A água borbulha, parece ferver, mas é fria. Você entra e o corpo sobe. Não importa o peso, não importa o esforço: afundar é impossível. Esse é o fenômeno dos fervedouros, exclusividade do Jalapão, no leste do Tocantins, o mais jovem estado brasileiro. Entre dunas alaranjadas, rios cristalinos e veredas de buriti, a região esconde nascentes subterrâneas que transformam um banho simples em experiência de outro planeta.
Por que é impossível afundar nos fervedouros?
A explicação começa debaixo da terra. Os fervedouros são nascentes de rios subterrâneos que brotam com pressão intensa através de uma camada de areia finíssima. Segundo o professor Luís Flexa, do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), o fenômeno é uma ressurgência: a água do lençol freático encontra obstáculos na topografia e é forçada a subir. Essa corrente ascendente constante cria um empuxo muito maior do que o de uma piscina comum.
Na prática, a pressão empurra o corpo para cima o tempo todo, como um colchão líquido. O borbulhar na superfície dá a impressão de que a água está fervendo, daí o nome. Mas a temperatura gira em torno de 24 °C. Alguns poços chegam a 75 metros de profundidade, e ainda assim a areia do fundo fica visível, suspensa pela força da nascente. Fenômenos semelhantes existem na Islândia e na Nova Zelândia, mas são associados a atividade geotermal. Fervedouros de água fria com essa intensidade de flutuação são registrados apenas no Jalapão.

Quais fervedouros merecem entrar no roteiro?
A região possui entre 15 e 20 fervedouros abertos à visitação, cada um com cor, pressão e vegetação diferentes. A capacidade é limitada, entre 4 e 10 pessoas por vez, com tempo médio de permanência de 15 minutos.
- Fervedouro Bela Vista: o maior em diâmetro, com 15 metros de profundidade e água em tom azul intenso. Possui deck elevado para fotos e infraestrutura completa. Ganhou fama nacional ao servir de cenário para a novela O Outro Lado do Paraíso (2017).
- Fervedouro do Ceiça: primeiro a receber visitantes, com pressão forte e flutuação intensa. Cercado por bananeiras que garantem sombra.
- Fervedouro dos Buritis: formato que lembra um coração, emoldurado por buritis e bananeiras. Água que varia entre verde e azul conforme a luz solar. Limite de 10 banhistas por vez.
- Fervedouro do Encontro: a maior pressão entre todos. A nascente única joga areia para a superfície e a sensação se assemelha a entrar em areia movediça, sem risco
Regra em todos: protetor solar e repelente devem ser evitados antes do banho para preservar o ecossistema sensível das nascentes.
Quem sonha em explorar as águas cristalinas do Jalapão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 655 mil visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram um guia completo de 5 dias pelo Tocantins:
Rios e cachoeiras que completam a aventura
Os fervedouros são o cartão-postal, mas o Jalapão é também uma imensa teia de rios. O Rio Novo, considerado um dos maiores rios de água potável do mundo, oferece prainhas de areia branca ao longo de seu curso. O Rio Sono e o Rio Formiga servem de parada para aliviar o calor entre os deslocamentos.
A Cachoeira da Velha é a maior do Parque Estadual do Jalapão, com 15 metros de queda e 100 metros de extensão. O volume de água impede o banho, mas uma plataforma permite contemplação de perto. Para mergulho, a Cachoeira do Formiga entrega água de um azul tão intenso que parece artificial, com temperatura agradável o ano inteiro.

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Dunas, serra e o maior parque estadual do Tocantins
O Parque Estadual do Jalapão foi criado em 2001 e abrange cerca de 159 mil hectares no município de Mateiros. Em 2025, recebeu 55 mil visitantes, segundo o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins). As Dunas do Jalapão são formadas pela erosão das rochas de arenito da Serra do Espírito Santo e ganham tom dourado ao pôr do sol, ritual obrigatório para os visitantes.
A trilha até o topo da serra equivale a subir um prédio de 83 andares. O esforço compensa: o nascer do sol visto de lá revela a imensidão do cerrado, veredas e chapadas até onde a vista alcança. A região ainda protege espécies ameaçadas como o pato-mergulhão e o lobo-guará.

Quando ir e como chegar ao Jalapão?
A estação seca, entre maio e setembro, oferece as melhores condições: céu aberto, estradas mais firmes e fervedouros com água mais cristalina. O período chuvoso (outubro a abril) deixa a paisagem verde, mas pode dificultar o acesso com atoleiros e desvios.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar, especialmente na transição entre estações.
O ponto de partida é Palmas, a cerca de 300 km do parque. O trecho até Ponte Alta do Tocantins é asfaltado pela TO-030 e TO-130. Depois, a estrada vira terra e areia, exigindo veículo 4×4. Agências locais oferecem pacotes com transporte, guia e hospedagem, a opção mais segura para quem não conhece a região.
Flutue no cerrado mais surpreendente do Brasil
O Jalapão entrega o que poucos destinos brasileiros conseguem: silêncio de cerrado, rios de água potável, dunas que mudam de cor com o sol e o fenômeno raro de nascentes onde afundar é fisicamente impossível. Tudo isso em uma área preservada maior que o estado de Sergipe.
Você precisa pisar na areia do Jalapão, entrar em um fervedouro e sentir o corpo subir sozinho para entender por que esse pedaço do Tocantins transforma qualquer viajante.





