No alto da Serra das Letras, no sul de Minas Gerais, São Thomé das Letras repousa sobre um maciço de quartzito que forma ruas, casas e igrejas. A cidade de cerca de 7 mil moradores recebe mais de 500 mil visitantes por ano, atraídos pelas inscrições rupestres, lendas de portais dimensionais e um pôr do sol que vira ritual coletivo.
A lenda do escravo que deu nome à cidade de pedra
A história oficial e a lenda se misturam na fundação do povoado. Segundo registros do portal da Câmara Municipal, no fim do século 18, o escravizado João Antão fugiu da fazenda Campo Alegre, do capitão João Francisco Junqueira, e se refugiou em uma gruta no alto da serra.
A tradição oral conta que ali apareceu um homem de vestes brancas, que entregou ao fugitivo uma carta perfeitamente escrita destinada ao seu antigo dono. Junqueira recebeu a mensagem, foi até a gruta e encontrou apenas uma imagem do apóstolo São Tomé. João Antão recebeu a alforria e o capitão mandou erguer uma capela ao lado da caverna.
Em 23 de março de 1770, uma provisão do bispado de Mariana autorizou a construção da ermida. A Igreja Matriz que está hoje no centro começou a ser erguida em 1785, com pinturas atribuídas ao artista colonial Joaquim José da Natividade, discípulo de Aleijadinho. O município só foi emancipado em 30 de dezembro de 1962, ratificado em 1966, com desmembramento de Baependi.

Por que a cidade entrou na lista dos sete pontos energéticos da Terra?
A resposta passa pela geologia. São Thomé das Letras foi erguida sobre um maciço de quartzito branco, mineral conhecido por funcionar como condutor natural de campo magnético. Esse detalhe alimentou, desde os anos 1980, a fama esotérica que coloca a cidade no folclore dos sete pontos energéticos do planeta, ao lado de Machu Picchu e Stonehenge.
A coleção de lendas também ajuda. A Gruta do Carimbado, fechada para visitação desde 2012, é apontada como entrada de um suposto túnel inca de 3 mil km até o Peru. A Ladeira do Amendoim virou atração nacional porque carros em ponto morto parecem subir o aclive sozinhos. Cientistas falam em ilusão de óptica, místicos defendem ação magnética das pedras.
O misticismo se traduz no urbanismo, segundo a Prefeitura Municipal de São Thomé das Letras. As caixas d’água da cidade foram pintadas como discos voadores, em referência aos relatos ufológicos que se concentraram na região nas décadas de 1980 e 1990.

O que fazer na cidade mais mística do Brasil
O centro histórico é compacto e cabe em uma manhã, mas as atrações ao redor pedem ao menos três dias. Entre os pontos turísticos mais procurados, vale incluir no roteiro:
- Casa da Pirâmide: erguida nos anos 1980 pelo morador Cezar Augusto Bezane, é o mirante mais disputado para o pôr do sol, com vista aberta da Serra da Mantiqueira.
- Gruta de São Thomé: ao lado da Igreja Matriz, abriga as inscrições rupestres em pigmento avermelhado atribuídas aos indígenas Cataguases.
- Igreja de Pedra (Nossa Senhora do Rosário): construção iniciada em 1833, erguida apenas com encaixe de pedras, sem argamassa, e tombada pelo IEPHA em 1985.
- Pedra da Bruxa: formação rochosa que lembra o perfil de uma feiticeira, com vista 360 graus da cidade e dos vales.
- Ladeira do Amendoim: estrada de terra onde a gravidade parece funcionar ao contrário, com fenômeno que mistura ciência e folclore.
- Cachoeira do Vale das Borboletas: trilha curta de 120 metros que leva a poço cristalino visitado por nuvens de borboletas em certas épocas do ano.
Quando o assunto é gastronomia, a cidade aposta na cozinha mineira tradicional servida em casas de pedra com clima de bistrô alternativo. Entre os pratos e endereços lembrados pelos visitantes, destacam-se:
- Picanha na pedra: especialidade do Restaurante das Magas, servida em pedra de quartzito aquecida que termina o cozimento na mesa.
- Comida mineira a quilo: o Restaurante da Sinhá é endereço tradicional para experimentar tutu, frango com quiabo e couve no almoço.
- Pratos de raiz autoral: O Alquimista combina receitas da cozinha mineira clássica com toque contemporâneo em casarão de pedra no centro.
- Cerveja artesanal e rock: o Alcazar Rock Bar funciona dentro de um castelo de pedra, com programação de blues e rock à noite.
Quer um roteiro de 4 dias em São Thomé das Letras (MG), a cidade mística, com dicas do que fazer e onde se hospedar? Vai curtir esse vídeo do canal Rolê Família:
Quando ir e o que fazer em São Thomé das Letras em cada estação
A 1.440 metros de altitude, a cidade tem clima ameno o ano inteiro e noites frescas mesmo no verão. O período seco, de abril a setembro, é o melhor para trilhas e cachoeiras com céu aberto. O verão chuvoso enche as quedas d’água, mas exige cuidado em grutas pelo risco de tromba.
As fortes chuvas enchem as cachoeiras. Curta o fim de tarde na Pirâmide, mas evite explorar as grutas na região devido ao alto risco de tromba d’água.
O período ideal para atividades na natureza se inicia. O clima ameno e o céu aberto favorecem as trilhas e a exploração segura dos roteiros pelas grutas.
Madrugadas frias marcam a serra. Explore as pedras do rústico centro histórico de dia e aqueça-se nas noites estreladas pelos bares com lareira.
As chuvas retornam de forma moderada. Aproveite o clima agradável de transição para visitar e relaxar na famosa Cachoeira do Vale das Borboletas.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Cidade de Pedra
O acesso principal é pela rodovia MG-167, depois de passar por Três Corações. As últimas dezenas de quilômetros têm curvas sinuosas que serpenteiam a montanha, então motoristas de primeira viagem devem ir com calma e sempre de dia.
De Belo Horizonte, são cerca de 4h30 de carro, com cerca de 360 km. De São Paulo, o trajeto fica em torno de 5 horas e 380 km, subindo a Serra da Mantiqueira pela Fernão Dias. O aeroporto regional mais próximo é o de Varginha, a 1h15 da cidade.
Vale a viagem para desafiar a lógica
A cidade de pedra reúne em poucos quarteirões inscrições rupestres milenares, igrejas barrocas em quartzito, lendas que confundem ciência e folclore e um pôr do sol que parou de ser apenas paisagem para virar ritual. Poucos destinos do interior brasileiro entregam essa combinação tão genuína.
Você precisa subir até São Thomé das Letras e ver com os próprios olhos por que tantos viajantes voltam de lá com mais perguntas do que respostas.




