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Início Noticia

Eles venderam tudo para viver na Itália e agora não podem trabalhar nem voltar para casa

Por Gustavo Trindade
01/04/2026
Em Noticia
Eles venderam tudo para viver na Itália e agora não podem trabalhar nem voltar para casa

Kellen Matwick mudou-se para Turim com sua esposa Jacqueline e filhos... apenas para que uma mudança na lei o desqualificasse da cidadania por descendência. Cortesia de Jacqueline Matwick

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A nova lei de cidadania italiana tem impactado milhares de descendentes que buscaram reconhecimento no país europeu. O caso ganhou força após mudanças implementadas em março de 2025, que alteraram critérios históricos do chamado ius sanguinis.

Famílias que já estavam na Itália enfrentam hoje um cenário incerto, sem acesso pleno a direitos básicos, trabalho formal ou segurança jurídica — mesmo tendo seguido todos os procedimentos legais.

Entenda como a nova lei de cidadania italiana mudou a vida de famílias no país

A mudança na lei de cidadania italiana, implementada em março de 2025, alterou de forma abrupta as regras para reconhecimento por descendência e pegou milhares de famílias de surpresa. Até então, o processo seguia critérios mais amplos, permitindo que descendentes iniciassem a solicitação diretamente no país, mesmo sem limite rígido de gerações.

Com a nova legislação, porém, muitos pedidos foram interrompidos no meio do caminho, especialmente de pessoas que já haviam se mudado para a Itália com base nas regras anteriores. Sem período de adaptação, essas famílias passaram a enfrentar um cenário de incerteza jurídica, com dificuldades para trabalhar, acessar serviços essenciais e regularizar sua permanência no país.

Eles venderam tudo para viver na Itália e agora não podem trabalhar nem voltar para casa
Erica Galbreath adotou um visto de estudante para se mudar com sua família para a Toscana. Cortesia de Erica Galbreath

Por que a cidadania italiana mudou e quem foi afetado?

A legislação italiana sempre permitiu que descendentes de italianos solicitassem cidadania sem limite geracional. No entanto, o governo liderado por Antonio Tajani justificou a mudança como resposta a “abusos” no sistema.

A partir de 2025, duas alterações principais entraram em vigor:

  • Limitação da cidadania a apenas duas gerações
  • Regra que invalida linhagens caso haja naturalização de ascendentes enquanto filhos ainda eram menores

Essas mudanças atingiram diretamente famílias que já estavam em território italiano, muitas delas no meio do processo.

Segundo relatos reunidos pela CNN, não houve período de transição, o que deixou milhares de pessoas em situação irregular involuntária.

Como famílias ficaram presas em um limbo legal na Itália?

O caso da família de Kellen Matwick, que se mudou para Turim, ilustra bem o problema. Após dois anos reunindo documentos e iniciando o processo legal, eles foram surpreendidos pelas novas regras.

Sem cidadania reconhecida e sem visto adequado, enfrentam restrições severas:

  • Impossibilidade de trabalhar formalmente
  • Dificuldade de acesso à saúde
  • Restrições de mobilidade dentro da União Europeia
  • Insegurança jurídica contínua

A esposa, Jacqueline Matwick, descreveu a situação como um ciclo de decisões corretas que levaram a resultados inesperados.

“Sentíamos que éramos constantemente atingidos pelas ondas”, afirmou em entrevista à CNN.

Os Matwicks — que já tiveram outro bebê — estão presos em um limbo legal na Itália, tendo chegado em agosto de 2024. Cortesia de Jacqueline Matwick

Quais são os impactos reais da nova lei de cidadania italiana?

Além dos Matwick, outros casos mostram que o impacto vai além da burocracia. Há relatos de pessoas que:

  • Venderam casas nos EUA
  • Encerraram contratos de trabalho
  • Investiram economias na mudança
  • Ficaram sem possibilidade de retorno imediato

Uma dessas histórias é a de Lea Black, que gastou mais de vinte mil dólares no processo e hoje vive sem estabilidade financeira após retornar aos Estados Unidos.

Outro exemplo é Jackie Wang, acadêmica que perdeu o direito à cidadania mesmo após anos tentando agendamento em consulados.

O que torna o processo de cidadania italiana tão complexo?

Mesmo antes das mudanças, o processo já era considerado burocrático e lento. Ele envolve várias etapas obrigatórias:

  • Registro de residência na cidade italiana
  • Obtenção de permissão de estadia
  • Validação documental completa da linhagem
  • Reconhecimento oficial pelas autoridades locais

Esse sistema, segundo especialistas, já era sobrecarregado pela alta demanda global — especialmente de americanos com ascendência italiana.

Além disso, muitos optavam por realizar o processo diretamente na Itália, o que acelerava etapas, mas exigia mudança imediata.

O que esperar do futuro da cidadania italiana?

O cenário ainda está em evolução. Há processos em andamento no tribunal constitucional italiano e na Suprema Corte que podem redefinir as regras novamente.

Advogados como Marco Mellone defendem revisões na legislação, especialmente para incluir critérios mais equilibrados, como exigência de residência.

Enquanto isso, famílias seguem aguardando decisões judiciais, muitas com audiências previstas apenas para 2027.

Tags: Cidadania italianaimigrantesrelatostrabalho
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