Em meio à escuridão permanente e à água abaixo de zero do Mar de Weddell, na Antártida, cientistas a bordo de uma expedição polar registraram o que se consolidou como a maior área contínua de reprodução de peixes de todo o planeta.
Como o peixe-gelo sobrevive a 500 metros de profundidade sem glóbulos vermelhos no sangue?
Os animais pertencentes à família Channichthyidae representam uma das mais drásticas exceções biológicas entre os vertebrados do planeta. Diferente de qualquer outro grupo com coluna vertebral, o peixe-gelo não sintetiza hemoglobina nem mioglobina em níveis funcionais, o que confere ao seu sistema circulatório um aspecto translúcido e leitoso.
Esse mecanismo só funciona porque as águas do Oceano Austral mantêm concentrações altíssimas de gás dissolvido, facilitadas pela temperatura ambiente próxima de -1,8 °C. Para que os tecidos não congelem sob pressões que atingem 50 atmosferas na cota de 500 metros, o animal produz glicoproteínas anticongelantes que bloqueiam o crescimento de cristais de gelo intracelulares.

Como o quebra-gelo Polarstern localizou a megacolônia de ninhos no leito do Mar de Weddell?
A frota de pesquisa coordenada pelo biólogo marinho Autun Purser, vinculado ao Alfred-Wegener-Institut, não navegava com o objetivo específico de rastrear sítios reprodutivos de peixes. O navio de pesquisa quebra-gelo RV Polarstern realizava levantamentos oceanográficos de rotina ao longo do canal submarino conhecido como Filchner Trough.
Os pesquisadores rebocavam o sistema batimétrico e fotográfico OFOBS a uma velocidade de um a quatro quilômetros por hora, transmitindo imagens em tempo real para as telas do laboratório de bordo. Conforme a câmera varria quilômetros seguidos de solo marinho, os cientistas constataram que as bacias circulares continuavam a aparecer sem interrupção por horas seguidas, confirmando que a área mapeada ultrapassava 240 km² contínuos.
Por que o peixe-gelo escava círculos de 75 centímetros no cascalho para chocar 1.700 ovos?
A arquitetura dos ninhos obedece a uma necessidade mecânica precisa. O leito abissal do Mar de Weddell acumula sedimentos finos e lama biogênica que sufocariam os ovos depositados; ao bater vigorosamente as nadadeiras ventrais e caudais, o peixe adulto empurra o lodo para as bordas e expõe pequenas pedras pontiagudas no centro.
Nessa área central desobstruída, de cerca de 75 centímetros de diâmetro e 15 centímetros de profundidade, a fêmea fixa entre 1.500 e 2.500 ovos, com uma média observada de 1.700 ovos por estrutura. O guardião permanece posicionado diretamente sobre o ninho por meses seguidos, espantando caranguejos, estrelas-do-mar e anfípodes necrófagos que vasculham a região.
| Indicador Ecológico | Megacolônia de Weddell (Current Biology, 2022) |
|---|---|
| 🗺️ Área total ocupada | Pelo menos 240 km² documentados |
| 🪺 Ninhos ativos estimados | Aproximadamente 60 milhões de estruturas |
| ⚖️ Biomassa de peixes adultos | Superior a 60 mil toneladas |
| 📏 Densidade média de ninhos | 0,26 ninho por metro quadrado de leito |
| 🥚 Volume de ovos por ninho | De 1.500 a 2.500 ovos (média de 1.700) |
O que as filmagens submarinas revelaram sobre a guarda parental dos peixes-gelo?
Os registros obtidos por câmeras rebocadas mostraram que mais de setenta por cento das depressões escavadas possuíam um adulto solitário estacionado no leito. O peixe posiciona o corpo logo acima da camada de ovos, mantendo uma atitude defensiva com nadadeiras peitorais abertas e boca entreaberta contra qualquer criatura marinha que se aproxime da borda.
As lentes registraram também carcaças de peixes adultos espalhadas entre os ninhos ativos, indicando que a energia despendida na proteção das posturas frequentemente resulta na morte por exaustão antes da eclosão. Esses restos orgânicos formam uma cadeia local de nutrientes que sustenta microrganismos bentônicos, poliquetas e moluscos em uma das regiões mais pobres em luz solar da Terra.
Abaixo, um vídeo do canal Guardian News (YouTube) que aprofunda o tema:
Como os pesquisadores calcularam a existência de 60 milhões de ninhos na área de 240 km²?
Para determinar o tamanho total da colônia sem depender de estimativas visuais soltas, a equipe cruzou dados de sensores acústicos do RV Polarstern com mais de 16 mil fotografias em alta definição capturadas pelo trenó de observação. As imagens permitiram contabilizar cada ninho com coordenadas precisas e calcular a densidade de distribuição espacial.
A densidade média verificada pelo estudo publicado na revista Current Biology em janeiro de 2022 atingiu 0,26 ninho por metro quadrado, o equivalente a um ninho ativo a cada quatro metros quadrados de fundo do mar. Ao projetar essa taxa na mancha térmica contínua delimitada pelos sonares ao longo de 240 km², os biólogos chegaram à estimativa consistente de 60 milhões de ninhos em atividade simultânea.
Quais ameaças climáticas e ecológicas colocam em risco o maior berçário marinho do planeta?
A localização exata dessa megacolônia depende inteiramente de uma anomalia hidrológica: uma coluna ascendente de água profunda moderada chamada Modified Warm Deep Water, que chega a ser até 2 °C mais quente que as massas superficiais. Qualquer perturbação na dinâmica de degelo das plataformas glaciais vizinhas pode alterar a densidade da água salgada e desviar essa corrente térmica vital para o ciclo reprodutivo.
Além da vulnerabilidade térmica, a enorme concentração de mais de 60 mil toneladas de biomassa viva atrai atenções pesqueiras e torna a região suscetível à pesca de arrasto de fundo. Cientistas do Alfred-Wegener-Institut submeteram propostas à comissão internacional CCAMLR para transformar esses 240 km² do Mar de Weddell em uma Área Marinha Protegida de proteção integral.
📖 Leia também: Cientistas descobrem vida inédita no fundo oceano e o alerta preocupa especialistas do mundo todoDados de satélites e sensores acoplados a exemplares de foca-de-weddell comprovam que esses mamíferos marinhos mergulham com precisão cirúrgica a 500 metros para se alimentar nas áreas com maior densidade de ninhos, confirmando que a integridade física desse berçário sustenta os grandes predadores do ecossistema antártico.

