Em 18 de março de 1965, durante a primeira caminhada espacial da história, o cosmonauta soviético Alexei Leonov viu seu traje inflar até se transformar em uma estrutura rígida no vácuo. Para conseguir retornar à cápsula Voskhod 2 por uma câmara de apenas 1 metro de diâmetro, ele tomou uma atitude extrema: purgou o oxigênio interno sob risco de descompressão e hipóxia.
A cerca de 498 quilômetros acima da superfície da Terra, o silêncio orbital revelou uma falha física imprevista. Ao tentar encerrar os 12 minutos e 9 segundos de flutuação cósmica, o cosmonauta soviético Alexei Leonov percebeu que as pontas de seus dedos já não alcançavam as extremidades das luvas e seus pés haviam se soltado das botas.
Por que o traje espacial Berkut inflou descontroladamente no vácuo cósmico?
Um traje espacial funciona biologicamente como uma cápsula hermética individual em miniatura. Na superfície terrestre, a pressão atmosférica do ambiente equilibra a pressão interna dos corpos. No vácuo do espaço, no entanto, a pressão externa cai para zero absoluto instantaneamente.
Para manter o sangue fluido e viabilizar a respiração humana, o modelo Berkut precisava manter uma pressão interna de trabalho em torno de 0,40 atmosferas (40,6 kPa) de oxigênio puro. Sem o anteparo de uma atmosfera exterior, o diferencial de pressão forçou os tecidos de borracha e camadas sintéticas a expandirem até o limite de tensão.

Como a engenharia soviética viabilizou a saída orbital com a câmara inflável Volga?
A nave Voskhod 2 era uma versão modificada da pioneira cápsula Vostok. Conforme detalham os arquivos históricos da Smithsonian Institution, os engenheiros liderados por Sergei Korolev não podiam despressurizar toda a cabine principal, sob risco de superaquecer os instrumentos eletrônicos de bordo que dependiam do ar circulante.
A saída técnica foi instalar uma eclusa externa desmontável batizada de Volga. Trata-se de um túnel de tecido que se desdobrava no espaço após o acionamento de cerca de 40 vigas de ar comprimido, criando uma passagem cilíndrica de apenas 1 metro de diâmetro interno.
Qual manobra física Leonov realizou para conseguir entrar de volta na nave?
Com o suprimento de suporte de vida limitado a 45 minutos de oxigênio na mochila dorsal, o cosmonauta abriu a válvula de alívio localizada no forro interno do traje. A pressão caiu gradualmente para 0,27 atmosferas (27,4 kPa), desinflando o tecido o suficiente para que os dedos recuperassem a empunhadura.
O manual de voo determinava que a entrada na eclusa ocorresse com os pés primeiro, permitindo fechar a tampa com as mãos livres. Bloqueado pelo formato do duto, Alexei Leonov contrariou o protocolo e mergulhou de cabeça para dentro do tubo inflável.
| Parâmetro Operacional | Especificação na Voskhod 2 |
|---|---|
| 🛰️ Altitude máxima orbital (apogeu) | 498 quilômetros |
| ⏱️ Tempo total no vácuo externo | 12 minutos e 9 segundos |
| 🎈 Pressão padrão do traje Berkut | 0,40 atm (40,6 kPa) |
| 📉 Pressão após sangria de emergência | 0,27 atm (27,4 kPa) |
| 🚪 Diâmetro da câmara inflável Volga | 1 metro |
| 🎒 Autonomia do suporte de oxigênio | 45 minutos |
O que as filmagens históricas revelam sobre a primeira caminhada espacial?
As câmeras de 16 milímetros instaladas no anel superior da câmara Volga registraram a silhueta do cosmonauta flutuando sobre a curvatura do planeta azul. As transmissões em preto e branco exibidas na televisão estatal soviética mostravam uma movimentação serena contra a escuridão estelar.
Entretanto, assim que o traje começou a apresentar dilatação excessiva, as emissoras de rádio e televisão de Moscou interromperam a exibição pública do evento. Os registros originais em película colorida preservam os momentos em que Leonov manuseava o cabo umbilical de segurança de cinco metros antes do início do sufoco térmico.
Abaixo, um vídeo do canal Smithsonian National Air and Space Museum (YouTube) que aprofunda o tema:
Quais registros históricos e médicos documentaram a quase tragédia da Voskhod 2?
Os exames médicos pós-voo registraram um quadro agudo de exaustão física e desidratação. Ao restabelecer a pressão atmosférica dentro da cabine ao lado de Pavel Belyayev, Leonov retirou o capacete e esvaziou litros de suor condensado acumulado nas dobras da vestimenta.
Documentos desclassificados nas décadas seguintes pela agência Roscosmos revelaram que os dados de telemetria da missão serviram de base para reestruturar todos os trajes espaciais posteriores. A NASA e os projetistas soviéticos adotaram rolamentos mecânicos selados e sistemas de contrapressão com camadas restritivas articuladas para evitar nova perda de controle volumétrico.

Quais perigos biológicos da descompressão e hipóxia Leonov assumiu no vácuo?
Ao purgar o oxigênio para a marca de 0,27 atmosferas, o cosmonauta aproximou-se perigosamente do limite biológico do ebulismo e da doença descompressiva severa. A queda brusca de pressão atmosférica faz com que os gases dissolvidos nos tecidos formem microbolhas de nitrogênio na corrente sanguínea, capazes de obstruir artérias e causar embolia gasosa.
Outro perigo imediato era a hipóxia aguda por redução da pressão parcial de oxigênio nos alvéolos pulmonares. Uma diminuição excessiva no fornecimento do gás causaria desmaio súbito em menos de um minuto, deixando o cosmonauta inconsciente do lado de fora da nave sem qualquer possibilidade de salvamento externo.
📖 Leia também: Astronautas da missão Artemis II veem algo inédito no espaço e avançam com a exploração da LuaApós superar a crise da caminhada e ejetar a câmara inflável, a cápsula Voskhod 2 enfrentou falhas no sistema automático de orientação durante a reentrada e tocou o solo a 386 quilômetros fora da zona prevista. Em meio às florestas geladas da taiga de Perm e cercados pela vida selvagem, Alexei Leonov e Pavel Belyayev precisaram sobreviver por dois dias em condições de inverno rigoroso até a chegada das equipes de resgate por terra.
