Aquarius estreia hoje nos cinemas, marcado pela polêmica em Cannes

Filme de Kleber Mendonça Filho chegas às salas brasileiras com a força de ser uma metáfora do momento político do país

por Carolina Braga 01/09/2016 08:00

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Victor Jucá/Divulgação
Com interpretação visceral de Sônia Braga, a escritora Clara luta contra a lógica gananciosa dos poderosos (foto: Victor Jucá/Divulgação)
Aquarius é um retrato contundente do nosso tempo. Próprias da arte, as metáforas lhes servem como artifícios sofisticados para reproduzir na ficção um presente doloroso, incômodo, misógino, racista, homofóbico e universal. Não é uma denúncia. São constatações sociais.

“É um filme sobre arquivo, amor e sobre defender um ponto de vista, o que, em uma sociedade tão dividida, se torna uma coisa dramática e com tons sombrios quando você diz não”, sintetiza o diretor Kleber Mendonça Filho. Se defender pontos de vista diferentes é ser democrático, Aquarius mostra como são curiosas as tentativas de desautorizar uma pessoa quando há discordância em relação ao que ela acredita e faz.

Quando o longa estreou em competição no Festival de Cannes, em maio, o Ministério da Cultura havia sido extinto pelo governo interino. A equipe de Aquarius denunciou ao mundo o que considerou um golpe em curso no Brasil. Agora, curiosamente na data da estreia, o Senado definiu o destino da presidente. “As pessoas têm tido uma reação quase estupefata sobre como o filme está sintonizado com questões que acontecem na sociedade brasileira”, conta.

Na ficção e na realidade, é a democracia que está em jogo. Dilma e Clara, personagem de Sônia Braga, têm muito em comum. É impossível dissociar o episódio real da história da valente escritora e jornalista pernambucana. Homens poderosos querem o espaço dela. Mas o apartamento do Edifício Aquarius é inegociável.

O último prédio de estilo antigo na Avenida Boa Viagem, em Recife, é alvo da especulação imobiliária. Clara resiste. Aquele não é simplesmente o lugar onde ela vive. É também o modo como ela se relaciona com o espaço e com os objetos. Aquarius deposita na materialidade a descrença na volatilidade do mundo de hoje. É uma obra que permite leituras em camadas.

Sônia Braga é um caso à parte em Aquarius. A força de Clara é dela. A última participação da atriz no cinema brasileiro foi em 2001, em Memórias póstumas de Brás Cubas, de André Klotzel. A produção não chega nem perto da força de filmes das décadas de 1970 e 1980 como Dona flor e seus dois maridos (1976), de Bruno Barreto, recordista de bilheteria na história do cinema brasileiro. Sem dizer das novelas.

 

 

Isso significa que há uma geração de cinéfilos para quem a imagem de Sônia Braga ainda é icônica. Não sabe o que ela é capaz de fazer hoje. Vai se surpreender. Sônia domina Clara de tal maneira que sua interpretação já vale o ingresso. Mas há também um elenco de rostos ainda desconhecidos, sintonizados com a proposta. Aquarius, que estreia em quatro salas em BH, tem estilo de interpretação bastante naturalista.

“Sônia demorou só 48 horas para responder ao nosso convite”, conta o diretor. Quando recebeu o sim, conectou o Skype e logo voou para Nova York. “Reagiu ao roteiro de maneira muito pessoal e passional”, relata o cineasta. Ele garante que tudo o que foi para a tela estava previsto no roteiro. A primeira versão ficou pronta em 2012 e Kléber afirma que foram poucos os ajustes desde então.

É por isso que não concorda quando associam Aquarius a um filme anti-Temer. “Não há nada disso. O que há é uma situação política que serve de parâmetro de comparação. As pessoas podem tirar as próprias conclusões”, defende. Sem praticar obviedade, distante de maniqueísmos, Aquarius abraça o Brasil de hoje.

Sintonia e coincidências
Quando o telefone tocou e a atriz Bárbara Colen recebeu a notícia de que tinha sido selecionada para o elenco de Aquarius, vibrou, mas tinha um problema. Ela estava com o casamento marcado para a data exata do início das filmagens. E tinha mais um detalhe: a cerimônia seria em Barcelona, a terra do noivo. “Acabou que eu me casei no sábado e na segunda peguei o avião para Recife”, lembra a mineira, de 30 anos.

Todo o processo foi surpreendente para atriz, formada pela Fundação Clóvis Salgado, na turma de 2012. Além de atriz, Bárbara é bacharel em direito e era servidora concursada do Ministério Público. Enquanto não decidia a carreira a seguir, experimentou possibilidades. Kleber Mendonça Filho queria no seu filme rostos de todas as partes do Brasil.

Bárbara fez o teste para outro personagem. No final do processo, pediram mais uma foto e propuseram, quem sabe, interpretar Clara, personagem de Sônia Braga, na juventude. “Ficou nisso. Depois de algumas semanas me ligaram perguntando se tinha disponibilidade de cortar o cabelo”, conta. Passou mais um tempo. Nesse ínterim, resolveu que Ministério Público não era mesmo seu negócio. Recebeu o sim para atuar em Aquarius uma semana depois.

Quando chegou ao set para começar a caracterização, viu Sônia Braga na sala de maquiagem. “Estava sentada e fiquei parada. Pensei: ‘O que eu faço agora?’”, recorda. Recebeu um superabraço da colega. “Desmanchou o climão ou qualquer coisa do tipo. Desde o início ela quis deixar muito claro que não precisava ficar sem graça com ela. Já começou a me contar várias coisas do set”, lembra Bárbara.

As duas atrizes não chegaram a contracenar. Ainda assim, a convivência entre elas se mostrou fundamental. O importante para Bárbara era captar a aura que Sônia daria a Clara. Viu algumas cenas já gravadas e trocou muita ideia com a atriz. “A Clara é muito solar e a Sônia também. É uma mulher que as pessoas querem estar perto.”

Não adiantava ver imagens de Sônia Braga mais jovem. Elas são fisicametne diferentes e isso não importava para a produção. O importante para Bárbara era trabalhar na mesma energia que a protagonista estabeleceu para a personagem. Precisou entender o vazio daquela mulher.

Para a intérprete de Clara nos anos 1980, Aquarius se encaixa como uma luva para o atual momento político brasileiro. “O que acontece na vida da Clara é uma metáfora do que está acontecendo com a Dilma. Neste momento, será impossível manter uma visão distanciada do filme”, opina. De fato, o longa de Kleber Mendonça Filho está imerso em temas políticos sem ser panfletário. “Leva você para a reflexão contando coisas muito sutis e trata de maneira afetiva.”

Atualmente, Bárbara Colen vive entre Belo Horizonte e Barcelona. Com o marido, Ferran Utzet, diretor de teatro, planeja uma montagem teatral em solo catalão baseada em cartas de Tchekóv. Em Minas, está no elenco de No coração do mundo, nova produção dos cineastas da Filmes de Plástico.

A indicação ao OSCAR

Aquarius entrará no circuito comercial brasileiro em cerca de 100 salas. Tem participações confirmadas em festivais internacionais: Toronto, Nova York, Londres e outros. Segundo Kleber Mendonça Filho, a repercussão no exterior revela a universalidade dos temas abordados. “Quando chega no Brasil, fica ainda mais forte porque o brasileiro está equipado para decodificar os mínimos detalhes”, diz. Protagonista da polêmica sobre a comissão formada pelo Ministério da Cultura para escolher nosso representante, o cineasta garante que não liga para prêmios. Quer, apenas, que o longa não seja impedido de chegar onde pode.

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