O leito do canal portuário de Santos receberá o primeiro túnel submerso da América Latina, encurtando uma travessia histórica de uma hora para apenas cinco minutos. Separadas por poucos metros de água no canal portuário, Santos e Guarujá dependem há décadas de balsas congestionadas ou de um longo desvio rodoviário para conectar suas populações e cadeias produtivas.
Por que fazer um túnel no fundo do mar é melhor do que construir uma ponte?
A escolha entre erguer uma ponte elevada ou instalar um túnel no leito marítimo depende da preservação da navegação no maior porto do país. O canal exige passagem livre constante para navios porta-contêineres de grande porte.
Uma ponte exigiria pilares elevados e um gabarito de navegação superior a 70 metros de altura, demandando extensas rampas de acesso que impactariam áreas urbanas consolidadas. O túnel imerso elimina essa barreira ao permitir que os navios naveguem na superfície enquanto o tráfego terrestre flui por baixo do canal.

Quais são as dimensões e especificações técnicas da estrutura imersa?
O empreendimento de R$ 6,8 bilhões emprega soluções de engenharia costeira projetadas para suportar o peso da coluna d’água, o empuxo do solo e a carga diária de veículos.
Extensão total da ligação: engloba 1,5 quilômetro de comprimento total entre os acessos viários e trincheiras rebaixadas nas duas margens.
- Trecho imerso sob o canal: possui 870 metros de extensão posicionados diretamente abaixo do leito marinho.
- Módulos de concreto armado: constituído por blocos pré-moldados pré-fabricados em doca seca, cada um com mais de 100 metros de comprimento.
- Profundidade de assentamento: alocado a mais de 20 metros abaixo do nível do mar, garantindo a dragagem e o calado do canal portuário.
- Capacidade multimodal: planejado para abrigar três faixas de tráfego por sentido, transporte público, canal reservado ao VLT, além de galeria segregada para pedestres e ciclistas.
Como funciona a montagem de um túnel imerso na prática?
Ao contrário dos túneis perfurados por tuneladoras tipo tatuzão, o sistema imerso é construído em ambiente seco em terra. Os módulos gigantes de concreto são moldados em uma doca seca, vedados temporariamente e rebocados flutuando pela água até o local final.
Uma trincheira é previamente escavada e nivelada no fundo do canal marítimo. Ao preencher os tanques internos com água, o módulo afunda progressivamente de forma controlada até se apoiar no leito, onde juntas de borracha hidráulicas garantem a vedação hermética antes do aterro de proteção.
Como é feito o planejamento logístico e o trajeto da nova travessia?
O trajeto planejado conectará diretamente a região de Macuco, em Santos, ao bairro de Vicente de Carvalho, em Guarujá. Essa ligação contínua substituirá a dependência das balsas e encurtará a viagem de quase uma hora para cinco minutos.
A nova estrutura se integrará à Rodovia Cônego Domênico Rangoni, organizando o trânsito regional e facilitando o fluxo logístico em direção à malha rodoviária e à BR-101. A seguir, confira a explicação em vídeo sobre o traçado da obra.
Abaixo, um vídeo do canal CNN Brasil que aprofunda o tema:
Quais normas técnicas garantem a durabilidade do concreto no mar?
O concreto exposto ao ambiente marinho agressivo exige blindagem contra a ação dos íons de cloreto presentes na água salgada. O projeto atende aos requisitos rígidos da ABNT NBR 6118 para estruturas de concreto e da ABNT NBR 12655 para controle de dosagem de materiais.
Para assegurar mais de 100 anos de vida útil, utiliza-se concreto de baixíssima porosidade, adição de sílica ativa e espessura de cobrimento reforçada sobre o aço. Esse conjunto bloqueia a corrosão interna e evita infiltrações sob elevada pressão hidrostática.

Quando é necessário consultar um engenheiro especialista em geotecnia marinha?
A implantação de obras subaquáticas exige estudos rigorosos da capacidade de suporte do leito marinho por meio de sondagens e batimetrias. A presença de um engenheiro geotécnico é essencial para projetar o nivelamento do solo e evitar adensamentos ou deslocamentos da estrutura.
Escavações costeiras e contenções submersas não devem ser realizadas sem parecer técnico de um engenheiro civil especialista em fundações profundas. O dimensionamento incorreto do empuxo hidrostático pode comprometer a estabilidade do solo e gerar riscos estruturais graves.
Contexto importante: Este artigo é informativo. Para projetos de engenharia de infraestrutura, escavações em solo marinho ou obras de contenção marítima, é indispensável a orientação técnica de um engenheiro geotécnico e engenheiro estrutural devidamente habilitados.

