'Invasão zumbi' é filme de terror para refletir

Longa sul-coreano trata de história de família e faz crítica social com bom domínio desse gênero cinematográfico

por Agência Estado 02/01/2017 12:40
PARIS FILMES/DIVULGAÇÃO
Cena de 'Invasão Zumbi' (foto: PARIS FILMES/DIVULGAÇÃO)

Mais do que a França, que sempre apoiou seu cinema e virou um enclave de resistência a Hollywood, a Coreia do Sul talvez seja o único país no mundo em que os filmes nacionais impõem pesadas derrotas aos blockbusters estrangeiros – leia-se, dos EUA. Batman vs. Superman, Avengers, Guardiões da galáxia não são páreos para o cinema de gênero local. De gênero, sim, porque essa foi uma coisa que o cinema sul-coreano importou. Policiais, fantasias científicas, terror, mas sempre impregnados dos elementos da cultura nacional. Invasão zumbi, que estreou na última quinta, tem sido um fenômeno internacional.

Invasão zumbi usa o fantástico, mais até que o terror, para contar histórias de família. O filme é violento, intenso, mas, ao contrário das produção do gênero de Hollywood, não se alicerça sobre o conceito do susto. De cara, o diretor Sang-ho propõe um estranhamento. Na abertura, um boneco inflável, imitando gestos humanos, desvia um carro na estrada e, imediatamente há um acidente com um cervo. Morto, o bicho retorna como zumbi e encara a plateia.

Veja o trailer do filme:

 

Na cena seguinte, a história já é de família. O pai que só pensa na carreira e não tem tempo para a filha é forçado a acompanhar a garota, levando-a ao encontro da mãe. Coisas estranhas estão ocorrendo pelo país – levantes em toda parte. Pai e filha embarcam no trem. O último trem para Busan é o título internacional de Invasão zumbi. Tem um significado ao mesmo tempo real e simbólico. No país que sofre o ataque dos zumbis, é o último trem para Busan, área militarizada, que se transforma no único reduto seguro. E é a última viagem para muita gente, quase todo mundo que embarcou. No fim, poucos, bem poucos chegam ao seu destino.

 

Vem de longe, na história do cinema, o fascínio pelos mortos-vivos. Vampiros, com seu sangue gelado, não deixam de ser uma categoria específica, mas, no começo dos anos 1940, o lendário produtor Val Lewton, em seu ciclo de terror, já contava histórias de zumbis. A morta-viva, o clássico de Jacques Tourneur. Pelos anos e décadas seguintes, mortos-vivos assombraram o imaginário do público até que, no mítico 1968, George A. Romero fez A noite dos mortos-vivos. Tratado com realismo, quase um neorrealismo, o terror virou político e chegou em 2004 a Dawn of the dead (Madrugada dos mortos), de Zack Snyder, o último grande filme hollywoodiano do gênero, com seus zumbis que sitiam um grupo num shopping – o consumismo em questão.

Sabemos de onde vem esse fascínio pelos ressuscitados. Um pouco mais difícil é entender o que ele representa. Medo de quê? Da alienação? O trem de Sang-ho abarca toda a sociedade da Coreia do Sul. Os personagens viram representações sociais. Existem diferentes tipos de pais, de representações simbólicas da classe dominante. E existe uma imensa massa de manobra, que reage de maneira egoísta e, por isso, está condenada.

O estranhamento último de Invasão zumbi consiste em fazer o que nenhuma produção de Hollywood ousaria. No limite, o que Sang-ho conta são histórias de família. Há um personagem que concentra os defeitos de um comportamento típico da economia neoliberal. Dane-se a solidariedade, o grupo, é cada um por si. Bem no fim, há uma revelação que humaniza essa figura. O terror vira melodrama, de volta ao binômio pai/filha. É tão inesperado (disparatado?) que a plateia ri. Ridículo ou nervosismo? Talvez Invasão zumbi não seja tão grande quanto o Zack Snyder ou os melhores filmes de Romero, mas é muito bom. Boa parte do relato contrapõe gêneros humanos – a garota, a grávida, as idosas. Os jovens estudantes, o vagabundo, dois tipos de pais. A raridade é isso – um filme de terror, de zumbis, para refletir.

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