No leste do Tocantins, mais de 20 nascentes de águas cristalinas brotam da areia com tanta pressão que impedem qualquer corpo de afundar. Esse fenômeno, chamado ressurgência, existe apenas no Jalapão, uma região de 34 mil km² de cerrado preservado que esconde rios azul-turquesa, dunas alaranjadas e comunidades quilombolas que transformam capim em ouro.
Por que é impossível afundar nos fervedouros
Os fervedouros são nascentes de rios subterrâneos alimentados pelo Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país, com cerca de 142 mil km² de extensão. A água jorra do lençol freático com pressão tão intensa que atravessa uma camada de areia fina e empurra qualquer pessoa para a superfície. A sensação é flutuar sem esforço, como se a água recusasse deixar o visitante descer.
Apesar do nome sugerir calor, a água dos fervedouros é fria. Cada nascente tem cor, profundidade e intensidade de flutuação diferentes. O Fervedouro Bela Vista, por exemplo, tem 15 metros de diâmetro e água de um azul intenso. Já o Fervedouro do Encontro das Águas cabe apenas quatro pessoas por vez, mas possui a pressão mais forte da região. O fenômeno de ressurgência com flutuação, até hoje, não foi registrado em nenhum outro lugar do mundo, segundo especialistas e fontes de turismo consultadas pelo Governo do Tocantins.

O deserto que abastece três grandes bacias hidrográficas
O Jalapão tem fama de paisagem árida, mas o subsolo conta outra história. A região abriga nascentes de afluentes de três das maiores bacias hidrográficas do Brasil: Tocantins, Parnaíba e São Francisco. Essa riqueza hídrica vem do Aquífero Urucuia, que se estende por seis estados e alimenta praticamente todos os afluentes da margem direita do Rio Tocantins, segundo a Secretaria de Meio Ambiente do Tocantins.
O Mosaico do Jalapão, reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) em 2016, reúne nove unidades de conservação e soma cerca de três milhões de hectares. Dentro desse conjunto está o Parque Estadual do Jalapão (PEJ), criado em 2001 pela Lei Estadual nº 1.203, com aproximadamente 159 mil hectares. O parque abriga mais de 400 espécies catalogadas, incluindo animais ameaçados como o pato-mergulhão e o lobo-guará. Em 2008, a rede americana CBS escolheu a região para gravar a 18ª temporada do reality show Survivor, exibida em 2009 e vista por milhões de espectadores nos Estados Unidos.

Capim que vira ouro nas mãos de quilombolas
Na comunidade quilombola de Mumbuca, em Mateiros, o artesanato de capim dourado existe desde a década de 1920. A planta Syngonanthus nitens, endêmica do cerrado do Jalapão, tem brilho natural e cor dourada. Os artesãos a transformam em pulseiras, bolsas, brincos e peças de decoração vendidas no Brasil e no exterior.
O reconhecimento veio em escala federal. A Lei 15.005/2024 declarou o artesanato em capim dourado como manifestação da cultura nacional, e a Lei 15.050/2024 concedeu a Mateiros o título de Capital Nacional do Capim Dourado. A colheita das hastes só é permitida entre 20 de setembro e 20 de novembro, e o material não pode sair da região in natura, apenas em peças já produzidas pelas comunidades locais.
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O que fazer na região dos fervedouros
Os roteiros pelo Jalapão duram de 4 a 6 dias e combinam fervedouros, cachoeiras, dunas e formações rochosas. A maioria dos atrativos fica entre os municípios de Mateiros e São Félix do Tocantins. A região exige veículo 4×4 e, na maior parte dos casos, acompanhamento de guia ou agência. Estas são as atrações que merecem lugar no roteiro:
- Fervedouro Bela Vista: considerado o mais bonito da região, com água azul intensa e 15 metros de diâmetro. Tem pousada e boa infraestrutura no local.
- Fervedouro do Ceiça: primeiro a ser aberto ao público, cercado por bananeiras e com água transparente. Flutuação forte e cenário fotogênico.
- Cachoeira do Formiga: nascente de água verde-esmeralda com queda pequena e poço cristalino em Mateiros. Funciona como uma hidromassagem natural.
- Dunas do Jalapão: formadas pela erosão da Serra do Espírito Santo, com areia de quartzo alaranjada. O pôr do sol no topo é o cartão-postal mais fotografado do Tocantins.
- Cachoeira da Velha: a maior da região, com 100 metros de largura no Rio Novo. Banho proibido pela força da água, mas o rafting leva até os pés da queda.
- Pedra Furada: formação de arenito esculpida pelo vento a 35 km de Ponte Alta do Tocantins. Melhor visitada ao pôr do sol.
Quem busca o roteiro perfeito para o Jalapão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 691 mil visualizações, onde Luiza e Samir mostram um guia completo de 5 dias pelas dunas e fervedouros do Tocantins:
Quando visitar e o que aproveitar em cada época
O clima do Jalapão é marcado por duas estações bem definidas. A seca, entre maio e setembro, oferece estradas mais transitáveis e águas ainda mais cristalinas nos fervedouros. Já a estação chuvosa, de outubro a abril, transforma a paisagem em tons verdes, mas dificulta o acesso por terra. Confira a variação ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao coração do cerrado tocantinense
O ponto de partida é Palmas, capital do Tocantins, que recebe voos de Brasília, São Paulo e Goiânia. De lá, são cerca de 180 km de asfalto pelas rodovias TO-050 e TO-255 até Ponte Alta do Tocantins. A partir daí, começam os 165 km de estrada de terra até Mateiros. Veículo 4×4 é indispensável. A maioria dos visitantes contrata expedições com agências que incluem transporte, hospedagem e guia, em roteiros de 4 a 6 dias saindo de Palmas.
Um convite para flutuar no improvável
O Jalapão reúne o que parece impossível: dunas no meio do cerrado, nascentes onde ninguém afunda e comunidades que transformam uma planta dourada em arte reconhecida por lei federal. São 25 anos de parque estadual, mais de 50 mil visitantes em 2025 e um ecossistema que alimenta três das maiores bacias do Brasil.
Você precisa sentir a água dos fervedouros empurrando seu corpo para cima, ver o sol pintar as dunas de laranja e entender por que o Jalapão é chamado de deserto das águas.






