Um peixe fora d’água não deveria estar vivo. Menos ainda caminhando. No entanto, nas planícies alagadas do sudeste asiático, um animal faz exatamente isso: abandona a água, escala rochas e respira ar por dias seguidos, enquanto a biologia tradicional observa sem conseguir explicar todos os mecanismos por trás dessa sobrevivência impossível.
A migração que não deveria existir: nadadeiras que funcionam como patas e um órgão que respira ar
O peixe-escalador não caminha por acidente. Ele se desloca propositalmente entre corpos d’água quando seu ambiente seca, usando as nadadeiras peitorais como alavancas e as placas branquiais como pontos de apoio. O movimento não é elegante, mas é eficaz: um adulto percorre distâncias de até 100 metros por dia sobre lama, raízes e até troncos inclinados.
Essa locomoção terrestre depende de uma estrutura óssea que nenhum outro peixe possui nessa configuração. As nadadeiras modificadas possuem articulações reforçadas e músculos peitorais hipertrofiados que geram impulso suficiente para arrastar o corpo inteiro para fora d’água. Um estudo da Universidade de Chiang Mai, na Tailândia, filmou exemplares atravessando superfícies com inclinação de até 25 graus sem recuar.

O labirinto que desafia a fronteira entre peixe e anfíbio: o órgão que nenhum outro vertebrado aquático replica
Além das nadadeiras, o verdadeiro segredo está dentro da cabeça. O órgão labiríntico, uma estrutura suprabranquial localizada acima das brânquias, funciona como um pulmão primitivo. Ele é formado por tecido altamente vascularizado e capilares que capturam oxigênio diretamente do ar atmosférico, permitindo que o peixe respire fora d’água por 4 a 6 dias consecutivos.
Pesquisadores do Departamento de Biologia da Universidade Mahidol, na Tailândia, mediram a capacidade respiratória aérea do Anabas testudineus em condições controladas. Os resultados mostraram que o peixe mantém 85% da sua taxa metabólica normal durante as primeiras 72 horas em ambiente seco, um valor que nenhum outro peixe de respiração aquática consegue sustentar. O órgão labiríntico é tão eficiente que o animal pode morrer afogado se for impedido de subir à superfície para respirar ar.

Duas estratégias de sobrevivência que a evolução nunca deveria ter combinado
A combinação de locomoção terrestre com respiração aérea cria um paradoxo evolutivo. A maioria dos peixes anfíbios, como o peixe-cobra ou o bagre-caminhante, usa apenas um desses mecanismos de forma eficiente. O climbing perch domina os dois simultaneamente, o que o torna uma anomalia classificatória que desafia a taxonomia tradicional.
Abaixo, uma comparação entre as adaptações do peixe-escalador e as de outros peixes com algum grau de tolerância à exposição aérea.
| Espécie | Respiração aérea | Locomoção terrestre | Tempo máximo fora d’água |
|---|---|---|---|
| Anabas testudineus (peixe-escalador) | Sim (órgão labiríntico) | Sim (nadadeiras modificadas) | 4 a 6 dias |
| Channa striata (peixe-cobra) | Sim (epitélio branquial) | Limitada (serpenteia) | 2 a 3 dias |
| Clarias batrachus (bagre-caminhante) | Sim (órgão arborescente) | Sim (movimento serpentino) | 1 a 2 dias |
| Periophthalmus (saltador-do-lodo) | Não (respira pela pele úmida) | Sim (nadadeiras peitorais) | Horas (depende da umidade) |
Além da comparação acima, as descobertas mais recentes sobre o peixe-escalador incluem múltiplos mecanismos que operam em conjunto e que a ciência ainda está mapeando.
- Respiração aérea ativa por meio do órgão labiríntico vascularizado, que captura oxigênio atmosférico com eficiência de 85% da taxa metabólica normal.
- Locomoção terrestre com nadadeiras peitorais articuladas, permitindo deslocamento de até 100 metros por dia sobre superfícies inclinadas.
- Estivação parcial em lama úmida durante secas prolongadas, reduzindo o metabolismo em até 40% para conservar energia.
- Tolerância à amônia plasmática elevada, neutralizando resíduos nitrogenados que matariam outros peixes em poucas horas.
- Revestimento dérmico com muco bactericida que protege contra infecções durante a exposição aérea prolongada.
Espécie nativa do sudeste asiático, encontrada em planícies alagadas da Tailândia, Camboja, Vietnã e Índia. Chega a 25 cm de comprimento e pesa até 500 g na fase adulta.
Estrutura suprabranquial com tecido vascularizado que absorve oxigênio atmosférico. Presente em peixes da subordem Anabantoidei, mas excepcionalmente desenvolvida no climbing perch.
Universidades tailandesas como Chiang Mai e Mahidol lideram os estudos sobre locomoção terrestre e fisiologia respiratória do Anabas testudineus desde 2017.
Peixe-escalador realmente caminha ou apenas se arrasta? O que as filmagens de 2022 revelaram
Em 2022, pesquisadores tailandeses publicaram no Journal of Fish Biology a análise mais detalhada já feita sobre a locomoção terrestre do Anabas testudineus. Usando câmeras de alta velocidade, eles demonstraram que o movimento não é um simples arrasto. O peixe alterna as nadadeiras peitorais de forma coordenada, gerando um impulso rítmico que lembra a marcha de uma salamandra.
O estudo também revelou um dado surpreendente. A eficiência locomotora do peixe aumenta quando a superfície está úmida, mas não submersa. Sobre lama com 40% de umidade, ele atinge a velocidade máxima de 15 metros por hora. Em superfície seca, esse valor cai pela metade, mas ele continua avançando. Nenhum outro peixe com respiração aérea mantém esse desempenho fora d’água por mais de algumas horas.

