A maioria dos brasileiros vive em cidades onde só 66% das ruas têm árvores. Maringá, Campo Grande e Londrina passam de 90% e foram reconhecidas pela Organização das Nações Unidas como referências mundiais em verde urbano. Nenhuma das três é capital de estado do Sul ou do Sudeste.
O que uma árvore na calçada tem a ver com qualidade de vida?
Mais do que parece. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 34% dos brasileiros vivem em ruas sem nenhuma árvore. Quem mora nessas ruas sente na pele: ruas bem arborizadas têm temperaturas até 8°C mais baixas no mesmo dia de sol. Os benefícios vão além disso:
- Ar mais limpo: as árvores absorvem poeira e poluentes do tráfego
- Menos doenças respiratórias: especialmente em crianças e idosos
- Mais vida na rua: calçadas sombreadas convidam a caminhar e conviver
- Imóveis mais valorizados: bairros verdes atraem mais moradores
- Bem-estar mental: contato com a natureza reduz estresse e ansiedade
As três cidades deste artigo ficam no extremo oposto do problema: 9 em cada 10 ruas têm árvores. Às vezes, quase 10 em cada 10.
Quem busca entender os benefícios de viver em um ambiente mais verde, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Drauzio Varella, que conta com mais de 10 mil visualizações, onde Drauzio Varella mostra a importância vital da arborização em São Paulo:
Maringá foi desenhada por alguém que nunca visitou a cidade
Em 1943, um urbanista chamado Jorge de Macedo Vieira recebeu fotos aéreas e mapas de uma região de mata no noroeste do Paraná. Sem nunca pisar no terreno, desenhou a cidade na prancheta. A ideia era simples: ruas largas, canteiros com árvores e três pedaços de mata nativa preservados dentro do perímetro urbano. Oito décadas depois, Maringá tem 98,6% das vias arborizadas, o maior índice de todo o Brasil entre cidades com mais de 100 mil habitantes, segundo o IBGE. Até a capital mais arborizada do país, Campo Grande, fica abaixo desse número.
Em 2022, a ONU e a Fundação Arbor Day deram à Cidade Canção o selo Tree City of the World. O título coloca Maringá ao lado de Paris, Madri, Nova York e Toronto. Para receber o reconhecimento, a cidade precisou provar que tem lei de proteção às árvores, inventário atualizado, gestão técnica e investimento contínuo em plantio e manutenção. A cidade mantém 142 mil árvores catalogadas em 132 espécies diferentes nas ruas, segundo o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR).
Nos rankings de qualidade de vida, Maringá acumula resultados difíceis de ignorar:
- 4ª cidade mais desenvolvida do Brasil, segundo o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) 2025, numa faixa reservada a apenas 4,6% dos municípios do país
- Nota máxima em saneamento: 99,9% de cobertura de água e esgoto e 100% do esgoto tratado, segundo o Instituto Trata Brasil 2024
- Melhor cidade do Brasil para viver por 4 vezes, segundo o ranking da consultoria Macroplan, que avalia as 100 maiores cidades em saúde, educação, segurança e saneamento

Campo Grande é a única capital do mundo com o selo verde da ONU por 7 anos seguidos
Campo Grande tem 91,4% das vias arborizadas, o maior índice entre todas as capitais brasileiras, segundo o Censo 2022 do IBGE. Mas o número que chama atenção do mundo é outro: pelo sétimo ano consecutivo, a capital do Mato Grosso do Sul recebeu o título de Tree City of the World, da FAO/ONU e da Fundação Arbor Day. É a única capital brasileira com esse reconhecimento desde que ele foi criado, em 2019, conforme a Prefeitura de Campo Grande.
O título não é automático: precisa ser renovado todo ano. Para manter o selo, Campo Grande comprova anualmente que cumpre cinco critérios:
- Lei de proteção: legislação específica que pune quem derruba árvore sem autorização
- Órgão responsável: equipe pública dedicada exclusivamente à gestão das árvores
- Censo atualizado: inventário de todas as árvores da cidade, com espécie e estado de saúde
- Educação ambiental: ações com a população sobre a importância do verde
- Investimento contínuo: plantio, manutenção e distribuição de mudas todo ano
A área verde por habitante em Campo Grande chega a 73,66 m² — quase cinco vezes o mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde. O resultado aparece no dia a dia: araras, capivaras e quatis circulam livremente pelos parques e bairros da capital.
Em gestão urbana, Campo Grande ocupa a 7ª posição entre cidades com mais de 500 mil habitantes no Ranking Connected Smart Cities 2024, que avalia 74 indicadores como saúde, segurança e meio ambiente, e lidera o Centro-Oeste, conforme a Prefeitura de Campo Grande.

Londrina ganhou o nome de uma cidade inglesa e tem o mesmo urbanista de Maringá
Em 1929, uma empresa britânica sediada em Londres criou uma cidade no norte do Paraná e batizou o lugar em homenagem à capital inglesa. A neblina matinal que cobria a mata lembrava o nevoeiro londrino, e o apelido de Pequena Londres ficou. O traçado foi feito pelo mesmo urbanista de Maringá, com a mesma ideia: ruas largas, árvores planejadas desde o início. Décadas de lei municipal reforçaram isso: em Londrina, todo proprietário é obrigado por lei a ter pelo menos uma árvore na frente do imóvel, sob pena de multa. A Prefeitura distribui mudas de graça pelo Viveiro Municipal.
O resultado está no IBGE: 96,8% das vias com árvores, 6ª posição nacional entre cidades com mais de 100 mil habitantes. A área verde passa de 7,7 milhões de m², quase o dobro do recomendado pela ONU.

Que reconhecimento internacional Londrina tem?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) certificaram Londrina como Cidade Amiga da Pessoa Idosa, selo que reconhece cidades que adaptam serviços, transporte e espaços públicos para acolher quem tem mais de 60 anos, conforme o Portal da Prefeitura de Londrina. Quase 20% da população londrinense tem mais de 60 anos, e a cidade mantém a única Secretaria Municipal do Idoso do Paraná desde 1999.
As universidades da cidade, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), estão no Times Higher Education World University Rankings by Subject 2025, ranking britânico que avalia as melhores universidades do mundo em qualidade de ensino, pesquisa e internacionalização. No ranking nacional Bright Cities, Londrina ocupa a 9ª posição em serviços urbanos e qualidade de vida, conforme o Governo do Estado do Paraná.
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O que as três têm em comum além das árvores?
As três cidades foram projetadas, não cresceram por acúmulo. Desde o início, o verde foi tratado como parte da infraestrutura urbana, igual à rua e calçada. E todas mantiveram políticas de arborização por décadas sem interromper: lei de proteção, inventário, distribuição de mudas, gestão técnica. É o que explicam os índices do IBGE e os reconhecimentos internacionais. Confira o resumo:
Vale morar em uma dessas cidades?
Árvore não é enfeite. Em cidades com ruas bem arborizadas, a temperatura é mais baixa, o ar é mais limpo, as calçadas ficam mais cheias de gente e a qualidade de vida sobe em indicadores que vão de saúde a bem-estar mental. Maringá, Campo Grande e Londrina mostram que isso não acontece por acaso: é resultado de projeto, lei e gestão pública mantida ao longo do tempo.
Quem busca qualidade de vida no interior do Brasil vai encontrar nessas três cidades mais sombra, mais ar limpo e mais dados concretos do que a maioria das capitais do país consegue apresentar.






