A 1.300 quilômetros da costa, em plena mata amazônica, os magnatas da borracha levantaram uma cidade calçada com paralelepípedos vindos de Portugal e iluminada por energia elétrica. Entre 1890 e 1912, Manaus foi a chamada Paris dos Trópicos, figurando entre as capitais mais abastadas do mundo, onde o requinte chegava ao ponto de enviar roupas utilizadas para serem higienizadas em Londres.
Como a borracha transformou um forte militar em capital europeia?
A trajetória tem início em 1669, quando os colonizadores lusitanos edificaram o Forte São José da Barra do Rio Negro com o propósito de assegurar o controle daquela porção do território. A denominação Manaus deriva do povo manaós e, no idioma nativo, quer dizer Mãe dos Deuses. O pequeno assentamento progrediu lentamente ao longo de duzentos anos, sem sinal de opulência.
O panorama se alterou radicalmente no crepúsculo do século XIX. O globo industrializado passou a necessitar de pneumáticos, cabos elétricos e revestimentos isolantes feitos de borracha. A região amazônica detinha a hegemonia do comércio mundial de látex, e Manaus viu chegar estrangeiros dos mais variados cantos: britânicos, franceses, helenos, italianos e brasileiros oriundos de outras províncias.
A contar de 1892, o então governador Eduardo Ribeiro concebeu um ousado desenho para a urbe. A cidade recebeu linhas de bonde movidas a eletricidade, rede telefônica, abastecimento de água encanada e um ancoradouro flutuante apto a recepcionar embarcações de múltiplas nacionalidades. Já em 1896, Manaus dispunha de um sistema elétrico abrangendo todos os seus bairros. O IPHAN documenta que o Centro Histórico, protegido por tombamento desde 2012, ainda conserva as feições arquitetônicas daquela fase.

A casa de espetáculos que consumiu uma riqueza e por pouco não se desfez em destroços
O Teatro Amazonas é o símbolo máximo da Belle Époque manauara. A obra começou em 1884 e a inauguração aconteceu em 31 de dezembro de 1896. Mármore de Carrara, vidro de Murano, móveis da França e telhas da Alsácia compõem a estrutura.
A cortina do proscênio, executada pelo artista pernambucano Crispim do Amaral no ano de 1894, ilustra a confluência das águas do Rio Negro com as do Solimões. No interior do salão de honra, as colunas imitam o aspecto de seringueiras, enquanto a pintura aplicada ao forro presta tributo às Belas Artes no contexto amazônico.
O teatro foi o primeiro bem cultural de Manaus a receber a chancela do IPHAN, fato ocorrido em 1966. Atravessou um período de descaso nos anos 1980, quando o palco era utilizado para solenidades de colação de grau e diversos elementos sofriam vandalismo. Recuperado em 1990, reabriu suas portas para receber montagens líricas e concertos. Atualmente, em conjunto com o Theatro da Paz de Belém, figura na lista de postulantes ao título de Patrimônio Mundial concedido pela UNESCO. A ambientação serviu de mote para o longa-metragem Fitzcarraldo (1982), do cineasta alemão Werner Herzog, cujas filmagens incluíram cenas captadas no interior do próprio salão nobre.

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O que visitar na maior cidade da floresta tropical do planeta?
A Paris dos Trópicos se reinventou. Com mais de 2 milhões de habitantes e a Zona Franca sustentando a economia desde 1967, Manaus mistura herança da borracha com experiências amazônicas. Os principais atrativos combinam história e natureza:
- Centro Histórico: conjunto tombado pelo IPHAN entre a orla do Rio Negro e o entorno do Teatro Amazonas. Casarões ecléticos, o Largo de São Sebastião (com calçada de pedras portuguesas de 1901, anterior à de Copacabana) e o Palácio Rio Negro.
- Mercado Municipal Adolpho Lisboa: inspirado no Les Halles de Paris, inaugurado em 1882 e tombado pelo IPHAN em 1987. Local para comprar pirarucu salgado, castanhas e artesanato indígena.
- Encontro das Águas: fenômeno onde o Rio Negro (escuro) e o Solimões (barrento) correm lado a lado por quilômetros sem se misturar. Acessível por barco a partir do porto.
- Museu do Seringal: reprodução de um seringal do ciclo da borracha, com a casa do barão e as habitações dos seringueiros. Mostra a extração tradicional de látex.
- INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia): um dos centros de biodiversidade mais respeitados do mundo. Recebe visitantes em trilhas e viveiros.
Quem deseja explorar a Paris dos trópicos, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 102 mil visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram um roteiro completo por Manaus, incluindo o Teatro Amazonas e a Floresta Amazônica:
Conheça a cidade que ousou ser Paris dentro da floresta
Manaus é a concretização de um sonho que parecia impossível. Uma metrópole abraçada pela vegetação densa, desconectada das demais regiões do país por rodovias, que ostenta um teatro lírico erguido com materiais nobres do Velho Mundo e uma praça de comércio cujo risco remete à capital francesa. O apogeu da borracha se encerrou, mas a localidade que ele fez nascer permanece de pé, amparada pela atividade fabril e pela determinação de quem optou por residir no âmago da maior floresta tropical do globo.
É imprescindível que você se coloque no Largo de São Sebastião ao cair da tarde, instante em que a luminosidade dourada incide sobre a abóbada do Teatro Amazonas e o aroma característico do tacacá emana das tendas ali instaladas. Só assim se compreende como uma concepção aparentemente descabida se metamorfoseou na mais populosa cidade em meio à selva equatorial do planeta.






