O burnout tem ganhado espaço nas conversas do dia a dia e nas pautas de profissionais da psicologia. Mudanças sociais, pressões no trabalho, demandas familiares e expectativas em relação ao desempenho, ao corpo e ao comportamento influenciam diretamente o bem-estar emocional das pessoas, que também são mais frequentemente identificadas em quadros de ansiedade, depressão e esgotamento profissional, segundo pesquisas recentes.
O que é burnout e por que essa expressão é utilizada?
A expressão burnout destaca como o contexto de vida e de trabalho influencia o esgotamento físico e emocional, especialmente ligado ao ambiente profissional e às múltiplas jornadas. Ela envolve a forma como cada pessoa lida com pressões e responsabilidades, relações no ambiente de trabalho, cobranças internas e externas e situações de crise ou mudanças importantes ao longo da vida.
Na prática, cuidar do burnout não se limita a identificar transtornos associados, como ansiedade ou depressão. Envolve promover autoconhecimento, fortalecer a autoestima, ampliar a percepção sobre limites pessoais, reconhecer sinais de exaustão antes que se tornem graves e facilitar o acesso à rede de apoio em diferentes fases da vida e da carreira.

Quais fatores costumam afetar o burnout e a saúde mental?
Diversos elementos contribuem para o estado emocional das pessoas, muitas vezes de forma combinada. Entre os mais comuns estão a sobrecarga de tarefas, jornadas extensas, desigualdade na divisão de responsabilidades domésticas, cobranças relacionadas à aparência física e metas profissionais pouco realistas.
Além disso, experiências de violência psicológica, sexual ou física, assédio moral e assédio no trabalho impactam diretamente a estrutura emocional, podendo gerar traumas, medo, culpa, vergonha, dificuldade de estabelecer limites e uma postura de constante alerta.
Alguns pontos costumam se destacar como fatores que exigem atenção especial na rotina e no histórico de vida das pessoas, especialmente quando se fala em burnout:
- Pressão social e padrões de comportamento: expectativas sobre como a pessoa deve agir, produzir e se relacionar, somadas à ideia de que é preciso “dar conta de tudo” sem demonstrar cansaço, muitas vezes alimentada por redes sociais e culturas de alta performance.
- Jornadas múltiplas: combinação de trabalho remunerado, cuidados com a casa e com outras pessoas, estudos e tarefas invisíveis de organização, que aumentam a sensação de sobrecarga e de falta de descanso real.
- Questões biológicas e ciclos da vida: alterações hormonais, envelhecimento, doenças crônicas e fases de transição profissional e pessoal, que interferem na energia, no humor e na tolerância ao estresse crônico.
- Falta de rede de apoio: isolamento e pouca ajuda prática e emocional no cotidiano, seja em casa ou no trabalho, dificultando pausas e descanso adequados.
Quando essas variáveis se acumulam, aumentam as chances de surgirem sintomas como irritabilidade, tristeza persistente, crises de ansiedade, sensação de “estar no limite”, cansaço intenso, perda de energia, sensação de ineficácia no trabalho, cinismo em relação às tarefas e alterações no sono ou no apetite.
Essas características são frequentemente associadas ao burnout. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a classificar o burnout como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico de trabalho. O vídeo abaixo da advogada Janaina Bastos, mostra como lidar com sua empresa legalmente quando se tem burnout.
Como identificar sinais de alerta de burnout e de abalo na saúde mental?
Os sinais de alerta na saúde emocional e no burnout podem be discretos no início, pois muitas pessoas seguem cumprindo tarefas mesmo em estado de exaustão. Por isso, é importante observar mudanças persistentes de humor, comportamento e energia que interfiram na rotina, no desempenho profissional ou nas relações.
- Tristeza constante, sensação de vazio e perda de motivação no trabalho por várias semanas.
- Crises de ansiedade, medo intenso ou sensação física de mal-estar diante de prazos, reuniões e demandas profissionais.
- Perda de interesse em atividades que antes geravam satisfação, tanto na vida pessoal quanto no trabalho.
- Irritabilidade frequente, explosões emocionais e conflitos recorrentes com colegas, familiares ou clientes.
- Dificuldade para dormir ou sono em excesso, com sensação de não descansar, além de alterações no apetite e no peso.
- Pensamentos de desvalorização, culpa excessiva, sensação de ineficiência ou de “nunca ser suficiente” no que faz.
Quando esses sinais persistem e começam a prejudicar a convivência familiar, o desempenho profissional ou o cuidado consigo, a recomendação é buscar auxílio profissional. Psicólogos e psiquiatras podem avaliar o quadro, investigar se há burnout ou outros transtornos associados, propor intervenções adequadas (como psicoterapia, mudanças de rotina e, eventualmente, medicação) e acompanhar a evolução de forma individualizada, respeitando a história, o contexto de trabalho e os limites de cada pessoa.
Como cuidar do burnout e da saúde mental no dia a dia?
O cuidado com o burnout e a saúde mental envolve ações individuais, mudanças no ambiente de trabalho e apoio externo, incluindo o reconhecimento de limites pessoais e a construção de uma rede de apoio confiável. Pequenas mudanças de rotina, quando mantidas com regularidade, podem reduzir a sobrecarga emocional, prevenir o esgotamento e favorecer o equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e descanso.
Algumas estratégias práticas ajudam a organizar o cotidiano, preservar energia emocional e criar espaços de descanso, sem associar todo momento livre à produtividade ou ao desempenho, o que é fundamental na prevenção e no manejo do burnout.
- Reconhecer limites: observar sinais de cansaço e queda de desempenho, aprender a dizer “não” a demandas que ultrapassam a capacidade de resposta e, quando possível, negociar metas, prazos e formas de trabalho mais sustentáveis.
- Organizar o tempo e as pausas: planejar tarefas essenciais, evitar acumular tudo no mesmo período e reservar momentos reais de descanso, inclusive com limites claros de horário de trabalho e de uso de dispositivos.
- Cuidar do corpo e das relações: priorizar sono, alimentação, atividade física e consultas médicas, ao mesmo tempo em que se fortalece o contato com pessoas de confiança para apoio emocional e, quando possível, divisão de tarefas.
- Buscar acompanhamento psicológico: utilizar a psicoterapia como espaço de escuta e construção de estratégias específicas para lidar com o burnout, incluindo manejo de estresse, redefinição de prioridades e, se necessário, planejamento de mudanças na carreira ou no ambiente de trabalho.
Outro ponto importante é o acesso a informação de qualidade sobre burnout e saúde mental, sem tabus ou julgamentos. Isso favorece a identificação precoce de problemas, rompe com a ideia de que sofrimento emocional ou exaustão no trabalho são sinal de fraqueza e incentiva mais pessoas a procurarem cuidado adequado em diferentes contextos, inclusive no ambiente profissional, por meio de políticas de bem-estar, prevenção em saúde mental, pausas e flexibilização de jornadas quando possível, prevenção ao assédio e canais seguros de denúncia, capacitação de lideranças para uma gestão mais humana e construção de uma cultura organizacional mais saudável, que reconheça limites e valorize o descanso.






