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Início Curiosidades

A China concluiu o teste da bateria submersa Dongchu-1 no lago Minhu, que utiliza a pressão natural da água a 65 metros de profundidade para girar turbinas e estocar eletricidade sem barragens

Por Gustavo Trindade
31/08/2026
Em Curiosidades, Diversão
Guindaste içando a esfera oca branca Dongchu-1 sobre uma balsa antes de mergulhá-la na água do lago.

Operação de descida e içamento do protótipo Dongchu-1 no lago Minhu durante os testes de campo — Créditos: Imagem gerada por IA

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No fundo escuro de um reservatório na província de Fujian, uma estrutura esférica de aço selada transformou o peso de milhões de litros de água em eletricidade limpa. Ao descer a 65 metros de profundidade, o protótipo chinês Dongchu-1 provou que lagos e oceanos podem atuar como gigantescos acumuladores de energia sem a necessidade de construir represas ou inundar vales montanhosos.

Resumo
🌊Pressão natural como motor: O sistema utiliza a coluna hidrostática de 65 metros para acionar turbinas submersas sem barragens convencionais.
⚡Teste pioneiro ininterrupto: O protótipo Dongchu-1 completou mais de 100 ciclos de carga e descarga ao longo de 10 dias no lago Minhu.
🔄Hidrelétrica invertida: A água é expulsa da esfera oca para armazenar energia e reentrante sob alta pressão para gerar eletricidade.
🔋Alternativa aos metais raros: A tecnologia de bombeamento subaquático dispensa lítio e cobalto para estocar excedentes renováveis.

O teste de campo, realizado entre os dias 2 e 11 de janeiro de 2026, colocou à prova um dos conceitos mais engenhosos da transição energética global. Em vez de depender de baterias químicas vulneráveis à degradação térmica ou de megausinas reversíveis em encostas íngremes, engenheiros chineses usaram a própria física dos fluidos para reter potência na escala de quilowatts.

Como a pressão da água a 65 metros de profundidade consegue armazenar e devolver eletricidade?

O princípio da bateria hidrostática submersa inverte a lógica das usinas hidrelétricas reversíveis tradicionais. Em terra, uma usina bombeia água de um rio inferior para uma represa construída no topo de uma montanha. Quando o consumo sobe, essa água despenca por tubulações e gira geradores. No modelo subaquático, o próprio lago funciona como o reservatório superior ilimitado, enquanto a cavidade oca da esfera atua como o reservatório inferior.

Durante a fase de carga, quando parques eólicos ou solares produzem mais energia do que a rede elétrica consegue consumir, essa eletricidade excedente alimenta uma bomba submersível de alta potência. O motor expulsa a água de dentro da esfera para o lago aberto, criando uma câmara interna de baixa pressão e quase-vácuo. A energia fica retida ali na forma de energia potencial mecânica.

Corte subaquático mostrando plataforma flutuante na superfície e esfera oca metálica no fundo do lago expelindo água pressurizada.
Representação em corte da esfera hidrostática submersa no leito do lago acoplada à plataforma flutuante — Créditos: Imagem gerada por IA

Por que a Dongfang Electric escolheu o lago Minhu para testar o protótipo Dongchu-1?

O equipamento foi projetado e fabricado pelo instituto de pesquisa da estatal chinesa China Dongfang Electric Corporation (DEC), uma das maiores fabricantes mundiais de maquinário para geração de energia pesada. O objetivo era retirar a tecnologia das simulações computacionais de laboratório e validá-la em um leito aquático natural de água doce antes de arriscar implantações marinhas.

O Lago Minhu ofereceu a profundidade estável e a ausência de correntes oceânicas violentas necessárias para monitorar a durabilidade mecânica de cada junta, válvula e sensor. Durante o ensaio de 10 dias ininterruptos, a equipe registrou dados de temperatura interna, vedação hermética dos eixos giratórios e estabilidade de chaveamento entre os modos de bombeamento e geração.

Pilares da Bateria Hidrostática Submersa
⚙️
Mecânica Fluida
Turbina Reversível
Opera alternando o sentido: drena a esfera para carregar e converte a torrente externa em energia pura na descarga.
🛡️
Resistência Física
Casco de Geometria Esférica
Distribui de forma homogênea a compressão de 6,5 bar nas paredes externas, impedindo o esmagamento sob vácuo.
🌱
Preservação Espacial
Impacto em Solo Nulo
Elimina escavações monumentais e desmatamentos em terra ao utilizar o espaço ocioso do assoalho aquático.

Quais são as vantagens das esferas subaquáticas sobre as usinas hidrelétricas reversíveis em terra?

As usinas hidrelétricas reversíveis respondem atualmente por mais de 90% de toda a capacidade de armazenamento de energia em escala de rede no planeta. No entanto, encontrar locais com topografia favorável — que combinem dois grandes platôs com desníveis acentuados de centenas de metros e oferta hídrica abundante — tornou-se um desafio geográfico quase intransponível nas economias industrializadas.

Ao transferir a infraestrutura para corpos d’água profundos, os reservatórios artificiais suspensos tornam-se desnecessários. A própria pressão natural da coluna líquida substitui a queda d’água montanhosa. Isso encurta os anos de obras civis complexas e evita o reassentamento de comunidades ribeirinhas ou a alteração de cursos de rios inteiros.

Parâmetro OperacionalEspecificação no Protótipo Dongchu-1
📍 Local de ImplantaçãoLago Minhu, Sanming, província de Fujian (China)
📏 Profundidade do Teste65 metros abaixo da superfície da água
⏲️ Período de Operação10 dias ininterruptos (2 a 11 de janeiro de 2026)
🔄 Ciclos ExecutadosMais de 100 ciclos completos de carga e descarga
⚖️ Pressão Ambiente SuportadaAproximadamente 6,5 bar (pressão hidrostática)
⚡ Porte do SistemaEscala de quilowatts (validação pioneira de engenharia)

Como o conceito global de esferas submarinas pretende estabilizar a rede eólica offshore?

O desenvolvimento chinês conecta-se a uma frente internacional de pesquisa que busca resolver a intermitência dos ventos em alto-mar. Projetos pioneiros europeus, como o StEnSea liderado pelo Instituto Fraunhofer na Alemanha, já haviam demonstrado a viabilidade de esferas de concreto com 3 metros de diâmetro a 100 metros de profundidade no Lago Constança.

A ambição da engenharia oceânica é ancorar conjuntos com centenas de esferas ocas de 30 metros de diâmetro a profundidades entre 600 e 800 metros na plataforma continental. Nessa profundidade, onde a pressão supera 60 a 80 atmosferas, uma única estrutura consegue estocar até 20 megawatt-horas (MWh), funcionando acoplada diretamente à base dos aerogeradores marítimos.

Abaixo, um vídeo do canal Innovative Techs (YouTube) que aprofunda o tema:

▶ Assistir no YouTube: Concrete Spheres for Energy Storage at the Bottom of the Ocean

Quais são as próximas etapas para levar a bateria submersa para a escala comercial de megawatts?

Embora o ensaio do Dongchu-1 no lago Minhu represente a primeira validação chinesa em ambiente aquático aberto na classe de quilowatts, o salto para o fornecimento comercial à rede elétrica exige ampliação de escala física. A quantidade de energia armazenada em uma esfera depende diretamente de dois fatores: seu volume interno útil e a profundidade em que é instalada.

A Dongfang Electric informou que os dados coletados nos mais de 100 ciclos servirão de base para projetar modelos de múltiplos megawatts. O consórcio, que conta com a participação acionária de grupos como a Shanghai Electric, planeja agora desenvolver protótipos de maior envergadura para testar o comportamento dos componentes em profundidades superiores e em bacias marítimas costeiras.

Engenheiro em estação de controle analisando gráficos de telemetria e pressão hidrostática em monitores técnicos.
Engenheiro avalia os dados de vazão e estanqueidade durante os ciclos da bateria subaquática — Créditos: Imagem gerada por IA

Quais os riscos de corrosão e fadiga mecânica enfrentados por estruturas no leito marinho?

A transição da água doce do lago para o oceano aberto impõe barreiras severas de durabilidade material. A água do mar contém altas concentrações de cloreto de sódio e sais minerais que aceleram a corrosão galvânica de ligas metálicas e provocam o acúmulo de bioincrustações biológicas, como mariscos e algas, capazes de obstruir válvulas de admissão e pás de turbinas.

Além da agressividade química, as esferas enfrentam fadiga mecânica cíclica. A cada ciclo de esvaziamento, a carcaça sofre compressão máxima sob o peso da coluna d’água; ao ser inundada, a pressão interna e externa se equalizam. Esse estresse estrutural contínuo exige ligas metálicas especiais ou concreto de ultra-alto desempenho projetados para resistir a décadas de oscilação barométrica sem trincas.

📖 Leia também: Mobilidade do futuro: Bateria mais moderna do mercado chega aos ônibus elétricos da BYD no Brasil

Tags: armazenamento de energiaDongchu-1energia renovável
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