O que é o Corredor Bioceânico, e por que a ponte pronta em setembro ainda não é o corredor
A rota quer ligar o Atlântico ao Pacífico por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, saindo do Brasil por Porto Murtinho. Entenda o que já existe, o que falta e onde a carga realmente trava
Corredor Bioceânico é o nome da rota rodoviária que pretende ligar o Oceano Atlântico ao Pacífico atravessando quatro países: Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. A saída do território brasileiro é Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul, e a peça mais visível do projeto é a ponte sobre o rio Paraguai até Carmelo Peralta, no Paraguai: 1.294 metros de extensão, 20,10 metros de largura, cerca de US$ 103 milhões financiados pela margem paraguaia de Itaipu.
A ponte encontrou as duas margens em 23 de julho de 2026, no “beijo das aduelas”, e o cronograma oficial prevê a conclusão em setembro. Mas a ponte é só um dos três elementos. Os acessos definitivos, com a adequação da BR-267, alça de 13,1 quilômetros, contorno rodoviário e centro aduaneiro no lado brasileiro, só aparecem no cronograma em fevereiro de 2027. E o centro integrado de controle de fronteira, onde fica a aduana, ainda está em montagem. Não há data de inauguração.
“Uma ponte concluída não abre um corredor. O que abre corredor é a combinação de estrutura, acesso pavimentado e controle aduaneiro funcionando ao mesmo tempo. Enquanto esses três relógios não estiverem sincronizados, o ganho de tempo que se promete no mapa não aparece na operação”, explica Lucas Vidal Cardoso, da Interlink Cargo, especializada em transporte rodoviário internacional de cargas no Mercosul.
Onde a carga trava, então? Na aduana. O transporte internacional passou por reorganização regulatória em 2026 (Portaria SUROC nº 17/2026 da ANTT) e tem a migração para a Duimp no modal terrestre marcada para dezembro. Em Uruguaiana, fronteira já consolidada, o Sistema VAI exige desde setembro de 2025 cadastro prévio, agendamento e certificado digital. É esse desenho que Porto Murtinho vai receber.
“A gente vem se preparando para o corredor pela via documental, que é onde a operação trava de verdade. Certificação, habilitação e dado antecipado valem mais do que quilômetro economizado, porque carga parada em fronteira custa igual em estrada nova e em estrada velha”, diz o executivo.
A Interlink Cargo atua entre Brasil, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, tem certificação OEA Segurança desde 2023 e trabalha com carga química apoiada no SASSMAQ desde 2019.
Em resumo: o Corredor Bioceânico é uma ponte pronta em setembro, um acesso pronto em 2027 e uma aduana sem data. A rota existe no mapa. Na operação, ainda não.