Toronto, São Petersburgo, Pequim e Nova Veneza. A lista das únicas cidades do mundo presenteadas com uma gôndola oficial pelo governo do Vêneto coloca uma vila de 14 mil habitantes do sul de Santa Catarina ao lado de três metrópoles, e o motivo está no DNA italiano que pulsa nas ruas dessa Capital Nacional da Gastronomia Típica Italiana.
O começo da Itália Brasileira em 1891
A história começou quando cerca de 400 famílias do norte da Itália, principalmente da região do Vêneto, fundaram a Colônia Nuova Venezia em terras catarinenses cobertas de Mata Atlântica e pedras. Segundo o Portal Veneza, ela foi a primeira colônia do Brasil República, idealizada como projeto-modelo de povoamento sob a Lei de Glicério.
Mais de 130 anos depois, a herança não se diluiu. A relatoria do projeto que tornou a cidade Capital Nacional da Gastronomia, segundo registros do Senado Federal, aponta que 95% dos moradores são descendentes diretos daqueles imigrantes. O dialeto vêneto ainda é ouvido entre os mais velhos e o italiano é disciplina nas escolas municipais.

A gôndola Lucille e o seleto clube de quatro cidades
No centro da praça Humberto Bortoluzzi repousa a curiosidade que mais surpreende o visitante. De acordo com o Portal Visite Nova Veneza, existem apenas quatro gôndolas doadas oficialmente pelo governo de Veneza, na Itália, espalhadas pelo mundo.
A Lucille chegou em 2006, dentro de um contêiner pelo porto de Itajaí. É 100% artesanal, fabricada em um estaleiro com mais de 700 anos de história, e navegou pelos canais venezianos antes de cruzar o Atlântico. Hoje flutua em um lago artificial e pode ser visitada de graça, com gondoleiros vestidos a caráter recebendo turistas para fotos.
Reconhecimento que veio de Roma a Brasília
O selo gastronômico não é metáfora. Conforme a Agência ALESC, a Lei Federal 13.678, sancionada em 13 de junho de 2018 a partir de projeto da deputada Geovânia de Sá, fez de Nova Veneza a Capital Nacional da Gastronomia Típica Italiana. A cidade já carregava o título estadual desde 2015, pela Lei 12.789.
O reconhecimento internacional aparece em dois marcos. O primeiro é a própria gôndola, símbolo do laço diplomático com o Vêneto. O segundo é o Carnevale di Venezia, considerado pela administração municipal o maior evento desse gênero fora da Itália, com mais de 500 personagens fantasiados em desfile pelas ruas da vila.
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O que fazer em Nova Veneza
A cidade é pequena, e isso é parte do charme. A maioria dos atrativos do centro fica a uma caminhada de distância. Esses são os pontos imperdíveis:
- Gôndola Lucille: a embarcação original veneziana flutua na praça central. Visita gratuita, das 9h às 22h, segundo a Prefeitura de Nova Veneza.
- Casas de Pedra Nono Luigi Bratti: único conjunto de casas em taipa de pedra da América Latina, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 2011.
- Igreja Matriz São Marcos: construída em 1912, com sinos e relógio importados de Turim, escultura em bronze do Leão de São Marcos doada pelo Vêneto e pinturas no teto feitas pelo italiano Pedro Cechetto.
- Pórtico de Entrada: erguido em pedra basalto, ostenta um Leão de São Marcos em bronze de 400 kg vindo do Vêneto, além de caldeirões em homenagem à polenta.
- Rua Coberta e Ponte dei Morosi: a primeira é uma extensão da praça principal, com teto de vidro e vitrais; a segunda é a passarela dos cadeados de amor sobre o Rio Mãe Luzia.
- Vinícola Borgo: produz vinhos artesanais dentro de um pequeno castelo de pedra cercado por arrozais, tradição familiar de seis gerações.
- Santuário Nossa Senhora de Caravaggio: ponto de peregrinação que recebe cerca de 70 mil fiéis na romaria anual de maio, segundo guias locais.
A gastronomia é a razão principal pela qual muitos turistas atravessam o estado. Nas mesas, a polenta divide espaço com receitas que atravessaram o oceano e foram passadas de geração em geração:
- Polenta brustolada com galeto: a combinação que define a cozinha local, servida nos restaurantes da rota gastronômica e nos jantares da Festa da Gastronomia.
- Fortaia: prato típico vêneto à base de ovos batidos com queijo e ervas, comum nas casas tradicionais.
- Massas artesanais: nhoque, capeletti e tagliatelle servidos com molhos caseiros nos mais de 20 estandes da festa anual.
- Minestra: sopa rústica de feijão e massa que era o prato de inverno dos primeiros colonos.
- Vinhos coloniais: produzidos pelas vinícolas locais como Borgo e Savoia, ainda no estilo trazido pelos imigrantes.
Quem sonha em viver uma experiência italiana no Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Beatriz Fontana, que conta com mais de 9 mil visualizações, onde Beatriz Fontana mostra um roteiro de um dia com gastronomia e pontos turísticos em Nova Veneza, Santa Catarina:
Quando o clima favorece cada experiência
A vila fica nas encostas da Serra Geral e tem clima subtropical com estações bem definidas. O frio do inverno coincide com a maior festa do ano, mas cada época tem sua vocação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Junho é o mês mais procurado, quando a Festa da Gastronomia Típica Italiana e o Carnevale di Venezia tomam a cidade. A 19ª edição, em 2025, atraiu cerca de 200 mil visitantes, segundo a Prefeitura.
Como chegar à vila italiana de Santa Catarina
Nova Veneza fica a 18 km do centro de Criciúma, a 224 km de Florianópolis e a cerca de 290 km de Porto Alegre. De acordo com o Portal Veneza, o acesso principal é pela BR-101, com entrada por Içara, Criciúma ou Forquilhinha.
O aeroporto mais próximo é o Humberto Ghizzo Bortoluzzi, em Jaguaruna, a 69 km. Pela maior oferta de voos, muitos viajantes preferem desembarcar em Florianópolis e seguir por estrada, em cerca de 2h30 de carro pela mesma BR-101.
Vá conhecer a Itália que cabe no sul de Santa Catarina
Nova Veneza prova que dá para preservar a cultura de um povo sem virar parque temático. A herança italiana segue na mesa, no dialeto, na pedra das casas centenárias e na gôndola que cruzou o Atlântico para lembrar de onde veio aquela gente toda.
Você precisa entrar na Lucille, jantar uma fortaia em junho e entender por que essa pequena vila catarinense é o pedaço de Itália mais autêntico do Brasil.






