No meio de um dia de sol escaldante, um cachorro foi deixado acorrentado, sem água e sem qualquer cuidado. Horas depois, ele não resistiu. A frase da tutora — “Achei que ele ia aguentar” — virou símbolo de um problema muito maior: quando o descuido com um animal deixa de ser “falta de informação” e passa a ser crime. Esse caso, que ganhou força nas redes sociais, mostra como atitudes vistas como “normais” ainda hoje podem ser enquadradas como maus-tratos pela legislação brasileira.
O que diz a Lei de Crimes Ambientais sobre maus-tratos a animais
A Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/1998), no Artigo 32, considera crime praticar abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais, sejam silvestres, domésticos ou domesticados. Isso vale tanto para agressões diretas, como bater ou chutar, quanto para omissões, como deixar sem água, comida, abrigo ou expor a calor ou frio extremos.
Na prática, quem tem um animal assume o dever de garantir o básico para sua sobrevivência e bem-estar. Quando o animal morre em razão desses maus-tratos, a pena pode ser aumentada. Alterações recentes endureceram as punições contra quem maltrata cães e gatos, e muitos estados e municípios criaram normas próprias para reforçar essa proteção.

A frase achei que ele ia aguentar pode ser usada como desculpa
Em muitos casos de maus-tratos, tutores alegam que “não sabiam” ou que “não fizeram por mal”. Porém, do ponto de vista jurídico, a falta de intenção raramente afasta a responsabilidade quando há descuido evidente. Deixar um cachorro acorrentado sob sol forte, sem água e sem abrigo, é um exemplo claro de maus-tratos por omissão.
Autoridades costumam analisar a intensidade do sofrimento, o tempo de exposição, os riscos previsíveis e o resultado final. Quando o desfecho é a morte do animal, como no caso do cão que não resistiu ao calor, a conduta tende a ser tratada na forma mais grave do crime, com investigação policial, processo e possível condenação.
Como evitar que mortes de animais por descuido continuem acontecendo
Para que histórias como essa não se repitam, é preciso unir informação, responsabilidade e, quando necessário, fiscalização. Cuidar de um cão não é só dar ração: é garantir água fresca, abrigo do sol e da chuva, espaço para se movimentar, atendimento veterinário e segurança em situações de risco previsível, como ondas de calor.

Alguns cuidados simples do dia a dia reduzem muito as chances de sofrimento, mesmo quando o tutor não tem intenção de fazer mal. Entre os pontos básicos que merecem atenção constante, estão:
- Água fresca e constante: manter potes limpos, cheios e em local protegido do sol.
- Sombra e abrigo: oferecer área coberta, ventilada e com piso que não queime as patas.
- Evitar correntes curtas: não prender o animal de forma que limite o movimento ou impeça o acesso à água e sombra.
- Cuidado extra em dias muito quentes: observar sinais de cansaço extremo, respiração ofegante intensa e língua muito seca.
- Planejamento em viagens: deixar o animal com alguém responsável ou em hospedagem adequada.
Quais sinais mostram que um cachorro pode estar sofrendo maus-tratos
Aprender a reconhecer sinais de sofrimento em um cachorro pode salvar vidas. Em dias de calor forte e falta de água, o animal pode ficar ofegante demais, apático, ter dificuldade para levantar e até desmaiar. Ficar preso em correntes curtas, isolado por longos períodos e sem sombra também é um alerta de risco.
Outros indícios frequentes de maus-tratos incluem magreza extrema, ossos aparentes, pelo sujo ou cheio de nós, feridas sem cuidados, coleiras ou correntes machucando o pescoço e ausência de água limpa e abrigo. Diante desses sinais, qualquer pessoa pode e deve denunciar. Em muitos municípios, há telefones específicos, ouvidorias digitais e canais ligados às prefeituras, polícias ambientais e Ministérios Públicos. A Lei 9.605/1998, especialmente o Art. 32, garante base legal para investigação e punição, reforçando que “achei que ele ia aguentar” não é desculpa para deixar de cuidar de um animal.






