Sua empresa contratou para "treinar a IA"? Pode não ser bem isso

CEO da Vircos explica por que essa expressão virou coringa nas propostas e como isso pode custar caro para quem contrata

Você já recebeu uma proposta prometendo “treinar a inteligência artificial” da sua empresa? Se pediu três orçamentos parecidos, provavelmente ouviu essa frase três vezes, com preços bem diferentes entre si. Para Guilherme Friol, CEO da Vircos, o problema não é que alguém está cobrando caro (ou barato) demais: é que a palavra “treinar” virou um balde onde cabe qualquer coisa.

Afinal, o que é treinar uma IA de verdade?

Treinar um modelo de linguagem, no sentido técnico, significa construir a inteligência do zero, a partir de uma quantidade gigantesca de dados. Isso exige infraestrutura pesadíssima e times de pesquisa dedicados, coisa que só as grandes empresas de tecnologia fazem. Nenhuma empresa brasileira de porte médio está fazendo isso, e nem deveria tentar: seria como competir em pesquisa com quem investe bilhões por ano.

Existe uma etapa intermediária, o ajuste fino, quando um modelo pronto é refinado com dados específicos. É real, mas raro: representa só uma fatia pequena dos projetos corporativos. Quando um fornecedor promete “treinar sua IA”, quase nunca é disso que ele está falando.

Por que todo mundo fala igual, então?

A explicação é comercial, não técnica. “Marketing prefere simplicidade. Engenharia prefere precisão. Os dois raramente tomam café juntos”, resume Guilherme Friol. Dizer que vai “treinar” é bem mais fácil de vender do que explicar termos como pipeline de recuperação de informação ou indexação de documentos.

O que você provavelmente está comprando

Segundo Friol, o que costuma acontecer na prática entra em cinco categorias: configurar o comportamento da IA, personalizar a linguagem das respostas, especializar a atuação em um assunto específico, conectar a IA aos documentos e histórico da empresa, ou criar um assistente que junta tudo isso numa ferramenta só.

Cada um desses serviços tem um esforço bem diferente. Configurar pode levar meses. Já conectar toda a base de documentos da empresa, organizar permissões de acesso e garantir que a resposta cite a fonte certa é um projeto de engenharia completo, com prazo e custo à altura.

O preço de não entender o que está comprando

O primeiro problema é decidir só pelo preço, sem saber o que está incluso, e acabar levando o pacote mais raso. O segundo é a expectativa errada: achar que a IA vai “aprender sozinha” com o uso e descobrir depois que ela faz exatamente o que foi configurada para fazer, nem mais nem menos. O terceiro é o mais traiçoeiro: quando o projeto entrega menos do que prometeu, a empresa costuma concluir que “IA não funciona para o meu negócio” e engavetar a ideia por um ou dois anos.

Três perguntas para fazer antes de fechar contrato

Guilherme Friol sugere três perguntas simples para qualquer proposta que use a palavra “treinar”: quais dados da empresa vão ser acessados e como serão tratados; quando a resposta sair errada, o que precisa ser ajustado e quem faz esse ajuste; e se um dia quiser trocar de fornecedor, o que sai junto com você.

As respostas costumam deixar claro rapidinho qual dos cinco serviços está sendo vendido de verdade.