, profissionais especializados em traumatologia são capazes de recorrer à chamada patologia da aviação para analisar e decodificar os destroços humanos. Por meio do tipo e gravidade das lesões, são juntadas peças do quebra-cabeça. Com uma pitada de sarcasmo, a jornalista Mary Roach especula várias possibilidades para sobreviver a um acidente aéreo. "Eis o segredo: ser homem. Numa pesquisa do Instituto Civil de Aeromedicina (...) o fator mais importante para a sobrevivência foi o gênero. Concluiu-se que os homens adultos são de longe os mais prováveis sobreviventes. Por quê? Supostamente porque tiram todos os demais do caminho a empurrões".
>>> UMA SÉRIE >>>>
 Mayday: Desastres aéreos (segunda a sexta-feira, à 1h, no National Geographic) investiga os mais famosos e terríveis acidentes de avião, reconstrói a experiência de passageiros, pilotos e controladores de voo. No formato de documentário, os episódios recuperam gravações, depoimentos, documentos e reportagens sobre as tragédias.

TIRO AO ÁLVARO
Exércitos suíços, alemães, franceses e norte-americanos já utilizaram corpos humanos como plataforma para testar a potência balística de novas armas, conforme comprovado por pilhas de documentos históricos. Em própria defesa, estudiosos por trás desses experimentos deixaram relatos de um suposto benefício decorrente dos testes. A ideia era usar a pesquisa balística com cadáveres para levar a uma "forma de luta mais humana com armas de fogo". Segundo eles, o objetivo da guerra não é matar o inimigo, mas apenas torná-lo incapaz de lutar. Assim, em algumas ocasiões aconselhavam reduzir o tamanho dos projéteis e usar material capaz de destruir menos os tecidos do corpo. 
>>> UM FILME >>>
Amarelo manga (2002) - No Hotel Texas, também na periferia da cidade, trabalha Dunga, um gay que é apaixonado por Wellington, casado com Kika. Um dos hóspedes, Isaac, sente grande prazer em atirar em cadáveres, que lhe são fornecidos por Rabecão, um funcionário do IML.
 
MEU CORAÇÃO É SEU
Em 2014, 7.898 órgãos foram doados e transplantados no país, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Em geral, o melhor cenário para o aproveitamento dos cadáveres são casos de morte cerebral, quando a pessoa está teoricamente viva e bem de saúde, exceto pelas funções da mente. Assim, a possibilidade de transplante pode salvar várias vidas. Mas nem sempre essa foi uma realidade possível. Como os respiradores artificiais só foram inventados na década de 1950, a história tem casos bizarros quando se trata da declaração da morte de alguém. Nos séculos 18 e 19, diante de ocorrências de pessoas enterradas vivas, os médicos criavam métodos para evitar tal infortúnio, como passar lâminas nas solas dos pés, puxar a língua com força, enfiar agulhas embaixo da unha, colocar ferros em brasa no ânus, prender pinças nos mamilos, enfiar lápis no ouvido, derramar cera fervente na testa e urina quente na boca.
>>> UM FILME >>>
Enterrado vivo (2010, DVD, R$ 27,90)>>> Paul Conroy acorda enterrado vivo dentro de caixão de madeira. Sem saber o que aconteceu e o porquê de estar ali, ele tem em suas mãos apenas um telefone celular e um isqueiro. Sequestradores exigem um resgate milionário para libertá-lo.

IDA ELETRIZANTE
Em meados de 1780, o professor italiano Luigi Galvani conduziu experiências científicas para mover membros de um sapo morto ao utilizar impulsos elétricos. Coube ao sobrinho do cientista, Giovanni Aldini, dar prosseguimento à ideia. Ele viajava por várias cidades para eletrocutar cabeças humanas, olhos e pernas, como em um show de mágica. Em 1803, aplicou eletricidade no rosto de um cadáver, cuja expressão facial se alterou, a ponto de abrir um dos olhos. Depois, ao eletrificar o corpo inteiro, fez o defunto se movimentar como em uma dança. Por muitos anos, outros pesquisadores investiram no método na esperança de ressuscitar os mortos, pois enxergavam a eletricidade como um “fluido vital”.
>>>> UM LIVRO >>>
Frankenstein, de Mary Shelley (LP&M, R$ 18,90) - As experiências de Giovanni Aldini influenciaram a escritora inglesa a escrever um dos grandes clássicos da literatura. No livro, narra a história do doutor Victor Frankenstein e da monstruosa criatura por ele concebida.

 

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