Dr. Matheus Trilico explica relação entre autismo, TDAH e histórico familiar
Identificação com características das crianças pode despertar dúvidas sobre o próprio desenvolvimento. Neurologista explica a influência genética, os sinais que merecem atenção e a importância da avaliação especializada
O diagnóstico de autismo ou Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em uma criança pode despertar questionamentos nos pais sobre o próprio comportamento. Em alguns casos, ao conhecerem melhor as características do filho, adultos começam a reconhecer experiências semelhantes em suas histórias, como dificuldades de interação social, sensibilidade a estímulos, desatenção ou necessidade de manter determinadas rotinas.
O neurologista Dr. Matheus Trilico, que atende adultos com transtornos do neurodesenvolvimento, observa esse movimento em sua prática clínica. Segundo ele, a investigação das características dos familiares pode fazer parte de uma compreensão mais ampla do histórico de cada paciente.
“É comum que pais cheguem ao consultório depois do diagnóstico dos filhos e comecem a relacionar algumas experiências da própria infância e vida adulta. Muitas vezes, são pessoas que passaram anos sem compreender determinadas dificuldades”, explica o médico.
A influência da genética
A relação familiar entre autismo e TDAH é respaldada por pesquisas científicas. Estudos apontam que ambas as condições apresentam importante componente genético, embora fatores ambientais e outros aspectos também participem do desenvolvimento de cada indivíduo.
Uma pesquisa publicada na revista JAMA Psychiatry, em 2024, analisou dados populacionais da Suécia e estimou elevada herdabilidade do autismo, com diferenças entre homens e mulheres. Esse indicador representa a contribuição genética para as diferenças observadas em uma população e não deve ser interpretado como uma probabilidade individual de transmissão de uma condição aos filhos.
No caso do TDAH, pesquisas também identificam maior ocorrência entre familiares de pessoas diagnosticadas. Além disso, autismo e TDAH podem estar presentes simultaneamente em uma mesma pessoa, situação conhecida informalmente como AuDHD ou AuTDAH.
Para o Dr. Matheus Trilico, conhecer o histórico familiar é uma etapa importante da investigação. “Perguntar sobre pais, irmãos e filhos ajuda a compreender melhor a trajetória do paciente. A história familiar oferece informações que precisam ser consideradas junto à avaliação clínica”, afirma.
Por que alguns adultos só descobrem na maturidade?
Durante muitos anos, o conhecimento sobre o autismo esteve mais associado a manifestações que exigiam maior suporte. Da mesma forma, o TDAH era frequentemente relacionado à hiperatividade infantil, o que contribuía para que pessoas com apresentações diferentes não fossem identificadas.
Em adultos, especialmente entre mulheres, estratégias de camuflagem social também podem dificultar o reconhecimento de características autistas. Esse comportamento envolve tentativas de esconder dificuldades ou reproduzir padrões sociais considerados esperados.
Uma revisão científica publicada em 2026 analisou pesquisas sobre camuflagem social em mulheres autistas e identificou associação entre esse comportamento e sintomas de ansiedade e depressão. Os resultados reforçam a importância de considerar as experiências individuais durante a avaliação.
Na prática clínica, o médico destaca que algumas dificuldades podem ter sido interpretadas ao longo da vida como características de personalidade, sem uma investigação mais aprofundada.
Quando procurar uma avaliação?
Reconhecer semelhanças com o filho não significa, necessariamente, que o adulto tenha autismo ou TDAH. O diagnóstico depende de uma avaliação individualizada, que considera o histórico desde a infância, os comportamentos apresentados em diferentes ambientes e os possíveis impactos na vida pessoal, profissional e social.
Questionários disponíveis na internet podem ajudar a levantar dúvidas, mas não substituem uma investigação conduzida por profissional habilitado. Relatos de familiares, registros escolares antigos e informações sobre o desenvolvimento infantil também podem contribuir para a avaliação.
Segundo o Dr. Matheus Trilico, o diagnóstico na família pode ser uma oportunidade para que outros integrantes procurem orientação quando identificam dificuldades persistentes.
“Se, ao conhecer melhor as características do seu filho, você começa a reconhecer experiências semelhantes em sua própria história e percebe que isso interfere na sua rotina, vale conversar com um neurologista ou psiquiatra. A avaliação ajuda a compreender essas características e a identificar quais cuidados podem ser necessários”, orienta.
O reconhecimento das particularidades de cada integrante também pode favorecer a convivência familiar, permitindo que pais e filhos compreendam melhor suas necessidades e encontrem formas mais adequadas de lidar com os desafios cotidianos.
Sobre o especialista
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico (CRM 35805/PR | RQE 24818) é médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA), neurologista com residência pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR) e mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pela UFPR. Possui pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista (TEA), atende adultos com autismo e TDAH em Curitiba e por teleconsulta e é professor da pós-graduação em transtornos do neurodesenvolvimento da PUC-PR.
Site: matheustriliconeurologia.com.br Instagram: @drtrilico.neuro