El Niño forte em 2026 pode encarecer alimentos e já move mercado de irrigação
Órgãos oficiais apontam mais de 95% de chance do fenômeno se intensificar e produtores já correm para montar sistemas antes do plantio
O El Niño de 2026 está com data marcada para ficar mais forte, e isso já está mudando a rotina de quem planta no Brasil. Uma nota técnica divulgada em 19 de junho pelo INPE, pelo INMET, pela Funceme e pelo CENSIPAM aponta mais de 95% de probabilidade de o fenômeno persistir ao longo do segundo semestre de 2026, podendo se estender até o início de 2027 com intensidade forte a muito forte.
O que isso significa na prática
Na prática, o El Niño costuma deixar Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste e do Sudeste mais secos, enquanto o Sul recebe chuva acima da média. Eduardo Assad, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e ex-secretário do Ministério do Meio Ambiente, estima que um El Niño forte em 2026 pode derrubar em 7% a 10% a produção brasileira de soja, milho, café e laranja, culturas que pesam direto no preço do que chega à mesa do consumidor.
Quem vende irrigação já sentiu o efeito
Esse cenário fez o telefone tocar mais cedo na indústria de irrigação. A Asperbras, fabricante de tubos e conexões de PVC e PEAD com seis plantas no país, já recebe pedidos antecipados de produtores. “Quando o produtor lê um boletim climático em junho, o pedido de tubo chega em julho e agosto, porque ele precisa do sistema montado e testado antes da semeadura”, explica Thiago Rosa, Diretor Comercial da empresa.
Do lado do portfólio, a companhia trabalha com tubos em diâmetros de DN15 a DN500 e conexões de DN15 a DN150, faixa que cobre da condução principal aos ramais de distribuição. No cenário atual, ganha relevância o formato de projeto sazonal, em que o produtor testa a irrigação em uma área antes de imobilizar capital em estrutura fixa.
O motivo da pressa é simples: o plantio da safra 2026/27 concentra-se entre setembro e outubro, e montar um sistema de irrigação, do projeto ao teste de pressão, leva semanas.
Brasil ainda irriga pouco perto do potencial
Mesmo fora de ano de El Niño, o Brasil está longe de explorar todo o seu potencial de irrigação. Levantamento da Embrapa mostrou que a área irrigada por pivôs centrais cresceu mais de 14% em dois anos, chegando a 2,2 milhões de hectares até outubro de 2024. Só que estudos da ANA (Agência Nacional de Águas) e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional apontam potencial irrigável de até 55 milhões de hectares no país, área 25 vezes maior do que a atualmente irrigada por pivô.