Quem passou pelos corredores da Drogaria São Bento em Campo Grande provavelmente não imaginava que aquela rede familiar, presente em quase todo o Mato Grosso do Sul, um dia chegaria ao fim pela via judicial. Pois foi exatamente isso que aconteceu: a Justiça decretou oficialmente a falência de uma das farmácias mais tradicionais do país.
De farmácia de esquina a uma das maiores redes do Brasil
A história da Drogaria São Bento começa em 1948, quando Adib Assef Buainain abriu uma farmácia independente na esquina da Rua 14 de Julho com a Avenida Marechal Cândido Mariano Rondon, em Campo Grande. Era um negócio pequeno, de bairro, como tantos outros espalhados pelo Brasil.
Com o tempo, a rede foi crescendo e chegou a operar cerca de 90 pontos de venda em 23 municípios do Mato Grosso do Sul. O pico veio em 2008, quando a empresa figurou entre os 20 maiores players do varejo farmacêutico nacional, ocupando o 18º lugar em faturamento e o 11º em número de lojas, segundo ranking da Abrafarma.
Quando as contas não fecham mais
Em 2015, a realidade financeira pesou demais. A São Bento entrou com pedido de recuperação judicial acumulando quase R$ 74 milhões em dívidas. A empresa alegou que investimentos pesados em estrutura e tecnologia comprometeram sua capacidade de honrar os compromissos com fornecedores e credores.
O plano de recuperação foi aprovado em 2021, com 1.359 credores registrados no processo. Mas a situação não se reverteu. As duas últimas lojas, na Avenida Guaicurus e na Rua Ceará, foram fechadas em 2022, com o endividamento já chegando a R$ 88 milhões.

Os detalhes que mostram o tamanho da crise
A falência atingiu não só a rede de drogarias, mas também a Transmed Distribuidora de Medicamentos, empresa ligada ao grupo. Os processos tramitaram na Vara de Falências e Recuperações Judiciais de Campo Grande, sob administração da Cury Administradora Judicial, e a decisão foi publicada em 14 de maio de 2026.
Para tentar quitar dívidas trabalhistas, os imóveis dos proprietários também entraram no processo. Confira o que envolveu o encerramento da rede:
- Fazendas leiloadas: propriedades do Grupo Buainain em Camapuã e Bandeirantes (MS), avaliadas em R$ 23,6 milhões e somando mais de 1,2 mil hectares, foram a leilão para quitar débitos.
- Disputa judicial em 2024: o Tribunal Regional do Trabalho da 24ª Região rejeitou tentativa de anular a venda dos imóveis.
- Trabalhadores sem receber: ex-funcionários esperaram anos por valores reconhecidos judicialmente, mesmo após vencer ações na Justiça.
- Caso emblemático: uma ex-colaboradora aguardou desde 2019 o pagamento de R$ 28 mil por demissão sem justa causa, sem receber mesmo após ganhar o processo.
- Dívida crescente: o endividamento saiu de R$ 74 milhões em 2015 e chegou a R$ 88 milhões em 2022, quando as últimas lojas fecharam.
O que esse caso revela sobre o setor farmacêutico no Brasil
O colapso da Drogaria São Bento não é um caso isolado. O varejo farmacêutico brasileiro passou por uma transformação intensa nas últimas décadas, com grandes redes nacionais e internacionais avançando sobre espaços que antes pertenciam a grupos regionais. Competir em preço, logística e tecnologia exige investimentos que nem sempre as empresas menores conseguem sustentar.
A trajetória da São Bento mostra como uma empresa pode ir de referência regional a insolvente em poucos anos, especialmente quando a crise financeira se combina com um mercado cada vez mais concentrado e competitivo.
E os credores e ex-funcionários, o que acontece agora?
Com a falência oficialmente decretada, o processo segue para a fase de liquidação dos ativos restantes. Os credores, incluindo trabalhadores com dívidas reconhecidas judicialmente, entram em uma fila de prioridades definida pela legislação. Na prática, isso significa que muitos ainda podem aguardar um longo caminho até receber, sem garantia de valor integral.
Para quem acompanhou o crescimento da Drogaria São Bento ao longo de quase 80 anos, o desfecho é um lembrete de que mesmo marcas consolidadas enfrentam o peso de dívidas que se acumulam sem perspectiva de reversão. O varejo não perdoa, e o setor de saúde tem suas próprias regras duras de sobrevivência.
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