No leste do Tocantins, a 300 km da capital Palmas, o município de Mateiros guarda nascentes onde é fisicamente impossível afundar. A região do Jalapão ficou conhecida no Brasil inteiro quando virou pano de fundo da novela das nove da TV Globo em 2017.
A física por trás dos fervedouros onde não se afunda
O fenômeno se chama ressurgência. A água brota do lençol freático com pressão tão intensa que atravessa uma camada de areia fina no fundo do poço e cria uma espécie de colchão líquido contínuo, que empurra qualquer corpo para a superfície. Não importa o peso do banhista: a força do fluxo vindo do solo impede a flutuação de ser quebrada.
As nascentes são alimentadas pelo Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país. Apesar do nome que remete a calor, a água é fria e cristalina, com tons que variam do azul intenso ao esverdeado. Cada fervedouro tem profundidade, temperatura e força de flutuação próprias, e os mais conhecidos estão cercados por buritis, bananeiras e vegetação nativa do Cerrado.

Uma novela transformou Mateiros em rota turística nacional
A novela O Outro Lado do Paraíso, escrita por Walcyr Carrasco e exibida em 2017 e 2018, teve parte das gravações feitas em Mateiros, Ponte Alta do Tocantins, São Félix do Tocantins e nas comunidades quilombolas de Mumbuca e Prata. Os diretores conheceram a região em agosto de 2017 e escolheram o Jalapão como cenário principal da trama, segundo registros do Governo do Tocantins.
Depois da exibição nacional, a procura pela região disparou. Em 2023, as dunas e a Serra do Espírito Santo receberam quase 54 mil visitantes, de acordo com balanços do Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), autarquia responsável pela gestão das áreas protegidas. O vilarejo passou de ponto remoto a destino cobiçado por viajantes em busca de road trip com 4×4, ainda que o acesso continue rústico.

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Os fervedouros mais procurados do Jalapão
Mateiros concentra a maior parte das nascentes abertas à visitação. Os acessos são controlados pelas comunidades locais, que limitam o tempo e a quantidade de banhistas para preservar a estrutura do solo.
- Fervedouro Bela Vista: o maior e mais famoso da região, com água azul intensa e cerca de 15 metros de diâmetro.
- Fervedouro do Ceiça: um dos mais visitados de Mateiros, com estrutura comunitária simples e forte pressão de água.
- Fervedouro do Buritizinho: cercado por buritis altos que criam um efeito cênico no reflexo da água.
- Fervedouro do Encontro das Águas: localizado entre Mateiros e São Félix, com fundo arenoso em movimento constante.
- Fervedouro do Sussu: opção mais tranquila, com capacidade reduzida e trilha curta até a nascente.
Dunas alaranjadas no coração do Cerrado
Além dos fervedouros, Mateiros abriga as dunas que viraram cartão-postal do Tocantins. A areia de quartzo com tom alaranjado se formou pela erosão milenar das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo, criando um cenário raro dentro do Cerrado. O pôr do sol no topo é a cena mais fotografada da região.
O Parque Estadual do Jalapão, criado em 12 de janeiro de 2001 pelo Governo do Tocantins, tem cerca de 158 mil hectares concentrados em Mateiros. A unidade integra um mosaico de conservação com a Área de Proteção Ambiental (APA) do Jalapão e a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, formando o maior trecho contínuo de Cerrado preservado do Brasil, segundo o Naturatins. A fauna local abriga espécies ameaçadas como o pato-mergulhão.
Quem planeja uma aventura inesquecível pelo Tocantins, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 756 mil visualizações, onde Guilherme e Paula apresentam um guia completo de 5 dias pelo Jalapão:
Quando ir ao deserto de águas do Tocantins
Faz calor o ano inteiro em Mateiros, mas a divisão entre seca e chuva muda completamente a experiência da viagem. A estação seca é a janela ideal para rodar pelas estradas de terra.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao sonho de road trip do Brasil
A porta de entrada é o Aeroporto Brigadeiro Lysias Rodrigues, em Palmas, que recebe voos diretos de Brasília, São Paulo e Goiânia. De lá, são cerca de 300 km até Mateiros pelas rodovias TO-050 e TO-255. O trecho asfaltado vai até Ponte Alta do Tocantins, com 135 km, e depois seguem 165 km de estrada de terra que exigem veículo 4×4. A viagem leva de cinco a seis horas e é quase sempre feita com guias ou operadoras credenciadas, que conhecem os cruzamentos de rios e as armadilhas do solo arenoso. Entre os fervedouros azulados, as dunas cor de ferrugem e o silêncio quebrado pelos buritis, Mateiros ficou no imaginário de quem assistiu à novela e decidiu colocar o Jalapão no próximo roteiro.






