Quando o primeiro-ministro de Uttar Pradesh quis conhecê-lo em casa, Dr. Tapan Kumar Lahiri foi direto: “Se ele quer me ver, peça para vir ao meu ambulatório.” A resposta resume perfeitamente o caráter de um homem que, há 30 anos, trata pacientes pobres sem receber um centavo. Nascido em Calcutá e formado nos Estados Unidos, este cirurgião cardiotorácico de 84 anos escolheu uma vida de simplicidade radical na Universidade Hindu de Banaras. Desde 1994, ele doa todo seu salário aos necessitados e, mesmo aposentado, continua sua rotina diária: caminhada matinal até o hospital com uma sacola na mão e um guarda-chuva preto, pontual como um relógio suíço.
A trajetória de Dr. Lahiri começou de forma modesta, mas reveladora. Após completar sua formação médica nos Estados Unidos durante os anos 1970, ele retornou à Índia para aceitar um cargo de professor na Universidade Hindu de Banaras por apenas 250 rúpias mensais. Era um salário irrisório para alguém com suas qualificações internacionais, mas representava o início de uma filosofia de vida que o definiria para sempre.
A decisão de permanecer solteiro não foi casual. Dr. Lahiri escolheu conscientemente não se casar para dedicar-se integralmente ao atendimento de pacientes carentes. Enquanto colegas construíam carreiras lucrativas em hospitais privados, ele permaneceu fiel à sua missão na universidade pública, especializando-se em cirurgia cardiotorácica e formando centenas de médicos ao longo de décadas.
“Com a graça do Senhor Vishwanath e Maa Annapurna, continuarei servindo pacientes até meu último suspiro. Sou grato ao governo por me conceder o Padma Shri”, declarou após receber a quarta maior honraria civil da Índia em 2016.
A revolução silenciosa de 1994

O ano de 1994 marcou uma transformação radical na vida de Dr. Lahiri. Naquele momento, ele tomou uma decisão que poucos compreenderiam: começou a doar integralmente seu salário aos pacientes pobres. Na época, sua remuneração total, incluindo benefícios, ultrapassava 100.000 rúpias mensais – uma quantia considerável para os padrões indianos. Mesmo assim, ele escolheu viver apenas com o necessário para suas duas refeições diárias.
Essa atitude não passou despercebida pelos colegas e pela administração universitária. Dr. Lahiri havia encontrado uma forma única de praticar medicina social sem alarde ou propaganda. Simplesmente redirecionava seus recursos financeiros para quem mais precisava, enquanto continuava oferecendo seus serviços médicos gratuitamente. Era uma forma silenciosa, mas poderosa, de redistribuição de renda.
“Ele doa comida em cada momento de sua vida para os pacientes. Acredita que o karma o fez médico para que pudesse ajudar cada paciente necessitado”, observou um colega da universidade.
Durante esse período, Dr. Lahiri também recusou ofertas milionárias de hospitais americanos. Após sua aposentadoria em 2003, recebeu propostas para trabalhar em instituições de prestígio nos Estados Unidos, mas escolheu permanecer em Varanasi, continuando a servir os pacientes mais pobres da região.
A rotina imutável de um homem excepcional

Aos 84 anos, Dr. Lahiri mantém uma rotina que impressiona pela regularidade e simplicidade. Todos os dias, ele caminha de sua residência até o Hospital Sir Sunderlal da universidade, carregando apenas uma sacola e seu característico guarda-chuva preto. Sua pontualidade é tão precisa que as pessoas dizem não precisar de relógio quando o veem passar. Chega às seis da manhã e cumpre três horas de atendimento, retornando no período vespertino para mais plantão.
Ele não possui telefone celular, não tem ajuda doméstica e cozinha suas próprias refeições. Qualquer pessoa que queira encontrá-lo precisa ir até sua casa ou ao hospital – não há agendamento prévio ou protocolos especiais. Essa acessibilidade total reflete sua filosofia de que a medicina deve estar sempre disponível para quem precisa, independentemente de status social ou capacidade de pagamento.
“Se o ministro-chefe quer me encontrar, peça para ele vir ao meu ambulatório”, foi sua resposta quando autoridades tentaram marcar reuniões em locais mais convencionais para políticos.
O legado que transcende a medicina
Hoje, Dr. Lahiri é conhecido em Varanasi como uma figura quase divina. Para os pacientes pobres da região, ele representa esperança e dignidade em um sistema de saúde frequentemente inacessível. Sua abordagem desafia o modelo comercial predominante na medicina moderna, onde consultas especializadas custam fortunas e procedimentos cardíacos estão fora do alcance da população de baixa renda.
Mesmo aposentado, ele continua doando a maior parte de sua pensão para o fundo da universidade destinado a pacientes carentes. Vive com o mínimo necessário e mantém-se ativo no treinamento de novos médicos, transmitindo não apenas conhecimento técnico, mas também valores humanitários que parecem cada vez mais raros na profissão.
A história de Dr. Tapan Kumar Lahiri representa um modelo alternativo de sucesso profissional, onde a realização pessoal não se mede por acúmulo de riqueza, mas pelo impacto positivo na vida de outros. Em uma era onde a medicina se torna progressivamente comercializada, sua trajetória oferece inspiração para profissionais de saúde em todo o mundo. Ele prova que é possível manter excelência técnica e integridade ética, mesmo rejeitando as tentações materiais que a profissão oferece. Para milhares de pacientes cujos corações continuam batendo graças aos seus cuidados, Dr. Lahiri não é apenas um médico – é um lembrete vivo de que a verdadeira medicina sempre será, antes de tudo, um ato de compaixão.






