São mais de 20 nascentes de águas cristalinas onde nenhum corpo afunda, dunas alaranjadas formadas dentro do Cerrado e comunidades quilombolas que transformam capim em ouro. O Jalapão, no leste do Tocantins, ocupa 34 mil km² e guarda um dos cenários mais surpreendentes do Brasil.
Por que ninguém consegue afundar nos fervedouros
Os fervedouros são nascentes de rios subterrâneos alimentados pelo Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água do país. A água jorra do lençol freático com pressão tão intensa que atravessa uma camada de areia fina e empurra qualquer pessoa para a superfície. O fenômeno se chama ressurgência e não se repete com essas características em nenhum outro lugar do planeta.
A National Geographic descreveu a sensação como flutuar em uma piscina natural sem esforço. Apesar do nome sugerir calor, a água é fria e cristalina. Cada fervedouro tem cor, profundidade e força de flutuação diferentes. O Fervedouro Bela Vista alcança 35 metros de profundidade e foi cenário da novela O Outro Lado do Paraíso (Rede Globo, 2017). O limite é de oito pessoas por vez, e protetor solar é proibido antes do mergulho para preservar a pureza da nascente.

O capim que virou ouro e patrimônio nacional por lei federal
O capim dourado é uma sempre-viva da família das eriocauláceas, nativa das veredas do Jalapão. Suas hastes ganham brilho metálico quando secas e são costuradas com fibra de buriti pelas artesãs da comunidade quilombola da Mumbuca, a 35 km de Mateiros. Cestos, biojoias, chapéus e mandalas produzidos ali ganharam mercados em todo o Brasil.
Em 2024, a Lei 15.050 concedeu a Mateiros o título de Capital Nacional do Capim Dourado, e a Lei 15.005 declarou o artesanato como manifestação da cultura nacional. A colheita só é permitida entre 20 de setembro e 20 de novembro, período em que as sementes já caíram. O Governo do Tocantins e o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins) fiscalizam a extração para garantir a reprodução da planta.

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O que fazer no Jalapão em 5 dias de expedição
A região exige veículo 4×4 e planejamento. A maioria dos atrativos fica entre os municípios de Mateiros e São Félix do Tocantins, dentro ou no entorno do Parque Estadual do Jalapão, criado em 2001 com mais de 158 mil hectares. Em 2023, as dunas e a Serra do Espírito Santo receberam quase 54 mil visitantes. Os pontos que merecem entrar no roteiro:
- Fervedouro Bela Vista: o maior e mais famoso, com água azul intensa e 15 metros de diâmetro. Infraestrutura completa e acesso por trilha curta.
- Dunas do Jalapão: areia de quartzo alaranjada formada pela erosão da Serra do Espírito Santo. O pôr do sol no topo é o cartão-postal mais fotografado do Tocantins. Visitação das 14h às 17h30.
- Cachoeira da Velha: a maior do parque, com 100 metros de largura e 15 metros de queda em formato de ferradura no Rio Novo. Banho proibido pela força da água.
- Cachoeira do Formiga: poço de água verde-esmeralda com fundo de areia branca. Trilha curta e acessível.
- Pedra Furada: formação de arenito esculpida pelo vento, com frestas que filtram a luz do pôr do sol. Trilha leve de 1,5 km.
- Comunidade Mumbuca: berço do artesanato em capim dourado. Visita guiada pelas artesãs com demonstração do processo de colheita e costura.
Quem sonha em conhecer o Tocantins, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 698 mil visualizações, onde os apresentadores mostram um guia completo com roteiro de 5 dias pelo paraíso das águas cristalinas no Jalapão:
Quando visitar o deserto que esconde rios cristalinos
O clima tropical alterna uma estação seca e outra chuvosa. A melhor época vai de maio a setembro, quando as estradas de terra ficam firmes e o céu permanece aberto. No auge das chuvas (dezembro a março), muitos trechos se tornam intransitáveis. A tabela resume o que esperar:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. A amplitude térmica pode ser grande: noites frescas e tardes quentes.
Como chegar ao coração do Jalapão
O ponto de partida é Palmas, que recebe voos de Brasília, São Paulo e Goiânia. De lá, são cerca de 180 km de asfalto pelas rodovias TO-050 e TO-255 até Ponte Alta do Tocantins. A partir daí, começam os 165 km de estrada de terra até Mateiros. Veículo 4×4 é indispensável. A maioria dos visitantes contrata expedições com agências credenciadas pelo Naturatins, em roteiros de 4 a 6 dias saindo de Palmas, com transporte, guia e hospedagem inclusos.
Cruze o cerrado e descubra por que o Jalapão não tem igual
O Jalapão reúne o que parece impossível: dunas no meio do cerrado, nascentes onde ninguém afunda e comunidades que transformam uma planta dourada em arte protegida por lei federal. Cada fervedouro entrega uma experiência diferente, cada estrada de terra cobra o preço da aventura e devolve em paisagem.
Você precisa reservar pelo menos cinco dias e encarar a estrada com disposição para entender por que ninguém volta do Jalapão do mesmo jeito.






